“Meter fogo nos isolados”: ordem de ex-coordenador da Funai no governo Bolsonaro é um dos horrores que podem voltar com o filho

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Por Daniel Levi — Combate Racismo Ambiental

Guilherme Gnipper / FPEYY / Funai / 2016

“Meter fogo nos isolados”: ordem de ex-coordenador da Funai no governo Bolsonaro é um dos horrores que podem voltar com o filho

A antipolítica indigenista do governo Jair Bolsonaro, que defendia “meter fogo” em todos aqueles que “não deveriam existir”, certamente será retomada com o filho e podemos evitar

Por Guenter Francisco Loebens, do Cimi Regional Norte I e da Equipe de Apoio aos Povos Livres (Eapil)

“Meter fogo nos (indígenas) isolados” foi uma frase dita, em 2021, não por um cidadão qualquer, mas pelo então coordenador da Coordenação Regional (CR) da Funai no Vale do Javari, o tenente do Exército Henry Charlles Lima da Silva, nomeado pelo governo Bolsonaro. A orientação foi dada aos Marubo diante da aproximação de indígenas isolados de sua aldeia. Cinco anos após o ocorrido, o ex-coordenador da Funai foi finalmente condenado pela Justiça Federal por dano moral coletivo, em uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF).

O episódio traz à memória o que representou a antipolítica do governo de Jair Bolsonaro, que pretendia “meter fogo” em todos aqueles que “não deveriam existir” em razão de sua origem, nos considerados descartáveis e “improdutivos” e naqueles que se opunham ao seu projeto autoritário de proteção dos mais abastados. Para isso, vendia à população a ilusão de que os complexos problemas da nação seriam resolvidos com armas em punho, negacionismo e motociatas.

A boiada da bandidagem foi solta para avançar sobre terras indígenas, unidades de conservação e florestas, acompanhada de uma agenda para “meter fogo” nos direitos e na vida dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, bem como nas leis de proteção ambiental. Servidores públicos foram constrangidos e desamparados no cumprimento de suas obrigações funcionais, sob o comando de dirigentes desqualificados e obedientes às ordens superiores, com o objetivo de facilitar a destruição dos territórios e favorecer o avanço predatório do capital.

Meteram fogo em Maxciel Pereira, ex-servidor da Funai, no indigenista Bruno Pereira e no jornalista Dom Phillips, no Vale do Javari. Meteram fogo no território Yanomami e em inúmeros outros territórios indígenas, onde o crime organizado se enraizou e passou a atuar como guarda-costas de todo tipo de atividade ilegal e criminosa. A violência explodiu e, diante do sofrimento, como o das numerosas mulheres Yanomami que perderam seus filhos em decorrência do garimpo ilegal, o então presidente se gabava de não ter demarcado um centímetro de terra indígena e de não ter cumprido a Constituição.

Os povos indígenas isolados, sobre os quais se deveria “meter fogo”, ou seja, que deveriam ser literalmente mortos, ficaram sem proteção, expostos e sujeitos a massacres como os ocorridos com o avanço das estradas e das frentes colonizadoras sobre a Amazônia a partir de meados do século passado.

Diante da possibilidade de a extrema direita voltar ao poder, a bandidagem ambiental já está em polvorosa, convencida de que o desmatamento, a grilagem e as invasões de terras indígenas e unidades de conservação deixarão de ser combatidos e continuarão impunes. Essa expectativa é alimentada pelas declarações de Flávio Bolsonaro de que seguirá os passos do pai, inclusive no que diz respeito à não demarcação de terras indígenas.

A política de Lula não é o céu, mas sua reeleição manterá aberto o caminho a ser trilhado pela maioria da população, com a preservação da democracia e da soberania e a continuidade de políticas públicas formuladas e debatidas a partir dos direitos fundamentais das cidadãs e dos cidadãos.

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