Lula x Trump: É a geopolítica, estúpido!
Por Marcelo Zero — Brasil 247
Flávio Bolsonaro é apenas um proxy do seu pai, Jair Bolsonaro. Tivesse outra ascendência e sobrenome, não seria candidato nem a síndico de barracos controlados pela milícia do Rio de Janeiro. Na Kopenhagen, não passaria de vendedor. Esse sujeito, devido às suas conhecidas (des) qualificações intelectuais, éticas e políticas, não tem a menor condição de ser presidente do Brasil.
Sua eventual vitória significaria, portanto, a volta ao poder de Jair Bolsonaro, um condenado por tentativa de golpe de Estado, um admirador de ditaduras, um aliado das milícias e o grande responsável pela morte de 700 mil brasileiros na pandemia. Significaria eleger, de novo, o pior presidente da história do país.
Jair só se destacou, na política nacional, a partir do lavajatismo e da onda da antipolítica, do antipetismo e do antiesquerdismo que tomou de roldão o país depois do golpe contra a presidente Dilma, com o apoio da extrema-direita dos EUA. Não fosse isso, seu brilho opaco teria ficado restrito, ad aeternum, aos meandros corruptos do baixo clero do Congresso e às ligações perigosas com as milícias do Rio de Janeiro. Essa é a sua real dimensão. A dimensão do mau militar, como definida por Geisel, e a envergadura nanica do pior tipo possível de político.
Mas Jair, por sua vez, é apenas, nas atuais circunstâncias, um proxy de Trump. Temos, assim, dois proxies do real candidato ao poder no Brasil: Donald Trump. Candidato a imperador, diga-se. E a um imperador draconiano, à moda antiga, bem longe da moderação de um Pedro II, por exemplo. Está mais próximo de figuras como Nero ou Calígula, que deixaram marcas indeléveis na história da infâmia mundial.
As revelações, trazidas ao público recentemente, sobre as exigências que Trump apresentou ao governo brasileiro, em outubro de 2025, para negociar o abrandamento das tarifas políticas impostas injustamente ao país, por sugestão do clã Bolsonaro, mostram a extensão e a profundidade da agenda de vassalagem que o candidato a Imperador do Brasil pretende impor ao país.
Destacamos, na tabela a seguir, as principais.
1. O Brasil compromete-se a não adotar nem manter quaisquer restrições à importação de bens remanufaturados.”
É uma demanda simplesmente inacreditável. A norma brasileira, em conformidade com as regras da OMC, proíbe a importação de bens remanufaturados para bens de consumo. Permite apenas, em certas condições, a importação de bens de capital remanufaturados. Saliente-se que cerca de 25% da produção de bens remanufaturados dos EUA vai para o exterior, principalmente para o Canadá e o México, em razão do USMCA (o acordo de livre comércio da América do Norte).
Entre esses bens, destacam-se as autopeças, bens eletrônicos, maquinárias pesadas etc. Obviamente, a abertura do mercado brasileiro para esses bens remanufaturados dos EUA (mais baratos) poderia causar um dano extenso à indústria brasileira.
2. O Brasil deverá eliminar as tarifas sobre etanol, produtos químicos, máquinas, produtos automotivos e bens de alta tecnologia dos EUA.
Trata-se de outra exigência dos EUA que, se atendida, causaria forte dano econômico à indústria brasileira e setores importantes da agroindústria, como o do etanol. Saliente-se que, no documento que veio a público, os EUA não se comprometem, em nenhum momento, com o princípio da reciprocidade. Apenas prometem reduzir as sobretarifas em produtos brasileiros a serem especificados.
Os Estados Unidos e o Brasil concordam que os impostos sobre serviços digitais são contraproducentes para o potencial transformador do comércio digital, no aprofundamento da cooperação econômica, no aumento da competitividade e na promoção do crescimento econômico em ambas as economias. O Brasil deverá abster-se de impor impostos sobre serviços digitais, ou impostos semelhantes, que discriminem empresas dos EUA. O Brasil deverá comprometer-se a reconhecer os Estados Unidos como um país ou jurisdição que proporciona proteção adequada de dados nos termos da legislação brasileira.
