Milícia, contravenção e Comando Vermelho: conheça a rede de Flávio Bolsonaro ligada ao crime organizado

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Por Leonardo Sobreira — Brasil 247

A relação política de Flávio Bolsonaro com Adriano da Nóbrega, ex-capitão da Polícia Militar apontado pelo Ministério Público como integrante da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio Escritório do Crime, é conhecida há anos. Quando era deputado estadual, Flávio concedeu homenagens a Adriano e empregou em seu gabinete a mãe e a então esposa do ex-policial. Adriano morreu em 2020 durante uma operação policial na Bahia.

Nos últimos anos, outros nomes próximos ao grupo político de Flávio passaram a aparecer em investigações relacionadas ao crime organizado no Rio de Janeiro. Os casos não se restringem às milícias: investigações da Polícia Federal alcançaram também a contravenção e esquemas relacionados ao Comando Vermelho.

Em 2022, a Polícia Federal apreendeu documentos atribuídos ao bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho. Entre eles estavam planilhas que registravam valores associados a políticos e partidos. Segundo reportagem do site ICL, aparecem entre os citados aliados da família Bolsonaro como Cláudio Castro, Rodrigo Bacellar, Hélio Lopes, Alexandre Ramagem e Gutemberg Fonseca. O ICL afirma ter tido acesso a mais de quatro mil páginas do inquérito e informa que as planilhas reproduzidas pela PF trazem registros referentes a 61 pessoas.

Os documentos foram encontrados em novembro de 2022 durante uma fase da Operação Smoke Free, investigação sobre o comércio ilegal de cigarros no Rio de Janeiro. O material voltou a ser analisado em 2026 no âmbito da Operação Unha e Carne, que passou a investigar a infiltração do crime organizado na política fluminense e esquemas de lavagem de dinheiro. Em uma de suas fases, a PF apontou uma organização suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis para lavagem de recursos, com participação de agentes públicos e movimentações superiores a R$ 7,6 bilhões, segundo relatório do Coaf.

Comando Vermelho

Outra frente das investigações envolve nomes politicamente próximos a Flávio Bolsonaro e a Operação Zargun, deflagrada em setembro de 2025 pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal. A operação investigou a infiltração de integrantes de uma organização ligada ao Comando Vermelho na administração pública fluminense, além de tráfico internacional de armas e drogas, contrabando, corrupção e lavagem de dinheiro. Segundo o MPF, o grupo buscava obter acesso a informações sigilosas e garantir proteção dentro da máquina pública.

Um dos principais personagens desse caso é TH Joias, ex-deputado estadual que, em setembro deste ano, tornou-se réu na Justiça Federal, junto com outros acusados, por um suposto esquema de corrupção, tráfico de drogas e contrabando relacionado ao Comando Vermelho. O MPF sustenta que a organização tinha presença na Alerj e em órgãos do governo estadual.

Também aparece nesse conjunto de investigações Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj. Em agosto, o STF recebeu denúncia da PGR contra Bacellar e TH Joias por suspeita de obstrução das investigações. Segundo a acusação, informações sigilosas da Operação Zargun teriam sido repassadas antecipadamente a TH, permitindo a ocultação de provas.

Outro nome é Gutemberg Fonseca, ex-secretário estadual de Defesa do Consumidor indicado por Flávio Bolsonaro. Mensagens obtidas pela PF registraram Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, apontado pelos investigadores como integrante do Comando Vermelho, falando sobre um encontro com Gutemberg para apresentar demandas e buscar “cobertura política”.

Segurança pública no debate eleitoral

Na campanha presidencial, Flávio Bolsonaro tem defendido a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. A proposta é considerada uma “cortina de fumaça” por especialistas, afinal, a forma de classificação desses grupos não alteraria o modus operandi nem a natureza dos crimes cometidos por essas facções. Além disso, a medida é vista com extrema preocupação em relação a soberania nacional, pois a mudança da classificação poderia ser a porta de entrada para uma atuação internacional no território brasileiro, como já cogitou o presidente dos Estados Unidos Donald Trump.  

Em seu pronunciamento na abertura da Assembleia Geral da ONU, ocorrido nesta terça-feira (22), o presidente Lula ressaltou que apresentou uma proposta a Trump para que os dois países atuem juntos no combate ao crime organizado, mas que não vai aceitar qualquer tipo de intervenção no Brasil.  

Além disso, em contraponto às falas de Flávio Bolsonaro, estão medidas apresentadas pelo governo Lula e que já passaram, total ou parcialmente, pelo Congresso.

A Lei Antifacção, sancionada em março deste ano, criou o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado. A legislação tipificou os crimes de domínio social estruturado e favorecimento ao domínio social estruturado e ampliou mecanismos penais e patrimoniais contra organizações criminosas ultraviolentas, milícias e grupos paramilitares. A lei também alterou regras do Código Penal, do Código de Processo Penal, da Lei de Lavagem de Dinheiro e da Lei de Organizações Criminosas, entre outras.

Já a PEC da Segurança Pública busca constitucionalizar e ampliar a integração entre União, estados e municípios no setor. O texto insere o Sistema Único de Segurança Pública na Constituição, amplia mecanismos de cooperação entre os órgãos de segurança, prevê novas regras para financiamento da área e estabelece tratamento penal mais rigoroso para lideranças e integrantes de facções, organizações paramilitares e milícias. A proposta foi aprovada pela Câmara e está no Senado, onde a CCJ aprovou o relatório, mas ainda restam emendas destacadas para votação antes da conclusão dessa etapa.

O debate sobre quais políticas produzem resultados concretos é um dos temas estudados por Alberto Kopittke, autor do Manual de Segurança Pública Baseada em Evidências. O trabalho sistematiza pesquisas brasileiras e internacionais sobre programas de prevenção e redução da violência e defende que políticas de segurança sejam avaliadas com base em dados e evidências científicas, em lugar de decisões fundamentadas apenas em crenças ou respostas intuitivas.

Fonte: Brasil 247

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