Microsoft exibe fake news sobre Lula no Windows e no portal MSN
Por Maurício Moraes — Intercept Brasil
O portal MSN, página agregadora de notícias de diferentes fontes mantida pela Microsoft, tem distribuído desinformação e ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Os posts falsos, que foram tirados do ar após o Intercept pedir um posicionamento à Microsoft, têm origem em uma parceria com o site 111Next, que pertence à Jetss, uma empresa de comunicação com registros no Brasil e nos Estados Unidos.
Segundo o próprio MSN, o canal do 111Next na plataforma possui quase 100 mil seguidores. Além de abastecerem um site, as notícias agregadas dentro do portal da Microsoft também são divulgadas por meio de um widget – uma espécie de tela interativa – disponível para todos os usuários das versões mais recentes do Windows. De acordo com o Statcounter, plataforma irlandesa especializada em análises de mercado, estima-se que 86,7% dos computadores no Brasil usem o sistema operacional.
Entre as notícias encontradas no canal está uma peça de desinformação que sugere, de maneira enganosa, que o presidente Lula seria o mandante do assassinato de Celso Daniel, ex-prefeito de Santo André, em São Paulo, que era filiado ao PT. A acusação já foi desmentida pelas investigações do caso.
Em imagens publicadas com outro texto, o 111Next induz os leitores a pensarem que artistas como Caetano Veloso e Djavan teriam recebido recursos da Lei Rouanet para participar do Ato Musical pela Democracia, realizado no domingo, 18, em Copacabana, no Rio de Janeiro. No texto que acompanha as fotos com a informação falsa, o próprio site admite que não há registro de que o evento tenha recebido dinheiro público.
O site 111Next também ataca Lula por meio de peças de propaganda. Uma delas, intitulada “13 motivos para não votar no Lula”, chegou a figurar em destaque no widget do Windows, mostra print enviado ao Intercept Brasil por uma leitora. Em outro texto, a página apresenta um tutorial para rebater acusações de que o candidato a presidente pelo PL, Flávio Bolsonaro, seria uma ameaça à democracia.

Não é possível medir o alcance exato que as peças de desinformação estão ganhando graças à parceria entre o 111Next e o MSN. Segundo a Microsoft, o MSN utiliza inteligência artificial para fazer recomendações personalizadas de conteúdo para cada usuário.
Entre os canais de distribuição dessa curadoria estão produtos da multinacional como o navegador Edge e o CoPilot — ferramentas integradas ao Windows, o sistema operacional mais utilizado no mundo. Isso indica que o alcance das publicações pode ir muito além dos 100 mil seguidores do canal 111Next.
Em seu perfil oficial no Instagram, o 111Next apresenta-se como parceiro da Microsoft e diz ter sido fundado por Camila Alves Souza, empreendedora que comercializa uma ferramenta para a criação de vídeos virais utilizando IA, a iCHAIT.
Ambos os sites são vinculados à página de curadoria de notícias Jetss que, além de português, possui versões em inglês e espanhol. O hub inclui uma terceira marca de conteúdo similar, a PaiPee.
O foco da rede é a produção em massa de notícias estilo caça-clique, ou o famoso clickbait – como fofocas sobre famosos e temas apelativos relacionados à saúde, entre outros. Os conteúdos de política aparecem intercalados com outras notícias.
Antes da proibição das bets no Brasil, o hub também produzia publieditoriais – conteúdos pagos por marcas e que se assemelham a textos jornalísticos – com propaganda de jogos de azar. Esse tipo de anúncio ainda é exibido nas versões estrangeiras da rede de notícias.
A Jetss.com Inc. está registrada em Miami, nos Estados Unidos, e tem Camila Alves Souza como diretora. No Brasil, a Jetss Comunicação Ltda. está em nome de Mauro e Graziela Alves Souza — respectivamente, pai e irmã de Camila. Nas eleições de 2022, Mauro foi candidato a deputado federal pelo PL no Rio de Janeiro, adotando como slogan “Eu, você e Bolsonaro no combate a corrupção”. Ele não se elegeu e não voltou a concorrer neste ano.
Hub de desinformação
Um dos destaques no 111Next nos últimos dias era a chamada “Lula é apontado como mandante do assassinato de Celso Daniel”. O texto consistia em um corte de vídeo de uma reportagem de seis anos atrás, fora de contexto e que exibia em letras garrafais a frase “a bomba explodiu!”, como se fosse um conteúdo recente.
A reportagem ressuscitada pelo site havia sido veiculada originalmente pelo Domingo Espetacular, da Record, em outubro de 2019. Ela afirmava que o publicitário Marcos Valério teria apontado Lula como um dos mandantes do assassinato do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel. A acusação, porém, nunca foi comprovada.
