Marina Silva diz que novo Congresso é submisso a Trump e antiambiental
Por Otávio Rosso — Brasil 247
A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede) manifestou preocupação com a composição do Congresso Nacional eleito em 2026 e alertou para a possibilidade de novos retrocessos na legislação ambiental brasileira. Derrotada na disputa por uma vaga no Senado por São Paulo, ela avalia que o fortalecimento da direita e da bancada do agronegócio no Legislativo poderá ampliar a pressão pela flexibilização das normas de proteção ambiental, especialmente em caso de vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial.
Em entrevista à Folha de São Paulo, Marina também criticou o alinhamento de setores da direita brasileira ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Para a ex-ministra, uma eventual administração comandada pelo filho de Jair Bolsonaro poderia comprometer interesses estratégicos do Brasil e enfraquecer mecanismos de fiscalização e preservação ambiental.
“É um cenário altamente preocupante”, afirmou. “Tanto pelo risco de que marcos regulatórios possam ser todos demolidos, como aconteceu na Argentina, quanto pela postura subserviente e entreguista aos interesses de Donald Trump, ainda mais em um eventual governo Bolsonaro. Isso vai atrapalhar os interesses econômicos, sociais, ambientais do Brasil.”
Marina critica avanço de projetos ambientais no Congresso
A preocupação da ex-ministra está relacionada a medidas aprovadas ou discutidas pelo Congresso nos últimos quatro anos. Segundo Marina, a atual legislatura já promoveu mudanças que fragilizaram instrumentos de proteção ambiental, incluindo regras de licenciamento, mecanismos de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a preservação de áreas protegidas.
Um dos principais pontos de crítica é a legislação aprovada em 2025 que flexibilizou procedimentos de licenciamento ambiental. A mudança incluiu a criação da Licença Ambiental Especial (LAE), mecanismo que estabelece prioridade na análise de determinados empreendimentos considerados estratégicos pelo governo federal.
Conforme revelou a Folha, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), participou das articulações para instituir essa modalidade de licença, que prevê prazo máximo de um ano para a análise dos projetos selecionados, independentemente da dimensão de seus impactos ambientais.
Em 2026, parlamentares também avançaram na discussão de uma proposta que limita a atuação do Ibama em operações de fiscalização de crimes ambientais.
Outro conjunto de projetos em tramitação prevê a redução de aproximadamente 555 mil hectares de áreas de proteção ambiental. A extensão corresponde a cerca de 3,7 vezes o território do município de São Paulo.
Para Marina, a continuidade dessa agenda representa uma ameaça às conquistas ambientais e institucionais brasileiras.
“Essas pessoas são os estertores da crise civilizatória. Infelizmente alguns daqueles que podem e devem reagir para evitar que essa pulsão de morte prevaleça ainda não estão reagindo. Espero que a gente tenha uma postura de salvaguardar os ganhos da civilização no continente”, declarou.
Ex-ministra defenderá Lula no segundo turno contra Flávio Bolsonaro
Diante do resultado das eleições, Marina Silva afirmou que concentrará seus esforços na campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O petista terminou o primeiro turno com 45% dos votos, atrás de Flávio Bolsonaro, que alcançou 47%. Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
Marina considera que a permanência de Lula no Palácio do Planalto é fundamental para preservar políticas públicas e evitar o aprofundamento dos retrocessos que identifica no Congresso.
A ex-ministra afirmou que pretende trabalhar para “ser uma sustentação dos ganhos que já estabelecemos”, defendendo a manutenção do que classifica como “coeficiente civilizatório”.
Ao justificar seu apoio ao presidente, Marina argumentou que a escolha eleitoral deve considerar a capacidade dos candidatos de implementar políticas públicas, independentemente de afinidades pessoais.
“As pessoas não precisam gostar do Lula, porque a gente está elegendo o presidente, não o amigo”, afirmou.
