Marina Silva alerta para risco de devastação ambiental em eventual governo Flávio Bolsonaro: ‘projeto perverso’
Por João Antonio Cunha — Brasil 247
247 – A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva alertou que uma eventual vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na eleição presidencial poderá retomar e aprofundar a destruição ambiental ocorrida durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), entre 2019 e 2022. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, publicada neste sábado (10), ela afirmou que o parlamentar do PL poderá concluir o que classificou como um “projeto perverso” de devastação da Amazônia iniciado pelo pai.
Marina, que comandou o Ministério do Meio Ambiente até abril deste ano, considera que um novo governo bolsonarista representaria uma ameaça à floresta, aos povos indígenas e quilombolas e ao enfrentamento da crise climática.
“Não tenho dúvidas de que, desta vez, eles tentarão concluir o projeto perverso que começaram com [Jair] Bolsonaro. Se forem eleitos, e Deus e o povo brasileiro permitam que isso não aconteça, usarão seu tempo para tentar acelerar ao máximo todos os retrocessos que puderem, inclusive para se manter no poder”, declarou Marina.
Durante a gestão de Jair Bolsonaro, órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental e pela proteção dos povos indígenas perderam capacidade de atuação. O período foi marcado pelo avanço do desmatamento e da violência na Amazônia.
Marina aponta ameaça aos povos indígenas
A ex-ministra afirma que a visão da família Bolsonaro pressupõe a retirada da floresta para ampliar atividades econômicas, mesmo diante das consequências ambientais e sociais. “A visão que eles têm da Amazônia é a mesma que têm de tudo. Eles são negacionistas. A visão deles é que a floresta precisa ser removida para dar lugar a atividades econômicas”, afirmou.
Segundo Marina, um novo governo bolsonarista poderá estimular novamente o garimpo ilegal, as invasões de terras indígenas e a violência contra comunidades indígenas e quilombolas.
Ela também manifestou preocupação com a influência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a política brasileira. Marina considera que a relação entre Trump e os Bolsonaro pode favorecer uma exploração ainda mais agressiva dos recursos naturais.
“O Brasil não pode ser governado por um grupo político que queira se transformar em um protetorado americano, como acontece hoje com a Venezuela”, disse a ex-ministra, que avalia que uma eventual administração de Flávio Bolsonaro seria “subserviente” aos Estados Unidos.
Desmatamento caiu durante governo Lula
Marina recordou as condições que encontrou ao reassumir o Ministério do Meio Ambiente, em janeiro de 2023, depois da vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro na eleição presidencial de 2022. Segundo ela, a estrutura ambiental estava enfraquecida, enquanto a destruição da Amazônia avançava.
Uma das primeiras medidas do novo governo foi enviar tropas para retirar milhares de garimpeiros ilegais da Terra Indígena Yanomami, a maior do país.
O desmatamento na Amazônia caiu quase 50% durante o governo Lula. A área desmatada neste ano foi estimada em 2,6 mil quilômetros quadrados, ante quase 11,6 mil quilômetros quadrados no último ano da gestão Jair Bolsonaro.
Marina teme que os avanços sejam revertidos caso a família Bolsonaro volte ao comando do país. “É profundamente triste e preocupante”, afirmou a ex-ministra, de 68 anos, nascida na Amazônia e filha de seringueiros.
Ela comparou a possibilidade de retrocesso ao mito de Sísifo, personagem condenado a empurrar uma pedra montanha acima para vê-la rolar de volta. “É como o mito de Sísifo. Rolar a pedra até o topo e vê-la cair novamente. Só que ela não cairá em um terreno vazio: cairá diretamente sobre todos nós”, declarou.
A ex-ministra também chamou atenção para a possibilidade de o Brasil alcançar a menor taxa de desmatamento em mais de uma década e avançar rumo à meta de desmatamento zero até 2030. Segundo ela, uma mudança de governo poderia colocar esses objetivos em risco.
