Moqueca capixaba: por que o bairrismo exagerado é um problema

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Publicado em 15 de Outubro de 2026 às 05:00

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No Espírito Santo, a véspera do dia 30 de setembro é carregada de uma forte aura bairrista, algo não identificado em outras datas territorialmente simbólicas como o Dia da Colonização Espírito-Santense e o Dia de Nossa Senhora da Penha. 

Os motivos: um símbolo da identidade capixaba, o aniversário de um de seus mais ferrenhos defensores e uma polêmica das bravas envolvendo outros estados do Brasil. 

Vamos aos fatos. 30 de setembro é celebrado o Dia da Moqueca Capixaba. A data, que tem como finalidade o enaltecimento de um de nossos principais elementos culturais, foi escolhida como alusão ao aniversário de Cacau Monjardim, jornalista, escritor e criador da célebre frase: “Moqueca é capixaba, o resto é peixada”. 

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A frase surgiu quando Cacau ocupava o cargo de presidente da Empresa Capixaba de Turismo (Emcatur), órgão do governo estadual, criado na década de 1960 e que tinha como objetivo o desenvolvimento do turismo no Espírito Santo. 

Ele estava em viagem diplomática na Bahia e, ao provar a moqueca baiana, soltou a frase que posteriormente tornou-se uma campanha de marketing e, para alguns mais exaltados, motivo de briga com outros estados que têm a moqueca como símbolo cultural.


Para o entendimento, vamos à história. Para começar, pouco se sabe sobre a real origem da moqueca. É um prato plural, sendo possível encontrá-lo em diversos estados do Brasil e com várias formas de preparo. Segundo Patrícia Merlo, professora da Ufes e pesquisadora do assunto, a nossa moqueca capixaba tem provável origem no “moquém”, um prato indígena feito à base de peixes e assado na brasa. 

A versão, porém, não é a única usada para dar embasamento histórico ao prato. A moqueca baiana, por exemplo, tem a origem ligada à mu’keka, um prato de origem africana e cujo nome significa “caldeirada de peixe”. O toque africano caracteriza-se pela presença do azeite de dendê, condimento fortemente presente nas culturas africanas e que, em diáspora, alastrou-se no território brasileiro. 

A pluralidade não para por aí. A moqueca paraense costuma ter suas raízes ligadas aos povos indígenas e, em seu preparo, está o uso de ingredientes típicos da biodiversidade amazônica como o tucupi e o jambu. A maranhense conta com o azeite de coco babaçu, muito comum na região, e ovo cozido.

 

A multiplicidade da moqueca pelo Brasil é o que gera a necessidade de ter uma atenção especial sobre como abordamos e exaltamos o nosso prato.

A moqueca capixaba é a que menos tem incrementos líquidos, fazendo uso do próprio suco do peixe, valorizando seu sabor. Tal modo de preparo, porém, é resultado de influências territoriais, representando a dinâmica social, racial e etimológica existentes em solo capixaba, mas é algo que não sintetiza uma originalidade ou superioridade sobre as demais. 

Voltando à famosa frase de Cacau Monjardim, ela surgiu em contexto de valorização e enaltecimento de elementos culturais capixabas, principalmente visando um fomento do turismo, mas não pode ser usada com o objetivo de desqualificar ou diminuir os demais tipos de moquecas existentes no país.  

Tudo isso precisa ser dito porque, quando se fala de forma séria e agressiva, o que, com toda certeza, não era a intenção de Cacau Monjardim, estamos reproduzindo um movimento de subalternização e desvalorização de práticas e saberes tradicionais presentes em outros estados. 

Assim como para nós, capixabas, o ato de comer uma moqueca começa na retirada do barro para confecção das panelas, passando por conhecimentos, sociabilidades e interações importantes para a manutenção de vidas e culturas, as moquecas de outros estados também simbolizam sistemas que englobam pessoas, tecnologias e convívios sociais que são vitais para o fortalecimento da identidade local. 


O bairrismo, costumo dizer, é como fazer uma moqueca: é preciso ter extremo cuidado com o ponto. A partir do momento em que elementos identitários locais são usados para desqualificação dos demais e para a criação de uma suposta hierarquia, algo abominável quando se fala de cultura, deturpa-se o real sentido de sua existência. 

A moqueca capixaba é capixaba. A moqueca baiana é baiana. E todas presentes em território brasileiro levam à mesa características e particularidades de seus territórios, exaltando o que existe de mais potente neste país: sua pluralidade culutral.

Marcus Vinicius Sant’Ana

É historiador e mestre em Estudos Urbanos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa a cultura capixaba e manifestações populares brasileiras. É comentarista da CBN Vitória, no quadro Histórias do Cotidiano

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