Na época, Valério relatou ao Ministério Público ter ouvido de terceiros que um empresário chantageava a cúpula do PT ameaçando implicar Lula no crime para obter recursos. No entanto, o publicitário não apresentou provas dessa alegação. O assassinato de Daniel ocorreu em 2002, e a Polícia Civil concluiu tratar-se de um crime comum (sequestro seguido de morte). O Ministério Público de São Paulo discordou da tese e investigou potenciais motivações políticas para o crime, mas elas não foram comprovadas. Ao longo das investigações, Lula nunca foi indiciado, denunciado ou julgado como mandante do homicídio.
Outro conteúdo desinformativo publicado pelo site tem como manchete “Artistas que receberam milhões do Governo Federal e estatais participarão de showmício em apoio a Lula”. O tema da reportagem são patrocínios obtidos por meio da Lei Rouanet — lei de incentivo à cultura que é alvo recorrente de ataques da extrema direita.
As imagens que acompanham a matéria contêm montagens que associam falsamente valores angariados pelos artistas ao Ato Musical pela Democracia, organizado pelo 342 Artes e pela Mídia Ninja. Um dos cartazes afirma que Caetano Veloso teria recebido R$ 4,3 milhões para sua apresentação no ato. Outro faz associação similar entre a presença de Djavan em Copacabana e um pagamento de R$ 4,1 milhões.

As afirmações são desmentidas pelo próprio texto que acompanha o carrossel de imagens, onde é explicado que os patrocínios foram destinados a projetos culturais específicos, que não têm nenhuma relação com a manifestação.
O texto também induz o leitor ao erro por outro motivo ao chamar o evento de “showmício”, prática proibida no Brasil pela legislação eleitoral – Lula sequer esteve no Rio de Janeiro no domingo.
Já o conteúdo que apresenta “13 motivos para não votar no Lula” é uma mescla de dados econômicos e históricos com opiniões, omissões e descontextualização, que resultam em uma retórica oposicionista e alarmista.
Algumas notas apresentam informações desatualizadas. Ao citar a cobrança de impostos, por exemplo, o texto menciona a chamada “taxa das blusinhas” (imposto de 20% sobre compras até 50 dólares), mas omite que a medida foi revogada pelo próprio governo.
LEIA TAMBÉM:
- Enquanto defende soberania e critica big techs, Brasil torrou R$ 10 bilhões em um ano com Google, Microsoft e Oracle
- Microsoft censura e-mail: empregados podem falar de Israel, mas não de Gaza e Palestina
- Big techs se escondem atrás de outras empresas para operar data centers no Brasil
Da mesma forma, a peça alega proximidade de Lula com o ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro, citando uma declaração verdadeira de 2023. Ignora, no entanto, que Lula e a chancelaria brasileira não reconheceram o resultado das eleições mais recentes no país, por considerarem que houve falta de transparência por parte do governo Maduro.
Diversos outros pontos não são passíveis de verificação objetiva, pois representam juízos de valor — como um texto que atribui uma “mentalidade de miséria” ao candidato do PT.
Outro lado
Procurada na sexta-feira, 16, a Microsoft disse que estava analisando o conteúdo sinalizado pelo Intercept e que tomaria “as medidas cabíveis” de acordo com suas políticas.
Segundo a empresa, seu objetivo é proporcionar aos usuários “uma experiência confiável, segura e envolvente” e ela espera que seus parceiros sigam seus “padrões profissionais de publicação”.
Em casos de violações de suas políticas, a multinacional afirma adotar “as medidas cabíveis, que podem incluir, entre outras, a remoção de conteúdo proibido ou o encerramento do (…) contrato de licenciamento”.
A nota da Microsoft diz ainda que a empresa utiliza “uma combinação de sistemas automatizados e revisores humanos treinados para detectar, avaliar e lidar com conteúdos enganosos” e que seus usuários podem “denunciar conteúdos que considerem incompatíveis com (…) [seus] padrões”. Leia aqui a resposta da Microsoft na íntegra).
Após enviar o posicionamento à reportagem, a Microsoft informou que removeu do MSN algumas notícias citadas nesta reportagem, entre elas a desinformação sobre a morte de Celso Daniel e a peça que listava motivos para não votar no PT.
O Intercept também procurou a Jetss, dona do 111Next, e seus responsáveis citados na reportagem, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
O post Microsoft exibe fake news sobre Lula no Windows e no portal MSN apareceu primeiro em Intercept Brasil.
Fonte: Intercept Brasil