Mídia empresarial, mentira e manipulação

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Por fernandaestima — Fundação Perseu Abramo

A mídia empresarial brasileira, a grande mídia, demonstrou o nítido alinhamento dela aos interesses das classes dominantes, em especial ao capital financeiro. Tal alinhamento se dá em uma conjuntura onde a importância dela já não é mais a mesma, face à emergência dos gigantes da mídia digital, ao mundo dos bots, dos trolls, dos algoritmos, embora caiba dizer da importância ainda a ela reservada no desdobramento dos acontecimentos políticos.

Li uma observação do grande Mino Carta, já tem tempo, onde ele considerava a natureza estrutural de tal procedimento da grande mídia porque, afinal, ela compunha o universo das classes dominantes, e de tal universo nunca se afastava, por óbvio. Não se desconheça, por justiça, a atuação de várias jornalistas, homens também, cujas convicções democráticas e seriedade com os parâmetros da profissão, furam várias vezes a lógica dominante. Aparecem como exceção, não como regra, especialmente se consideramos a cobertura política, e mais ainda, nos momentos decisivos da nossa história.

Há uma espécie de folha corrida dessa grande mídia, a evidenciar a adesão dela à sucessão de golpes no Brasil, militares ou não. Para não nos alongarmos, poderíamos recuar a 1954, data bem recente se considerarmos a história, quando ela participa decisivamente na construção do ambiente favorável ao golpe desfechado contra Getúlio Vargas, levando-o ao suicídio, atitude a provocar uma mobilização imensa e a derrotar a quartelada e pôr em fuga vários golpistas.

O golpe militar de 1964 contou com participação militante dela, e isso dispensa qualquer formulação ampliada, por muitos conhecida. Militares no poder, teve atitude conivente com a ditadura, mídia servindo de porta-voz dos porões, quando os mortos na tortura eram apresentados de acordo com os releases dos próprios organismos de repressão, nunca como assassinados pelos torturadores sob comando dos generais.

Em todas as eleições das quais Lula participou, ela o tratou como inimigo, e agiu sempre dessa maneira quando ele esteve na Presidência, sem exceção. E tratou o golpe contra Dilma Rousseff como rotina amparada na Constituição.

Houve quem quisesse defendê-la pelo comportamento face à pandemia, e aqui estamos falando da Rede Globo, quando de fato ela se colocou contra a política negacionista do então presidente da República, a levar à morte de mais de 700 mil pessoas. Cheguei a ressaltar aquela atitude como positiva, sem esquecer, no entanto, fazia questão de ressaltar, uma espécie de cláusula pétrea defendida por ela: a defesa da política econômica de Paulo Guedes, de corte rigorosamente neoliberal, entusiasticamente apoiada por ela. No essencial, portanto, tinha lado. As políticas de exclusão do governo, absolutamente acolhidas pela grande mídia, pouco importando se levasse o povo à fila do osso.

Enganou-se, e redondamente, quem tenha imaginado pudesse a mídia empresarial brasileira ter alguma atitude de simpatia com o novo governo Lula, nascido da vitória sobre o bolsonarismo. Toda ela, e especialmente o grupo Globo, esteve na trincheira oposicionista a Lula. Seja pelo noticiário negativo, seja pelo silêncio ou coberturas enviesadas disfarçadas de jornalismo. E quando chegou o momento de a onça beber água, ela desnudou-se, escancarou a escolha, particularmente o time da Globo. Não há variação no comportamento da grande mídia empresarial brasileira. Nunca.

Houve quem pensasse em jornalismo na cobertura da eleição presidencial recente. Por parte da Rede Globo, de modo especial, zero. Naturalizou a traição à pátria por parte do candidato bolsonarista, banalizou-a. Agiu como se tal traição, confessada, exposta a olho nu, fosse normal. Escondeu-se o escandaloso caso Dark Horse, apesar das gritantes evidências.

Que jornalismo?

Deixou de lado a trajetória dele, intimamente vinculada ao crime organizado, às milícias, principal artífice da quadrilha alevantada no Rio de Janeiro, boa parte presa. Justiça se lhe faça: o Estadão foi o único veículo a dizer do risco de um miliciano chegar à presidência da República, não obstante jamais tenha tido alguma simpatia por Lula. Não naturalizou tal candidatura.

Adam Przeworski, em Capitalismo e Social-Democracia, defende que o que distingue as instituições específicas, tanto as que aparentam ser de caráter privado como as que parecem ser diretamente políticas, não é a função delas sob o exercício normal da hegemonia, e sim a ordem e a maneira como revelam suas funções coercivas quando a hegemonia é ameaçada.

