Márcio Chaer: o editor que preferia a conversa ao coro
Por Vinicius Abrantes — Consultor Jurídico
No sábado (6/10) fatídico, recebi ligação de um amigo informando do falecimento de Márcio Chaer. Primeiro fiquei apático, como se demorasse a compreender, e quando processei o que ouvira, senti uma tristeza profunda que retorna agora mais forte, enquanto redijo esta homenagem.
ReproduçãoTive a sorte de conversar com Chaer semana a semana, ele sempre foi o primeiro leitor das minhas colunas e foi sempre um amigo presente a um toque de distância. Há pessoas cuja grandeza se percebe nos grandes feitos. Há outras, das quais lembramos de maneira ainda mais potente, cuja grandeza aparece também nos gestos miúdos: no telefonema inesperado, na provocação inteligente, na atenção a uma vírgula, no cuidado com um título, na disposição de ouvir quem pensa diferente e na disposição de não seguir o coro. Márcio Chaer era desses raros seres que eram enormes nas grandes coisas e nas miudezas, alguém que, pelo espaço que sua presença ocupava, já faz falta.
Ao fundar o Consultor Jurídico há quase três décadas, Chaer criou algo que não é exagero chamar de raro no jornalismo mundial: um espaço fundamental para tratar com a seriedade necessária do debate democrático sobre o Direito. Ali, o dissenso nunca foi tratado como ruído, mas como condição do próprio debate. Também ali, o contexto nunca foi um detalhe dispensável, mas parte essencial da compreensão dos fatos, das decisões e das instituições. Em tempos de simplificações apressadas, Chaer apostou na complexidade.
O impacto dessa aposta foi gigantesco. A ConJur tornou-se um dos veículos de comunicação jurídica mais acessados do mundo e, sobretudo, um lugar de encontro entre a academia, a advocacia, a magistratura, o Ministério Público, a imprensa e a sociedade. Poucos compreenderam tão bem quanto ele que o jornalismo não é acessório da democracia, mas uma de suas condições de possibilidade. Sem informação qualificada, sem crítica e sem espaço para vozes divergentes e qualificadas, não há esfera pública digna desse nome.
Encontrei na ConJur, há mais de uma década, um espaço sério para escrever e para ler ideias diferentes, inclusive as que contrariavam as minhas. É importante ser lido, para que se repense o próprio processo de pensamento e de aprendizado. Foi nessa lógica de ler, ser lido e poder me reler, que fui aprendendo. Penso que esse talvez seja um dos maiores elogios que se pode fazer a um editor: Chaer não queria um coro como o de tantos jornalistas, queria uma conversa, intermediada e qualificada. E sabia que uma conversa séria exige liberdade, respeito, compromisso e, muitas vezes, coragem. Nunca se curvou a nenhum tipo de autoritarismo, foi voz forte contra aqueles que se juntam contra o Estado democrático de Direito e soube sempre ver mais do que o que momento indicava.
SpaccaMas seria injusto lembrá-lo apenas como jornalista, fundador e editor
Chaer era, antes de tudo, um humanista e um amigo, com aquela mistura rara de firmeza e afeto. Discutia com paixão, se comprometia com as causas humanistas e tinha uma capacidade admirável de conjugar textos e contextos em um portal de enorme acesso.
Guimarães Rosa disse, ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras, que “as pessoas não morrem, ficam encantadas”. É assim que prefiro pensar em Márcio Chaer. Ele se vai deixando um legado imenso, que permanece em cada texto publicado, em cada debate provocado, em cada jovem pesquisador e advogado que encontrou espaço para ser lido e em cada leitor que aprendeu que texto e contexto importam. São os textos que emaranhados constroem o tecido social. Chaer foi um hábil tecelão.
À família, aos amigos e a toda a equipe do Consultor Jurídico, minha solidariedade e meu profundo pesar. Sei que sempre que eu escrever uma nova coluna, vou me lembrar do Chaer. Tenho certeza, e assim me consolo, de que a tristeza profunda que hoje sinto, com o passar do tempo, virará uma bonita nostalgia para depois se enredar em acalento.
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Fonte: Consultor Jurídico