Master tentou passar para BRB dívida de R$ 387 mi por terreno que vale 121 vezes menos
Por Schirlei Alves — ICL Notícias
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Por Pedro Borges, da Alma Preta e Flávio VM Costa, do ICL Notícias
O Banco Master tentou por quatro vezes repassar para o Banco de Brasília (BRB) o direito de receber uma dívida de R$ 387 milhões, mas a operação foi impedida pela justiça.
O Master emprestou R$ 387 milhões para a empresa SI 04 Empreendimentos Imobiliários com a garantia de 231 imóveis do Loteamento Alpes de Campos do Jordão, na cidade de Campos do Jordão (SP), que foram adquiridos pelo valor R$ 3,2 milhões – quase 121 vezes menos do que o empréstimo. Essa foi a dívida que o banco de Daniel Vorcaro tentou repassar para o BRB.
Em três oportunidades, o cartório de registro de imóveis da cidade de Campos do Jordão afirmou que a transferência não foi bem sucedida pela falta do “cumprimento de exigências” de informações do próprio cartório. Na quarta e última tentativa, o negócio não avançou porque os bens do Banco Master ficaram indisponíveis por decisão da justiça.
As informações são de um comunicado do cartório de imóveis da cidade do interior paulista de fevereiro deste ano, acessado com exclusividade pela Alma Preta e o ICL Notícias .
Desde novembro de 2025, o Tribunal Regional Federal da 1ª região (TRF1) tornou o imóvel de Campos de Jordão “indisponível”, ou seja, sem a possibilidade de ser vendido ou transferido. O processo no TRF1 corre em sigilo.
A Alma Preta e o ICL Notícias perguntaram ao cartório quais foram as exigências que não foram cumpridas pelo banco. O cartório respondeu que nada tem a acrescentar para além do que está escrito no documento. Ao Ministério Público, a reportagem perguntou sobre detalhes da participação do Banco Master na compra dos imóveis. O órgão não respondeu aos questionamentos.
A defesa de Daniel Vorcaro não emitiu um posicionamento. O espaço segue aberto para qualquer manifestação.

O caso Banco Master
O Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro do ano passado, após a descoberta de uma série de irregularidades financeiras envolvendo a instituição comandada por Daniel Vorcaro, um empresário mineiro com atuação anterior no mercado imobiliário.
O banco não conseguia honrar as taxas de retornos impraticáveis dos Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) que oferecia aos investidores, além de ter obtido vultosos investimentos de fundos de pensão de aposentados e pensionistas. O prejuízo total do esquema criminoso chegou a R$ 52,2 bilhões.
A investigação da Polícia Federal aponta que Daniel Vorcaro vendeu títulos de crédito e carteiras de empresas ao BRB que careciam de garantias reais. Entre 2024 e 2025, o banco público do governo do Distrito Federal perdeu R$ 8,8 bilhões para comprar esses ativos fraudulentos. A tentativa de venda do Master para o BRB foi barrada pelo Banco Central.
Vorcaro está preso desde o mês de março e negocia com a PF e a PGR (Procuradoria-Geral da República) um acordo de delação premiada. A proposta já foi negada duas vezes.
Imobiliária afirma não ter recebido todo o valor do empréstimo
Max Lobato Sales comprou o loteamento Alpes de Campos do Jordão pelo valor de R$ 3,2 milhões. Adquiridos os 347 lotes, o empresário do ramo imobiliário utilizou parte da área como uma das garantias de uma dívida de R$ 387 milhões que contraiu com o Banco Master.
Sales é associado às empresas SI 02, SI 03, SI 04 – Empreendimentos e Incorporações, para além de outras companhias do setor imobiliário. Ele tem participação como administrador, sócio ou gerente em mais de 60 empresas.
Em nota enviada para a reportagem, a SI 04 Empreendimentos Imobiliários afirmou não ter obtido qualquer “vantagem” na operação e que recebeu aproximadamente R$ 58 milhões do total prometido, dinheiro que foi investido no loteamento. O restante do recurso foi retido pela justiça por conta da crise do Banco Master, de acordo com a nota.
“A SI 04 tão simplesmente obteve um empréstimo, deu bens em garantia e não obteve a correspondente liberação de valores para o desenvolvimento do projeto, e, por isso, se encontra em situação de evidente prejuízo. A relação com o Banco Master foi estritamente comercial, assim como com os outros bancos do sistema financeiro”, afirmou em nota a empresa.
A SI 04 ainda afirmou que todo o dinheiro do empréstimo foi “aplicado em fundo de investimento solicitado pelo próprio banco credor”. As demais garantias foram a própria empresa SI 04 Empreendimentos Imobiliários e todo o saldo de caixa do investimento que a SI 04 fez com o dinheiro emprestado pelo próprio Banco Master. Ou seja, o Banco Master demonstrou ter gerência sobre o próprio empréstimo que realizou.
“A operação estava mais que garantida, e quem saiu severamente prejudicada ao final foi a empresa SI 04, que, além de não ter recebido a maior parte do dinheiro do empréstimo, está agora com os seus lotes bloqueados”, afirmou em nota.
Toda a área do Alpes de Campos do Jordão pertencia a um banco estrangeiro, que firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público de São Paulo por conta de irregularidades na área. Por conta do acordo, o banco se comprometeu a vender os terrenos.
Segundo estudo da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), os 224 hectares dos 347 lotes do Alpes de Campos do Jordão estavam irregulares com a prefeitura de Campos do Jordão. A área foi alvo de uma ação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) que mostra que no local existe também uma “área de preservação permanente”, que deve se transformar em uma “área verde pública”, segundo o acordo.