No Brasil, a história parece ser outra. A mídia empresarial atua contra qualquer iniciativa reformista, mesmo aquelas cujas consequências não abalem os fundamentos do capitalismo, não causem tremores na hegemonia do neoliberalismo, forma encontrada pelo domínio capitalista desde os anos 1980. Ela se insurge contra reformas, e falamos de mudanças no âmbito do modo de produção capitalista, nada além disso, quaisquer sejam, e isso pode ser comprovado ao longo de nossa história recente.

No caso brasileiro, quando pensamos o desenvolvimento do capitalismo no pós-ditadura, a mídia empresarial brasileira só sentiu ameaça à hegemonia do modelo capitalista dominante, nem estamos falando de qualquer ameaça ao modo de produção capitalista estrito senso, quando teve início o que poderíamos chamar Era Lula, a partir de 2003.

E as ameaças, se podemos dizer dessa maneira, foram políticas públicas destinadas a melhorar a vida do povo, cujo alcance era significativo, mas estavam longe de significar qualquer tremor mais profundo nos alicerces neoliberais. E ela, depois de apoiar a política neoliberal dos governos Temer e Bolsonaro, opôs-se de modo determinado ao governo Lula exatamente porque ele insistiu em reconstruir as políticas públicas voltadas a melhorar a vida do povo, inclusive da classe média, mínimo a se pedir de um governo progressista, cuja liderança, Lula, sempre se pautou por tal política.

E agora, não obstante o candidato adversário fosse um autêntico chefe de milícias, como caracterizado pelo Estadão, tomou posição e fez campanha aberta por ele, inclusive ignorando deliberadamente fatos graves envolvendo-o, de modo a beneficiar a candidatura. De várias formas, garantiu-lhe um figurino de candidato normal, não de um político intimamente ligado ao crime organizado, como o comprovam até mesmo as coberturas da própria grande mídia, por impossível de ignorar.

Duas ou três palavras na principal aposta da Rede Globo, a do debate entre os candidatos, a 48 horas do pleito. Rigorosamente, a rede fez um acordo com Flávio Bolsonaro: iria montar o espetáculo, de modo a favorecê-lo inteiramente. Com dois candidatos sem expressão, Zema e Caiado, e com a cadeira do Lula vazia – se negara a participar –, Bolsonaro bombardearia o ausente, ele e os dois parceiros. O espetáculo favoreceria o filho do ex-presidente da República, preso por ter cometido o crime de tentativa de golpe.

Faltou combinar com os russos. O Judiciário, de um lado, impediu o bombardeio, vetando a cadeira vazia e perguntas a candidato ausente. De outro, permitiu a participação de Renan Santos, de quem Tariflávio foge como o diabo foge da cruz. Santos, situado até à direita do filho de Bolsonaro, aponta-o, nesse caso de modo acertado, como profundamente ligado ao crime organizado. Como é da característica dele, covarde incorrigível, Tariflávio abandonou o ringue, antes de entrar. Temeu certamente repetir episódio ocorrido em 2016, no Rio de Janeiro, quando quase desmaiou num debate, e teve de ser amparado por Jandira Feghali.

A derrota acachapante no caso do debate não-realizado foi da Rede Globo. Por caminhos improváveis, terminou desmoralizada. Uma noite memorável, e memorável pela desmontagem de um circo armado e o fortalecimento da audiência do podcast onde Lula daria, como deu, entrevista, com audiência superior a 1,5 milhão de pessoas. As encenações da Globo destinadas a contaminar eleições, a prejudicar adversários, como o fez com Brizola, com Lula, parecem estar no fim, e digo parecem porque ela ainda insistirá.

Quando uso a palavra adversários, não o faço por descuido. A Rede Globo sempre atuou como partido político. Nasceu como afilhada da ditadura, destinada a se tornar, desde o início, porta-voz dos crimes cometidos por ela, e disso nunca teve constrangimento, e toda a rede foi construída com oligarquias regionais. E depois, findo o regime militar, acomodou-se sempre ao lado dos interesses dominantes, vivendo, com Fernando Henrique Cardoso, uma venturosa lua de mel, isso depois de namorar com Collor, só rompendo depois dos desastres cometidos por ele.

A oposição a Lula teria ganhado ainda mais força quando ele resolveu colocar-se contra as Bets no Brasil. O grupo Globo e MGM Resorts International formaram uma joint venture denominada Boa Lion para operar a marca de apostas BETMGM no mercado brasileiro. Lula é uma pedra no sapato desse negócio, atrapalha a jogatina – toda a jogatina, e também a patrocinada pela Rede Globo em parceria com a empresa norte-americana, natural de Las Vegas, a segunda companhia de cassinos do planeta. Com isso, é possível voltar à fala de Mino Carta, quando falava da mídia empresarial brasileira, e aplicá-la à Rede Globo.

