Morre aos 95 anos Zuenir Ventura, jornalista que retratou lutas e transformações do Brasil

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Por Hora do PovoHora do Povo

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Faleceu nesta terça-feira (22), o jornalista Zuenir Ventura aos 95 anos. Durante mais de seis décadas de atuação no jornalismo, Zuenir construiu uma obra marcada pela cobertura de episódios políticos e temas sociais relevantes do país. Zuenir deixa a esposa, Mary Ventura, e os dois filhos, o jornalista Mauro Ventura e a editora Elisa Ventura.

“Morreu esta manhã, em casa, aos 95 anos, em decorrência de uma pneumonia, o jornalista e Acadêmico Zuenir Ventura. Seu corpo será velado amanhã na Academia Brasileira de Letras e enterrado no mausoléu da ABL no Cemitério São João Batista”, comunicou em nota a Academia Brasileira de Letras (ABL).

Segundo as informações, o jornalista morreu dormindo, sem dor e sem sofrimento. “O corpo estava muito fraco, mas ela ainda reconhecia a família e os amigos próximos. Conversava e fazia comentários divertidos sobre o próprio envelhecimento”.

Imortal da Academia Brasileira de Letras, ele era o sétimo ocupante da Cadeira n.º 32, sendo eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna.

“Meu pai fez da vida um exercício diário e permanente de aprendizado, humildade, descoberta e entrega. O ser humano mais generoso, irreverente, brincalhão e acolhedor que conheci”, escreveu o filho Mauro Ventura, em seu perfil nas redes sociais.

“Um imenso privilégio ter tido a oportunidade de conviver com alguém que teve uma trajetória marcada pela coerência entre vida pessoal e profissional, que cultivou os laços familiares e de amizade, que prezou a diversidade, que nunca transigiu com a ética, que combateu toda forma de autoritarismo e que reafirmou a todo momento os ideais democráticos”.

“São muitos os ensinamentos, que extrapolam a literatura e o jornalismo, e se espraiam para toda a minha vida”.

“Quando perguntado o que queria que ficasse de lembrança, ele dizia, citando meu avô: “Meu pai era um sujeito humilde, semialfabetizado, de moral rígida, mas muito ético, que criou os filhos com a maior dignidade. Uma vez me perguntaram qual era a herança que eu queria deixar. Eu não tive dúvidas: ‘Ser tão honrado quanto Zezé Ventura’.”, completou.

CARREIRA

Natural de Além Paraíba, interior de Minas Gerais, Zuenir Ventura foi pintor de parede, office-boy, jogador de basquete, arquivista, professor universitário e jornalista. Teve como professores grandes literatos, como Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli.

A proximidade com alguns de seus mestres abriu portas para o início da carreira. Celso Cunha, professor da Faculdade de Jornalismo, convidou-o para dar aulas de português, enquanto Hélcio Martins o indicou para um emprego no arquivo da “Tribuna da Imprensa”, onde começou a dar os primeiros passos na profissão.

No início da década de 1960, recebeu uma bolsa de estudos para o Centro de Formação dos Jornalistas de Paris. Entre 1963 e 1969, trabalhou como editor internacional do “Correio da Manhã”, diretor de redação da revista “Fatos & Fotos”, chefe de reportagem de “O Cruzeiro” e editor-chefe da sucursal carioca da revista “Visão”.

Em 1971, retornou à “Visão”, onde permaneceu até 1977. Depois, trabalhou na “Veja”, na “IstoÉ” e no “Jornal do Brasil”. Também foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Escola Superior de Desenho Industrial, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Ao longo da carreira, também atuou como colunista do jornal “O Globo”.

Um dos trabalhos mais conhecidos de Ventura foi o livro “1968 – O ano que não terminou”, publicado em 1988. A obra revisita acontecimentos políticos e culturais do ano que marcou a história brasileira e tornou-se uma referência sobre o período.

O livro também inspirou a minissérie “Anos Rebeldes”, produzida pela TV Globo. O capítulo “Um herói solitário” serviu de inspiração para o filme “O homem que disse não”, realizado pelo cineasta Olivier Horn para a televisão francesa.

Em 1989, Zuenir publicou no “Jornal do Brasil” a série de reportagens “O Acre de Chico Mendes”, trabalho que recebeu o “Prêmio Esso de Jornalismo” e o “Prêmio Vladimir Herzog”.

A relação do jornalista com temas sociais também marcou sua produção literária. Em 1994, lançou “Cidade partida”, livro-reportagem sobre a violência no Rio de Janeiro que recebeu o Prêmio Jabuti de Reportagem.

Entre outras obras, publicou “Chico Mendes – Crime e Castigo”, “O Rio de J. Carlos”, “Inveja – Mal Secreto”, “70/80 Cultura em trânsito – da repressão à abertura”, em parceria com Heloísa Buarque de Hollanda e Elio Gaspari, além de “Minhas histórias dos outros, 1968 – o que fizemos de nós e Conversa sobre o tempo”, com Luis Fernando Verissimo. Seu livro mais recente foi o romance “Sagrada Família”.

A trajetória de Ventura recebeu reconhecimento no Brasil e no exterior. Em 2008, a Organização das Nações Unidas (ONU) concedeu ao jornalista um troféu especial por sua contribuição à defesa dos direitos humanos no país nas três décadas anteriores.

Em 2010, foi escolhido “Jornalista do Ano” pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros. Seu trabalho também foi elogiado por publicações internacionais.

Ao comentar a série de reportagens sobre Chico Mendes e a Amazônia, a The New York Review of Books o classificou como um dos grandes jornalistas brasileiros. A revista britânica The Economist também destacou sua capacidade de observar e interpretar o Brasil.

Em 2022, aos 91 anos, Zuenir recebeu o “Prêmio Faz Diferença”, na categoria livros, pelo lançamento da versão ampliada de Minhas histórias dos outros. Na obra, reuniu histórias e lembranças de personalidades como Glauber Rocha, Nelson Rodrigues, Betinho e Carlos Drummond de Andrade.

Zuenir Ventura foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 30 de outubro de 2014, sucedendo o escritor Ariano Suassuna na Cadeira nº 32. Tomou posse em 6 de março de 2015, recebido pela acadêmica Cleonice Berardinelli.

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Fonte: Hora do Povo

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