“Mas o dirigente do país deve ser o que tem as melhores políticas públicas para que todos possam ter igualdade de oportunidade”, acrescentou.
Marina também avalia que a eleição de 2026 apresenta um grau de polarização superior ao observado nas disputas presidenciais de 2018 e 2022. Segundo ela, a estrutura política e financeira organizada por partidos de centro e de direita, associada à influência das emendas parlamentares, teve papel importante no resultado das urnas.
Marina recebeu 7,8 milhões de votos, mas ficou fora do Senado
Na eleição para o Senado por São Paulo, Marina Silva terminou em quarto lugar, com aproximadamente 7,8 milhões de votos. As duas vagas ficaram com André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP), enquanto Simone Tebet (PSB), também ex-ministra do governo Lula, terminou à frente de Marina, com 8,3 milhões de votos.
Apesar da derrota, a ex-ministra destacou o volume de votos recebido. O resultado superou os 5,6 milhões de votos que obteve em São Paulo na eleição presidencial de 2014, quando disputou o Palácio do Planalto.
“Celebro que São Paulo tenha dado 7,8 milhões de votos para alguém de origem humilde, preta, identificada profundamente com a causa da sustentabilidade, do combate à desigualdade e dos direitos das mulheres”, afirmou.
Marina pretende manter sua atuação política vinculada ao estado de São Paulo e continuar defendendo pautas ambientais, sociais e relacionadas aos direitos das mulheres.
Disputa interna na Rede e falta de recursos prejudicaram campanha, diz Marina
A ex-ministra também atribuiu parte das dificuldades eleitorais à distribuição desigual dos recursos partidários.
Sua candidatura recebeu R$ 1 milhão da Rede Sustentabilidade e outros R$ 1,1 milhão do PSOL, partido com o qual a legenda formou uma federação eleitoral. O financiamento total, de R$ 2,1 milhões, ficou abaixo dos valores destinados a seus principais adversários.
André do Prado recebeu R$ 6,9 milhões de seu partido, enquanto Guilherme Derrite contou com R$ 5,8 milhões. Simone Tebet teve R$ 6,7 milhões disponíveis para sua campanha.
Até mesmo Ricardo Salles (Novo), ex-ministro do Meio Ambiente do governo Jair Bolsonaro, recebeu R$ 3,9 milhões, apesar de ter desistido da disputa durante a campanha.
A diferença de financiamento ocorreu em meio a uma disputa interna pelo comando da Rede Sustentabilidade. Marina perdeu espaço na direção partidária para Heloísa Helena, que disputou uma vaga na Câmara dos Deputados pelo Rio de Janeiro e terminou como suplente.
Heloísa recebeu R$ 2,8 milhões da legenda, valor superior ao dobro da quantia destinada pela Rede à campanha de Marina.
“Ajudei a fundar a Rede, sou deputada federal, e fiz uma candidatura competitiva, que se manteve em primeiro nas pesquisas, empatada com demais. Obviamente que um pouco mais de recurso faria muita diferença”, declarou.
Mesmo diante das dificuldades, Marina destacou resultados positivos de integrantes de seu partido, entre eles Luizianne Lins, eleita senadora pelo Ceará.
Marina diz que continuará defendendo o meio ambiente
Com passagens pelo Senado, pela Câmara dos Deputados e pelo Ministério do Meio Ambiente em diferentes governos, Marina Silva afirmou que ainda não definiu os próximos passos de sua trajetória política.
A ex-ministra, que é evangélica, ressaltou que sua atuação pública não se restringe a questões religiosas e que pretende continuar trabalhando em diferentes áreas, com atenção especial às demandas de São Paulo.
Embora tenha ficado fora do Senado, Marina reafirmou que a defesa da sustentabilidade permanecerá no centro de sua atuação, independentemente de ocupar um cargo público.
“O meio ambiente é a bandeira que vou trabalhar sempre, independente de estar na política institucional”, concluiu.
Fonte: Brasil 247