Mapa eleitoral: ideia de um Brasil cortado ao meio é falsa, diz analista
Por henriquenunes — Fundação Perseu Abramo
A análise geográfica das eleições presidenciais no Brasil tende, desde 2018, a confirmar a tese de um país rigidamente polarizado. A tendência da vez, com pequenas variações tanto de um lado quanto para o outro, apontam mais uma vez a concentração maior de eleitores de Lula no Norte e Nordeste enquanto Flávio Bolsonaro soma maior força nas demais regiões.
O candidato do PL terminou o primeiro turno em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos (56.104.268 votos), enquanto o atual presidente (PT) ficou na segunda posição, com 45,16% (53.876.617 votos). No mapa geral por estados, Flávio Bolsonaro liderou no Distrito Federal e em 14 estados (vencendo em todo o Sul, Sudeste e Centro-Oeste, além de quatro estados do Norte). Lula foi o mais votado em 12 estados (todos os nove do Nordeste e três do Norte)
O problema, segundo Rafael da Guia, cientista de Dados e coordenador da Estel Tecnologia, é que a maioria dos veículos mostra o resultado eleitoral pintando cada estado ou município com apenas com a cor do candidato mais votado. Nesse formato, o que aparece é a área do território, não o número de pessoas.
“O resultado é uma falsa percepção: o país parece dividido em grandes blocos de uma cor só, como se todo mundo num mesmo lugar tivesse votado igual. Um estado pintado de azul esconde quem votou em vermelho lá dentro. E vice-versa”, analisa.
Por trás dessa aparente divisão, prossegue da Guia, há também uma escolha política para reduzir as possibilidades de determinado candidato de buscar reverter um resultado negativo onde, aparentemente, não teria mais qualquer chance.
“Todo mapa é uma escolha. Quem faz, decide o que pintar, o que destacar e o que deixar de fora. Estatísticas, mapas e gráficos parecem neutros, mas orientam o olhar de quem os vê. Por isso também são políticos”.
Outro olhar
A pedido da Revista Focus, o analista propôs um novo olhar, mais abrangente, para o mapa eleitoral do Brasil após o 1º turno, o que aponta para novas perspectivas de mudança no pleito.
No mapa “Um ponto, um voto”, cada voto aparece como um ponto colorido sobre o território. Onde há mais gente, há mais pontos. Onde há menos, o mapa fica mais vazio. A densidade passa a representar população, não extensão. As cores se misturam. Isso mostra o que o mapa tradicional apaga: a diferença de votos dentro de um mesmo estado, e até dentro de um mesmo município. O mapa por pontos mostra que o voto se distribui de forma mais plural do que a leitura por manchas de cor deixa ver.
“Lula ainda mostra força no Nordeste, e o mapa por pontos mantém essa leitura. Mas a ideia de um país cortado ao meio, com o Nordeste de um lado e o resto do outro, é falsa. Há votos de todos os candidatos em todas as regiões. O que muda é a proporção. A divisão em blocos é um efeito da forma como o mapa é pintado, e não um retrato fiel de como as pessoas votaram”, ilustra.
Efeitos práticos
Em outra análise, feita para o Brasil de Fato, da Guia disse que, a partir desses dados, é possível concentrar a mobilização da campanha de Lula onde ela é segura, nas cidades onde ele já é muito forte, e trocar a convocação pela persuasão no resto do mapa. Em São Paulo e em Goiás, o trabalho é reconquistar quem saiu, por exemplo.
“É preciso tratar os números com honestidade. Uma análise que só diz o que gostaríamos de ouvir não serve para decidir nada. Estes dados não dão chance de vitória e não substituem as pesquisas de intenção de voto. Eles mostram onde cada esforço rende mais e onde pode atrapalhar”, finaliza.
Como foi feito o mapa
Os dados utilizados são do Tribunal Superior Eleitoral e os resultados de cada seção eleitoral do 1º turno para presidente. Os contornos de municípios e estados vêm do IBGE. O mapa de fundo é do OpenStreetMap.
Cada voto é sorteado em um ponto qualquer dentro do município ou estado onde foi registrado. Isso significa que a posição exata de cada ponto é aleatória, mas o total em cada território é real.
Na visão do Brasil inteiro, cada ponto representa cerca de 100 votos. Ao aproximar o zoom, aparecem mais pontos. A partir de certo nível de aproximação, cada ponto passa a valer um único voto.
Um ponto, um voto: presidente 2026 por estado
Um ponto, um voto: presidente 2026 por município
Fonte: Fundação Perseu Abramo