Mudança climática acelerou inundações que deixaram 1,4 mil mortos no Himalaia
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – As mudanças climáticas desempenharam um papel determinante no colapso de uma geleira e nas inundações catastróficas que atingiram a fronteira entre o Nepal e o Tibete, aponta o primeiro estudo científico sobre a tragédia. Conduzida por especialistas da rede internacional World Weather Attribution, a pesquisa concluiu que o aquecimento global impulsionou condições de calor excepcional antes do desprendimento em massa na cordilheira. O desastre humanitário na região do Himalaia deixou mais de 1,4 mil mortos confirmados e mais de 6 mil pessoas desaparecidas, evidenciando a vulnerabilidade extrema das populações periféricas diante do colapso ambiental do planeta.
Massa de gelo e rocha percorreu 200 quilômetros em sete horas
Segundo o levantamento técnico, o evento foi desencadeado pelo desabamento repentino de cerca de dois quilômetros quadrados de parede rochosa e gelo glacial. À medida que rochas, gelo e detritos despencavam rapidamente pela encosta íngreme, o atrito e a energia mecânica provocaram o derretimento instantâneo de frações massivas da geleira, gerando um volume descomunal de água de degelo. Essa torrente veloz e destrutiva percorreu mais de 200 quilômetros em menos de sete horas, arrastando comunidades, infraestruturas ribeirinhas e cursos de água.
A investigação reuniu cientistas do Nepal, Paquistão, Reino Unido, Irlanda, Suécia, Dinamarca, Noruega, Estados Unidos, Nova Zelândia e Holanda, abrangendo áreas como glaciologia, hidrologia de montanha, climatologia e sismologia. Os pesquisadores alertam que o aquecimento nas regiões montanhosas do Himalaia avança frequentemente ao dobro da média global, degradando o permafrost e provocando um recuo severo das geleiras, o que empurra os riscos naturais para muito além da capacidade de adaptação e resposta das comunidades locais.
Instabilidade do relevo soma-se aos efeitos do aquecimento global
O relatório ressalta ainda que os fatores geológicos locais ampliaram o alcance da destruição. As encostas da região já apresentavam fragilidades estruturais e instabilidades acumuladas desde o violento terremoto de Gorkha, registrado em 2015. A combinação entre o solo abalado por sismos anteriores e as temperaturas atipicamente elevadas causadas pelo efeito estufa criou o cenário propício para a ruptura súbita da montanha e a liberação da avalanche hídrica.
Os dados apresentados pelo estudo confirmam que a tragédia entre o Nepal e o Tibete não constitui um episódio isolado, mas expressa os impactos desiguais da crise climática sobre territórios que historicamente menos contribuíram para as emissões de carbono. Com mais de 1.400 vítimas fatais e milhares de desaparecidos sob a lama e os escombros, o episódio reforça a necessidade premente de responsabilização climática global e de investimentos urgentes em prevenção para os países do Sul Global.
Fonte: Brasil 247