Max Lobato Sales tem histórico de calote
Em fevereiro de 2025, o jardineiro Edcarlos Cerqueira moveu uma ação judicial contra uma das empresas associadas a Max Lobato Sales depois de tentar comprar um imóvel e a obra atrasar.
Cerqueira passou a pedir para efetuar os pagamentos para ter seu imóvel, mas não teve retorno por parte da Jardim Monte Rei Empreendimentos Imobiliários Ltda, que deixou de gerar os boletos para pagamento. O imóvel fica em Itú, interior de São Paulo, no Jardim Monte Rei, descrito como um “bairro planejado” na cidade.
Ao todo, Cerqueira pediu na justiça R$ 64 mil para ressarcir o valor das parcelas pagas, o serviço dos advogados e os danos morais, entre outros custos.
A justiça chegou a fazer uma varredura nos bens e contas da Jardim Monte Rei Empreendimentos Imobiliários para recuperar os valores de Edcarlos Cerqueira. As contas, contudo, estavam vazias. Cerqueira então pediu para a justiça ampliar as buscas para as contas e os bens dos sócios, diretores e administradores da empresa e mesmo para outras companhias que fazem parte do grupo econômico. Entre os alvos sugeridos estava Max Lobato.
A Jardim Monte Rei Empreendimentos Imobiliários disse para a justiça que gostaria de concluir os empreendimentos, mas que lidava com problemas, inclusive de atrasos de parcelas dos clientes. Qualquer bloqueio poderia ser ainda mais danoso para o negócio.
A companhia administrada por Lobato chegou a oferecer um imóvel de R$ 147 mil como forma de quitar as dívidas em aberto. Edcarlos Cerqueira, contudo, não aceitou. Ele pediu para a empresa efetuar a venda do imóvel e depois transferir o recurso em aberto.
A resolução do impasse sobre o pagamento aconteceu por um acordo entre as partes no valor de R$ 48 mil, acordo aceito pela justiça. A defesa de Max Lobato Sales não se manifestou sobre o caso até o fechamento da reportagem.
Edcarlos Cerqueira, contudo, não foi o único a passar por uma situação dessa com empresas ligadas a Max Lobato Sales. Anos antes, em 2022, Lucas Padilha Leme processou a empresa Jardim Alvorada Empreendimento Imobiliário SPE Ltda, que tem Max Lobato Sales como administrador. Padilha tentava comprar um terreno também em Itú, no mesmo Jardim Monte Rei, e a obra não ficava pronta. Os atrasos fizeram ele pedir a rescisão do contrato.
Padilha pediu o pagamento de R$ 30 mil da empresa, a soma do que já havia pago pelo imóvel na cidade e uma indenização por danos morais. Como não recebeu os pagamentos da Jardim Alvorada Empreendimento Imobiliário SPE Ltda, pediu para a justiça penhorar os bens das empresas sócias e do administrador dela, Max Lobato Sales.
Novamente, a empresa administrada por Sales ofereceu um terreno para Padilha e contestou o pedido dos advogados da vítima de bloquear os bens dos administradores da empresa para garantir a quitação da dívida. A defesa da Jardim Alvorada Empreendimento Imobiliário SPE Ltda ainda contestou que o bloqueio dos bens poderia atrapalhar a finalização do imóvel. Os advogados de Max Lobato Sales ainda reforçaram que ele não é sócio da empresa e que não poderia ser alvo da medida para bloqueio de bens.
Não houve acordo. A defesa de Padilha pediu o pagamento em dinheiro e não aceitou a entrega de um terreno. Os advogados ainda contestaram o fato da empresa não ter dinheiro em caixa e ter registrado um capital social de mais de R$ 25 milhões.
“Entretanto, é conflitante o fato de uma empresa de tamanho porte, com capital social elevadíssimo, que está em seu devido funcionamento, não ter saldo em conta bancária, nem bens móveis e imóveis devidamente regularizados em seu CNPJ. Fato que nos leva a crer que a devedora principal está ocultando seus bens, onde há desvio de finalidade e confusão patrimonial, na qual os sócios – pessoa física – ficam com os bônus da atividade empresarial, e a empresa – pessoa jurídica – arca apenas com o ônus, a fim de evitar possíveis execuções judiciais e frustrar o recebimento de créditos”, diz o texto do processo.
A justiça negou que os bens de Sales e do outro administrador fossem bloqueados, mas colocou como parte responsável para arcar com a dívida a CBI 02 Participações Imobiliárias Ltda, outra empresa sócia da Jardim Alvorada Empreendimento Imobiliário SPE Ltda. A justiça condenou as empresas a pagarem R$ 49 mil de volta para Padilha, o que inclui danos morais, o reembolso do que ele havia investido no terreno e multas de atraso de pagamento. A defesa das empresas até recorreu, mas os recursos foram negados pela justiça.
A advogada do Jardim Alvorada, em resposta à reportagem, afirmou que há um novo dono responsável pelo empreendimento, que o bairro planejado está finalizado, e que todos os débitos foram acertados. “Em outras palavras, apesar de não ter participado da contratação nem dos fatos que deram origem à controvérsia, o atual empreendedor acabou tendo valores de sua administração bloqueados para garantir o pagamento discutido no processo. Por essa razão, ajuizou ação contra o empreendedor anterior para reaver essa quantia”, diz a nota.
Sobre esta situação específica, a defesa de Max Lobato Sales não respondeu.
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Fonte: ICL Notícias