Marina ainda relacionou a preocupação ambiental à previsão de um super El Niño, fenômeno que pode agravar secas e enchentes. Para ela, os efeitos seriam mais graves sob uma administração sem compromisso com políticas de prevenção, adaptação e mitigação das mudanças climáticas.
Congresso conservador ameaça proteções ambientais
Mesmo que Flávio Bolsonaro não vença a eleição presidencial, Marina avalia que a composição mais conservadora do Congresso Nacional poderá dificultar a preservação ambiental nos próximos anos.
Nas eleições legislativas, o Partido Liberal (PL) conquistou 19 das 54 vagas em disputa no Senado, que tem 81 cadeiras, e 121 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados.
Para Marina, essa configuração aumenta o risco de mudanças legislativas que enfraqueçam a proteção ambiental e os direitos dos povos indígenas. A ex-ministra tentou conquistar uma vaga no Senado, mas foi derrotada.
“Mesmo com a composição atual do Congresso, testemunhamos inúmeros retrocessos”, afirmou. Ela teme que parlamentares avancem sobre unidades de conservação e territórios indígenas para reduzir ou eliminar as proteções existentes.
A preocupação, segundo Marina, não se limita à Amazônia. Ela cita também a Mata Atlântica, o Cerrado, o Pantanal e o Pampa entre os biomas ameaçados pela orientação política que associa ao trumpismo.
“É um processo devastador. Estou preocupada não apenas com a Amazônia, mas com todos os nossos biomas”, declarou.
Marina vê risco para a democracia
A ex-ministra também teme que uma eventual volta dos Bolsonaro ao poder reverta avanços sociais alcançados durante os governos Lula, incluindo o combate à fome e a ampliação do acesso ao ensino superior.
Marina considera que a democracia brasileira também está em risco. Jair Bolsonaro cumpre pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado após perder a eleição presidencial de 2022. Existe a perspectiva de que ele seja libertado e nomeado ministro caso o grupo político da família retome o poder.
A preocupação aumentou depois que Flávio Bolsonaro anunciou, nesta semana, que pretende “redemocratizar” o Brasil e mudar a Constituição, com a possibilidade de ampliar a duração dos mandatos presidenciais.
“Essa é uma palavra muito perigosa, porque, para uma mentalidade autoritária, o que significa redemocratização?”, questionou Marina. “Significa uma democracia para que eles permaneçam no poder indefinidamente; atropelando as regras constitucionais; interferindo na lógica da separação dos Poderes; tendo o poder de nomear ministros da Suprema Corte para moldá-la à sua própria imagem e semelhança. Na realidade, eles são uma espécie de versão de direita do que foi feito na Venezuela [sob Maduro].”
“Eles estão dispostos a corroer nossa democracia por dentro”, acrescentou.
Ex-ministra aposta em reação no segundo turno
Apesar das preocupações, Marina acredita que Lula pode reverter o resultado do primeiro turno e conquistar a reeleição em 25 de outubro. Ela afirmou que pretende dedicar os próximos dias a convencer os mais de 30 milhões de eleitores que não votaram na primeira etapa sobre os danos que atribui a um novo governo Bolsonaro. “Eu acredito profundamente que isso é possível”, disse.
Uma pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (8) apontou Flávio Bolsonaro com 52% das intenções de votos válidos, contra 48% de Lula no segundo turno. Marina, que atua na defesa da Amazônia desde a década de 1980, afirmou que continuará na luta política e ambiental.
“Eu tiro minha energia da insistência em viver. Acredito que viver significa resistir, e o impulso de morte, por mais forte que seja, sempre perde para o impulso de vida. Olhem para nós: estamos aqui. Nossos pais e nossos avós se foram, mas nós chegamos até aqui. Acredito sinceramente que esse instinto de viver prevalecerá. Minha esperança é que ele se mostre mais forte neste momento, para que a América Latina não seja consumida por esse impulso de morte”, declarou.
Fonte: Brasil 247