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Publicado em 28 de Setembro de 2026 às 04:25

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A crise de endividamento no agronegócio brasileiro, revelada pelo UOL em 13 de setembro, em matéria assinada por Amanda Rossi, não é apenas um tropeço conjuntural. Trata-se da crise de um modelo que naturalizou o risco excessivo, o crédito abundante e a crença quase religiosa na eterna bonança das commodities.

Com R$ 48 bilhões em inadimplência, os bancos estão assumindo fazendas, alguns produtores estão perto do colapso e há uma pressão política crescente por socorro estatal. Essa crise não é um acidente. Ela foi construída.

O setor viveu, entre 2020 e 2023, um período extraordinário com preços altos, custos e juros baixos. A matéria mostrou que muitos produtores, especialmente os de alta renda, que concentram R$ 29 bilhões do calote, interpretaram esse ciclo como uma nova normalidade. Expandiram operações, compraram terras, multiplicaram máquinas, hipotecaram propriedades repetidas vezes.

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Pode ser tentador afirmar que o sistema financeiro é a vítima, mas a reportagem desmontou essa narrativa. Gerentes financeiros ofereceram milhões por telefone, realizaram análises de risco frouxas para garantias frágeis e promoveram uma corrida para empurrar crédito rural como se fosse produto de prateleira.

Quando a taxa básica de juros estava em 2%, a Faria Lima “calçou a botina”, como diz um analista citado na matéria, e entrou no agro com apetite. Com a inadimplência explodindo, os bancos recorrem à alienação fiduciária e viraram proprietários de terras.

Houve queda nos preços das commodities, os fertilizantes ficaram mais caros e os eventos climáticos extremos afetaram a produção. Em síntese, as crises se tornam devastadoras quando encontram sistemas frágeis.

A Frente Parlamentar da Agropecuária pressiona por subsídios para renegociar dívidas. Se o Estado socorrer indiscriminadamente, incentivará o oportunismo. Afinal, por que o contribuinte deve pagar a conta de um setor que, nos anos de bonança, acumulou lucros recordes?

Socorrer produtores pode ser necessário, desde que com regras claras, transparência e responsabilidade compartilhada. O Estado não pode ser o fiador eterno de apostas privadas. Bancos não podem lucrar na bonança e socializar prejuízos na crise e o agro precisa abandonar a fantasia de que ciclos positivos duram para sempre.

O momento descrito acima converge para um cenário de ciclo financeiro especulativo, que se alinha ao modelo desenvolvido por Charles Kindleberger em sua obra clássica ‘Manias, pânicos e crashes’ (1978). O dinheiro flui para o setor em expansão, sendo que o crédito alimenta e acelera o otimismo.

Produtores, por sua vez, interpretaram o auge do ciclo como a “nova normalidade” e iniciaram um processo agressivo de alavancagem financeira. Quando a liquidez foi abundante, as instituições financeiras afrouxaram a análise de risco e alimentaram a bolha.

A transição para o pânico ocorreu quando os credores tentaram recuperar a liquidez. Uma pressa para sair do mercado pode fazer os preços dos ativos despencarem, expondo a insolvência generalizada. Se o mercado souber que será socorrido, ele continuará agindo de forma irresponsável no próximo ciclo, socializando prejuízos?

A partir da perspectiva de Kindleberger, é possível dizer que a crise do agronegócio seguiu o roteiro previsível da psicologia dos mercados. Um choque positivo gerou euforia, a abundância de crédito barato promoveu excesso de alavancagem e a reversão inevitável do ciclo econômico transformou a mania em um colapso financeiro que agora bate às portas do Estado em busca de salvação.

Rodrigo Medeiros

É professor do Instituto Federal do Espírito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade

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