Mais que 2014, é a campanha de 2006 que deve inspirar Lula

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Por Gustavo Freire Barbosa — Carta Capital

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Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Coautor de “Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução”.

A lembrança de Dilma x Aécio serve para mostrar que é possível virar, mas é a campanha de 20 anos atrás que nos dá sinais de como isso pode ocorrer

A angústia gerada pelo resultado do primeiro turno, com Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Lula (PT), fez com que muitas pessoas lembrassem da reeleição de Dilma Rousseff (PT) em 2014.

A primeira pesquisa de segundo turno apontou uma diferença de oito pontos percentuais para Aécio Neves (PSDB), superada após uma forte campanha nas ruas. Flávio Bolsonaro, tal qual Aécio, mandou engomar a faixa enquanto as urnas ainda estavam quentes, chegando a anunciar medidas de governo, o que inclui mudar a Constituição para “redemocratizar” o País. Bom lembrar que, na novilíngua bolsonarista, os episódios do 8 de Janeiro de 2023 foram uma tentativa de redemocratização.

A lembrança de 2014 serve para mostrar que é possível virar. Mas é a campanha de 2006 que nos dá sinais de como isso pode ser feito.

Lula disputou a reeleição contra Geraldo Alckmin. No segundo turno, adotou a estratégia de tachá-lo como privatista e pouco simpático a direitos sociais. A campanha do então tucano passou recibo e começou a apresentá-lo com uma jaqueta repleta de logotipos de estatais . Enquanto Lula se colocava como a alternativa possível para dar continuidade a políticas sociais, Alckmin levantou a guarda. O resultado: quase dois milhões de votos a menos no segundo turno para o hoje vice-presidente.

Outros tempos, pois, desde que o bolsonarismo se tornou a fração dominante da direita, só se fala em “Fim da Nova República”, aquela iniciada na redemocratização. A Nova República teria morrido em 2018, ressuscitado em 2022 e ido para a cova mais uma vez em 2026. Seria hoje uma espécie de “república-zumbi”.

Uma das razões que ajuda a explicar esse vai-e-vem é o novo parâmetro das disputas eleitorais: se antes as campanhas gravitavam em torno das promessas de avanço e reconhecimento de direitos, hoje isso parece secundário. Quase protocolar. O antipetismo raivoso e golpista, estimulado pela imprensa empresarial contra um PT que não conseguiam vencer nas urnas, passou a ser a métrica de boa parte do eleitorado brasileiro – ainda que isso implique na perda de direitos.

Até um protozoário sabe das intenções do bolsonarismo em passar a tesoura no Estado de bem-estar social. Abundam declarações contrárias ao fim da escala 6×1. Mas isso precisa ficar ainda mais óbvio e ululante, diria Nelson Rodrigues. Após a equipe responsável pelo programa econômico de Flávio anunciar que estuda um pacote de medidas com o objetivo de conter despesas obrigatórias da União e, assim, fazer um ajuste de 2% do PIB (ou 250 bilhões de reais), a campanha de Lula vem tentando traduzir para a população que isso significa corte em programas sociais e políticas de distribuições de renda, como o Bolsa Família e a Seguridade Social como um todo.

Diante do reduzido número de eleitores indecisos ou dispostos a mudar de voto, o impacto dessa estratégia tende a ser menor, mas ainda faz diferença. Defender o SUS ainda sensibiliza, mas não como antes. A campanha de Flávio também conta com um algoritmo hostil a Lula e uma Justiça Eleitoral generosa que, conduzida por Kassio Nunes Marques, vem empilhando decisões desfavoráveis ao petista. 

Em 9 de outubro, Nunes Marques ordenou a remoção de conteúdos que acusavam Flávio de querer cortar gastos de programas sociais, pois atribuiriam a ele propostas e consequências de um eventual governo sem apresentar elementos suficientes para comprovar essas alegações. Em outra canetada, André Mendonça determinou a retirada de publicação sobre as consequências deste corte de gastos .

A censura – adotada por Mendonça também no episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida – e o bolsonarismo explícito dos ministros vêm gerando desconforto no próprio TSE. Nunes Marques, por exemplo, passou por cima do ministro Villas Bôas Cueva e derrubou o canal do WhatsApp “Exército do Lula” . Para arrematar, área técnica do TSE, acionada pelo próprio presidente da Corte, concluiu não haver fake news no canal . 

A ânsia da campanha de Flávio em acionar o Judiciário é um sinal de que a linha de Lula no segundo turno pode surtir efeitos – ou já está surtindo. No mesmo sentido, as decisões estabanadas de Nunes Marques e Mendonça, zelosos guarda-costas do bolsonarismo, podem inflamar ainda mais a militância, a mesma que não esperou a burocracia da campanha e vem tomando as ruas desde o final do primeiro turno .

Convém esperar o dia 25 antes de encomendar a faixa.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Gustavo Freire Barbosa

Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Coautor de “Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução”.

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Fonte: Carta Capital

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