Ela não age dessa maneira, tão partidarizada, no sentido de ter um lado, e apenas um, invariavelmente, o das classes dominantes, a integrar tal universo compactamente, por qualquer deformação. É da natureza dela. Procede assim por ter interesses gigantescos a defender, interesses de um grande monopólio voltado ao lucro, e por isso, pouco importa seja um chefe miliciano a assumir a Presidência. Importa é a disposição dele de favorecer os poderosos negócios da família Marinho, não só os de tal família, evidentemente.

Como não continuar a jogatina, uma atividade sem risco nenhum? Danos colaterais, deve pensar, acontecem em qualquer guerra, e também em qualquer negócio. Se pessoas se endividam, paciência. Se pobres se tornam mais pobres em decorrência de tal atividade, problema delas. Se famílias se desestruturam, é da vida. O importante é o dinheiro resultante do empreendimento rentável, e de baixo custo.

Uma rede como essa, imersa no capitalismo monopolista, pode pensar em fazer jornalismo? Os baianos diriam: me bata um abacate. Ou me faça uma garapa. Jornalismo, jornalismo mesmo, tal e qual deve ser pensado, cobertura jornalística, todos os lados considerados, ela jamais fez, e menos ainda quando ocorrem eleições. Sei, o mundo da comunicação hoje não é refém da Globo, e há mecanismos de manipulação até superiores a ela, com as gigantescas fazendas de trolls e bots, com as redes sociais elegendo imbecis, e não é força de expressão, e isso seria assunto para outro artigo.

Mas, como já dito, ela ainda ocupa um espaço significativo, e por ocupar, intervém politicamente, atacando de todo jeito quaisquer propostas de reformas, e sempre, de todos os modos, tentou alvejar Lula, jamais conseguindo, no entanto, diminuir o extraordinário protagonismo político dele.

As redes tradicionais de televisão estão perdendo força, mas não se cansam de trabalhar em favor dos privilégios dominantes, elas próprias beneficiárias, porque parte dos mais fortes economicamente.

A quem defende o jornalismo, com toda a carga democrática dele, se levado a sério, resta tocar em frente, sem nunca abrir mão da utopia de sempre buscar a verdade, combater a mentira, recusar a manipulação, por mais difícil, quase impossível, seja a tarefa.

Esta eleição, agora vivendo a batalha do segundo turno, revelou novamente o escândalo de uma mídia empresarial inteiramente envolvida com o candidato miliciano, pronto a dar sequência ao governo do pai, como expressamente prometeu. Toda ela, não apenas a Rede Globo. Lembro, quando penso nessa atitude tão distante dos parâmetros do jornalismo, no que dizia há coisa de um século o grande jornalista, e comunista, Antonio Gramsci, caracterizando um grupo de jornais e emissoras como um autêntico partido político, tal e qual podemos configurar a mídia empresarial nos dias atuais: é um partido político.

Não haverá mudanças no embate do segundo turno. A mídia empresarial seguirá parceira das classes dominantes, porque, como já dito, integrante indissociável delas. Seguirá sendo mentira e manipulação. Considerando isso, a candidatura Lula, espero, primeiro terá de dar uma atenção muito maior às redes sociais, pelo significado atual delas, valer-se de todo o instrumental posto à disposição nos dias de hoje, de modo a fazer a disputa de modo vitorioso. E, segundo, olhar com mais carinho para os tantos veículos do mundo digital com visão progressista, conseguindo de fato fazer jornalismo, muito diferente de tudo o que ocorre na mídia das grandes redes de comunicação. E, sem dúvida, deverá dar atenção redobrada às redes sociais, cujo papel tem sido obviamente essencial.

Essa política de comunicação, com tais ênfases, amparada na revelação de tudo o que foi feito pelo governo Lula e na demonstração do significado desastroso para o povo da eleição de um miliciano totalmente voltado ao mundo do capital, aos interesses dos muito ricos, é que poderá garantir a vitória de Lula no segundo turno. Vamos vencer!

Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (v. I), entre outros

Referências

COTRIM, Bernardo. Globo perde o monopólio do debate, ataca o Judiciário e aposta no caos. Atropelada pela realidade, Globo dobra a aposta que a levou ao descrédito. ICL Notícias, 3/10/2026.

PRZEWORSKI, Adam. Capitalismo e Social-Democracia / Adam Przeworski : tradução Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 200.

Fonte: Fundação Perseu Abramo

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