Milei, Galtieri e a questão das Malvinas
Por Carlos Latuff — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
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Em 2 de abril de 1982, tropas argentinas desembarcaram nas Malvinas na tentativa de tomar do governo britânico o controle das ilhas — chamadas de Falkland Islands pelo Reino Unido. Elas atendiam a uma ordem do então ditador argentino, o general Leopoldo Galtieri, que tentava, por meio de uma reivindicação histórica e de grande apelo popular, salvar a ditadura argentina (1976-1983) da grave crise econômica e insatisfação crescente.
Galtieri apelou para uma causa justa e antiga dos argentinos. A reivindicação remonta às disputas coloniais entre Espanha, França e Reino Unido pela posse do arquipélago, localizado a cerca de 500 km do litoral da Argentina. Em 1833, as forças navais do Império Britânico tomaram as ilhas e impuseram sua soberania. A reivindicação argentina pode ser entendida, portanto, como uma luta anticolonial.
O que Galtieri conseguiu, no entanto, depois que as forças argentinas foram derrotadas em 14 de junho de 1982 pela máquina de guerra britânica, foi apressar o fim do regime.
Em 3 de setembro de 2026, o presidente tresloucado da Argentina, Javier Milei, anuncia, em cadeia de rádio e TV, sanções contra empresas petrolíferas envolvidas no megaprojeto Sea Lion, voltado à exploração de petróleo nas Malvinas, afirmando que as ilhas são “histórica e legalmente” argentinas.
O governo argentino considera a exploração ilegal, alegando que ela ocorre em águas da plataforma continental argentina sem autorização de Buenos Aires. A decisão ocorre em um momento em que o governo de Milei atravessa uma fase de estagnação econômica, popularidade em baixa e inflação persistente, após o pesado ajuste fiscal promovido no início de seu mandato, apelidado de “Plano Motoserra”.
A declaração vem na esteira de uma entrevista que seu mentor, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concedeu ao canal de TV britânico GB News no mesmo dia, afirmando que estava revendo a posição da Casa Branca sobre as Malvinas e que se recusaria a assegurar apoio ao Reino Unido em caso de uma nova disputa com a Argentina, já que o governo britânico não apoiou a guerra dos EUA contra o Irã.
Como de hábito, fui monitorar as emissoras argentinas, que chegam muito bem por aqui em Porto Alegre por conta da propagação em ondas médias. E, claro, não foi difícil perceber que a decisão de Milei pautou a imprensa argentina.
No dia 4 de setembro, por volta das 21h58, horário de Brasília, a rádio Mitre, de Buenos Aires (790 kHz AM), tratou do assunto em seus noticiários e ouviu um veterano da Guerra das Malvinas chamado Julio Pedro Vázquez. Emocionado, Julio descreveu sua reação ao ver a faixa “As Malvinas são argentinas”, exibida pela seleção argentina durante a Copa do Mundo. Agradeceu a Milei, ressaltando: “Después te critico, después te critico, porque tengo cosas para criticarle“, e chamou de hijos de puta os que se opõem ao projeto do presidente argentino.
Já no dia 5 de setembro, às 18h27, horário de Brasília, o apresentador da Rádio 10, de Buenos Aires (710 kHz AM), em seu comentário sobre o tema das Malvinas, disse que o governo se apega à causa das Malvinas “por vê-la como uma força unificadora”. Afirmou que isso já havia acontecido em outros contextos, embora tenha ressaltado não ser daqueles que fazem comparações com Galtieri, já que Milei foi eleito democraticamente.
Claro que é difícil crer nas supostas intenções nacionalistas de Milei, afinal ele próprio, em 2024, em entrevista à BBC, havia elogiado Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica durante a Guerra das Malvinas. Soa mais como uma manobra oportunista, semelhante à tentada por Galtieri e que Milei agora quer emplacar para angariar a simpatia da população argentina.
Se essa cortina de fumaça vai funcionar ou não, é o povo argentino quem tem a palavra final, já que é a população argentina quem sofre com a pesada crise econômica e social na qual Milei afundou a Argentina.
*Carlos Latuff é chargista e colaborador do Brasil de Fato.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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Fonte: Brasil de Fato