Mary Wollstonecraft resumiu em uma frase de 1792 por que a liberdade feminina não deveria significar dominar outras pessoas: “Não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens, mas sobre si mesmas”.
Por Joaquim Luppi Fernandes — Catraca Livre
Em 1792, a pensadora britânica Mary Wollstonecraft revolucionou o debate público ao publicar uma obra pioneira. Ela demonstrou que a verdadeira emancipação das mulheres reside no autogoverno da própria existência, construindo uma liberdade autêntica fundamentada no pleno desenvolvimento da capacidade racional.
Qual é o verdadeiro significado da célebre declaração de 1792?
Ao registrar que não almejava o domínio sobre os homens, a autora sintetizou uma perspectiva inovadora sobre direitos humanos. Sua proposta estabeleceu a autonomia moral como meta central, rejeitando a tirania e assegurando o exercício pleno da autodeterminação feminina individual.
Essa reflexão rompeu com o receio comum de que a igualdade causaria desordem nas estruturas sociais vigentes. Para a escritora, alcançar o autogoverno significava dissipar a dependência cega, permitindo que cada mulher desenvolvesse sua consciência ética sem tutelas externas.
Como a pensadora rebateu as teses educacionais de Jean-Jacques Rousseau?
No célebre tratado Emílio, Jean-Jacques Rousseau defendia que o ensino para mulheres deveria servir aos homens. Wollstonecraft contestou essa ideia, demonstrando que tal postura alimentava uma submissão forçada e impedia o florescimento de sua plena capacidade intelectual própria.
A filósofa insistiu que virtude e conhecimento não possuem gênero e exigem rigor intelectual compartilhado. Privar as cidadãs da educação formal significava enfraquecer toda a coletividade, tornando o conhecimento a base indispensável para consolidar a independência pessoal de todas.
Abaixo, assista a um vídeo do canal UJS Brasil no YouTube que aprofunda esse debate histórico:
Por que a autonomia feminina difere da busca por dominação?
Muitos críticos temiam equivocadamente que a emancipação feminina buscasse inverter a hierarquia social e oprimir os homens. Wollstonecraft esclareceu que seu objetivo era extinguir privilégios arbitrários, promovendo uma igualdade autêntica em que nenhuma pessoa exercesse um domínio injusto sobre outra.
A soberania sobre si mesma representa o direito inalienável de tomar decisões vitais e governar a própria caminhada. Dessa maneira, a pensadora definiu a libertação como responsabilidade ética individual, transformando a busca por autodeterminação em um dever universal compartilhado.
Quais mudanças a filósofa considerava fundamentais para a emancipação?
Para além do âmbito teórico, a transformação exigia reformas profundas nas leis civis e nos costumes cotidianos. A filósofa apontou que a cidadania feminina dependia do fim da subordinação matrimonial e da conquista de uma sólida autonomia econômica e jurídica.
Ao defender escolas abertas a ambos os sexos, a escritora antecipou debates cruciais da modernidade democrática. Ela acreditava que a razão cultivada libertaria as mulheres das convenções superficiais, tornando a instrução pública a chave primordial para o progresso moral.
Entre os princípios estruturantes defendidos na obra para viabilizar essa emancipação plena, destacam-se os seguintes pontos:
- Acesso universal a uma educação rigorosa e não sexista.
- Reconhecimento pleno da capacidade racional e moral das mulheres.
- Fim da submissão jurídica e da dependência econômica no casamento.
- Garantia do direito à autodeterminação e à participação pública.
Como o pensamento iluminista influenciou essa visão de liberdade?
Inserida no auge das transformações iluministas, Wollstonecraft utilizou os próprios ideais da época para apontar suas contradições. Se a sociedade exaltava os direitos naturais e a racionalidade, era incoerente negar a universalidade desses preceitos fundamentais à metade da população humana.
O legado dessa reflexão permanece atual ao lembrar que a justiça social recusa qualquer forma de dominação interpessoal. Ter poder sobre si mesma estabelece a verdadeira emancipação humana, inspirando lutas que buscam a plena dignidade em todos os momentos históricos.
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Fonte: Catraca Livre