Mamdani diz apoiar a Palestina, mas deixa a polícia de Nova York prender manifestantes anti-Netanyahu
Por Otto Fors — Esquerda Diário

Mamdani chamou Netanyahu de criminoso de guerra e defendeu o direito a protestar. Porém, quando manifestantes se mobilizaram contra o genocídio de Netanyahu e de Israel em frente à assembleia da ONU, o Departamento de Polícia de Nova York (NYPD) os prendeu, expondo os limites de um “socialista democrático” governando desde dentro do Partido Democrata.
Quando em campanha no ano passado, o prefeito de Nova York, Zohan Mamdani, disse que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, era um criminoso de guerra que deveria ser preso. Ontem, o Departamento de Polícia de Nova York (NYPD) de Mamdani protegeu Netanyahu enquanto prendia manifestantes — meros dias após o prefeito dizer que os habitantes de Nova York têm o direito de protestar, mas que ele “nunca os encorajou” a fazê-lo.
Netanyahu esteve na cidade para a Assembleia Geral da ONU. O possibilitador do genocídio, Donald Trump, também esteve na cidade e recebeu uma recepção ainda mais amistosa de Mamdani, que convidou o presidente para sua residência oficial, a Gracie Mansion, onde os dois trocaram elogios após uma reunião privada.
O contraste foi gritante: manifestantes que exigiam o fim do genocídio foram presos, enquanto dois líderes da extrema-direita foram recebidos e protegidos pela NYPD de Mamdani — tudo isso sem um único pio do prefeito.
Em contraste, 200 pessoas foram às ruas em frente à assembleia das Nações Unidas na quinta-feira para exigir o fim do genocídio na Palestina e rejeitar a continuidade do apoio dos Estados Unidos ao Estado sionista de Israel. Mais de 100 pessoas foram presas durante o protesto organizado pela Jewish Voices for Peace (Voz Judia pela Liberdade), entre elas as atrizes Susan Sarandon e Hannah Einbinder e o comediante Caleb Hearon. Entre os detidos estavam dois integrantes do Democratic Socialists of America (DSA, organização de Mamdani dentro do Partido Democrata): Darializa Avila Chevalier, candidata democrata ao Congresso, e Chi Ossé, integrante do Conselho Municipal de Nova York.
Esses ativistas representam apenas uma parcela do movimento heroico contra o genocídio que se mobilizou de baixo para cima para exigir a libertação do povo palestino e o fim do apoio incondicional dos EUA a Israel. Entre eles estão pessoas que fizeram campanha e votaram em Mamdani por causa de sua denúncia aberta ao projeto colonial de Israel na região.
As contradições na Prefeitura
As cenas de ontem foram uma traição a todos aqueles que protestaram, assim como às centenas de milhares de eleitores e ativistas que levaram Mamdani ao poder — um setor crescente da população que está cansado da extrema-direita e vem sendo cada vez mais convencido do socialismo e de ideias políticas progressistas. Mamdani também está traindo os grandes movimentos sociais que exigem o fim do genocídio de Israel na Palestina e o fim da brutalidade do ICE (polícia anti-imigrante dos EUA), parte da violenta ofensiva anti-imigração de Trump.
Mas as ações de Mamdani não são apenas uma falha de caráter ou um lapso momentâneo de julgamento. Também não são, como alguns afirmam, uma espécie de “jogada de xadrez em quatro dimensões” — uma manobra tática para promover secretamente objetivos socialistas e enfraquecer o Estado capitalista, enquanto apenas aparenta, com uma piscadela, ser cúmplice.
Não. As ações de Mamdani são a consequência previsível de governar como representante de um partido capitalista e imperialista. Apesar de toda a indignação que demonstram em relação a Netanyahu, os Democratas continuam sendo um partido sionista, empenhado em sustentar Israel como cão de guarda do imperialismo americano no Oriente Médio. É verdade que a posição de Mamdani sobre a Palestina é muito mais progressista do que a da maioria de seus companheiros Democratas. Mas, na prática, seu papel como Democrata eleito produz uma contradição: ele precisa seguir a linha sionista e imperialista do Partido Democrata e, como consequência, trair sua base.
Os Democratas não são amigos da classe trabalhadora nem dos grupos oprimidos e, quando a situação aperta, eles vão nos reprimir e buscar co-optar as nossas mobilizações. Como vimos repetidamente durante a revolta contra o assassinato de George Floyd pela polícia e o movimento Black Lives Matter, em 2020, os Democratas não têm problema algum em lançar o braço violento do Estado contra os manifestantes enquanto se cobrem com “panos kente” [1] . Mamdani também, como membro desse partido e chefe executivo do centro financeiro capitalista do mundo, permite que a NYPD reprima protestos, imaginando que plantar uma oliveira pode comprar “paciência” dos milhões de pessoas indignadas com o genocídio.
Precisamos nos organizar de forma independente do Partido Democrata
Para muitas pessoas que fizeram campanha por Mamdani, as prisões levantam uma questão difícil: para onde vai a energia de um movimento de massas quando os Democratas e suas instituições tentam contê-la?
O protesto diante da assembleia da ONU mostra que as pessoas continuam se organizando e agindo — mas não podem contar com um Democrata na prefeitura para levar essa luta adiante.
Já vimos essa dinâmica antes. Como nas campanhas presidenciais de Bernie Sanders, que terminaram, ambas, com o membro da DSA canalizando toda aquela energia progressista para políticos capitalistas e imperialistas — incluindo Biden, que facilitou o genocídio de Israel contra a Palestina.
Essa é uma receita para a desmobilização. Essas ações não apenas dificultam a organização da esquerda: elas ativamente nos fazem retroceder, afastando-nos ainda mais da conquista de nossas reivindicações, como o fim do genocídio, o desfinanciamento da polícia ou a construção de uma cidade de Nova York que funcione para as massas, e não apenas para os mais ricos.
Nenhuma quantidade de panos kente ou oliveiras pode mudar o fato de que os Democratas são inimigos dos trabalhadores e dos oprimidos. Não se pode contar com eles para nos libertar, muito menos para libertar a classe trabalhadora internacional. E, como vimos nesta semana, quando Trump e Netanyahu, os dois maiores criminosos de guerra do mundo, foram protegidos em Nova York, os Democratas não vão deter a extrema-direita.
Precisamos nos organizar de forma independente, de baixo para cima. Precisamos usar nossa força numérica enquanto classe trabalhadora para paralisar tudo — até que a Palestina seja livre, o ICE saia de nossas cidades e a direita seja derrotada. E precisamos parar de depositar nossa fé no cemitério das mobilizações sociais que é o Partido Democrata.
[1] NdT: A referência é aos panos kente, produzidos pelas populações tradicionais Ashanti e Ewe, de Gana. No texto, faz alusão à política Democrata de se cobrir no discurso com uma retórica de defesa das populações oprimidas (em primeiro lugar, do povo negro), para então, na prática, reprimir as mobilizações e a luta com as ferramentas do Estado burguês.
Fonte: Esquerda Diário