Ora, as regras brasileiras impõem impostos sobre o chamado e-commerce de bens e também sobre serviços digitais. No caso desses últimos itens, os impostos de importação podem chegar a 50% do valor. Os EUA são muito competitivos na exportação de serviços digitais, os quais respondem por cerca de US$ 700 bilhões das exportações estadunidenses. Obviamente, é do interesse das Big Techs dos EUA que o Brasil abra completamente esse mercado.
3. O Brasil deverá aderir ao princípio da neutralidade competitiva no que diz respeito ao papel do banco central tanto como regulador e supervisor dos arranjos de pagamento quanto como operador do sistema de pagamentos doméstico.
Trata-se, é claro, de uma cláusula anti-Pix. O Pix, como é amplamente sabido, desagrada profundamente as grandes companhias de cartões de crédito dos EUA e os sistemas digitais de pagamentos estadunidenses, como o PayPal, por exemplo.
4. O Brasil deverá abster-se de impor direitos aduaneiros sobre transmissões eletrônicas, inclusive sobre conteúdo transmitido eletronicamente, e deverá apoiar a adoção multilateral de uma moratória permanente sobre direitos aduaneiros incidentes sobre transmissões eletrônicas na Organização Mundial do Comércio, imediatamente e sem condições.
Trata-se de exigência que vai na mesma direção da demanda 3, já comentada acima. Dessa vez, no entanto, exige-se que o Brasil apoie os interesses específicos dos EUA em âmbito multilateral (OMC). É uma demanda vergonhosamente cínica, pois os EUA praticamente destruíram a OMC e as regras multilaterais do comércio.
5. O Brasil deverá comprometer-se com uma eleição presidencial livre e justa em 2026 e não deverá deter, prender arbitrariamente ou de outra forma limitar a participação no processo eleitoral de dissidentes políticos.
Trata-se de uma exigência política destinada a atender aos interesses do clã Bolsonaro e que representa forte afronta à soberania nacional e à justiça do Brasil. O Brasil não tem dissidentes políticos. Tem criminosos que foram presos por terem atentado contra as instituições democráticas do país. O clã Bolsonaro e seus apoiadores continuam, no entanto, a demandar que Trump defina o que é justo ou não em nosso próprio território.
6. O Brasil não deverá, de forma extraterritorial, aplicar multas, impor congelamentos de ativos, deter, prender ou de outra forma punir cidadãos dos EUA, residentes legais dos EUA ou empresas dos EUA por condutas protegidas pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA.
Trata-se, de novo, de exigência política com endereço certo: blindar, contra decisões soberanas da justiça brasileira, membros do bolsonarismo que residem nos EUA e que vivem atentando contra a soberania nacional. Pode chamar de cláusula Eduardo Bolsonaro.
8. O Brasil deverá informar aos Estados Unidos, antecipadamente, sobre potenciais transferências de ativos antes de uma venda no setor de mineração/minerais críticos e deverá proporcionar às empresas dos EUA a oportunidade de participar de um processo de licitação justo antes da concessão de aprovação regulatória brasileira.
Esta exigência e a que se segue (9) têm por objetivos óbvios conceder aos EUA o livre acesso aos minerais críticos e às terras raras brasileiras (o Brasil possui as segundas maiores jazidas do mundo) e, ao mesmo tempo, impedir o acesso de “entidades preocupantes” (leia-se: empresas chinesas, russas etc.) a esses recursos estratégicos, vitais para a indústria do futuro. Observe-se que, no Acordo Mercosul-UE, o Brasil se comprometeu a desenvolver uma parceria tecnológica, nesse aspecto, com os países desse bloco. Ademais, de forma soberana, o Brasil já desenvolveu uma política sobre minerais críticos e terras raras, que coloca a ênfase adequada no processamento interno desses materiais e na sua utilização para o desenvolvimento da indústria nacional.
9. O Brasil deverá adotar medidas efetivas para limitar investimentos de entidades estrangeiras consideradas preocupantes em seus setores de mineração e outros setores industriais.
Vide comentário anterior.
10. O Brasil deverá comprometer-se a proporcionar aos provedores de serviços digitais dos EUA aviso prévio adequado e oportunidade de comentar ou recorrer de decisões, penalidades ou multas propostas ou definitivas relacionadas a publicações em redes sociais, bem como desenvolver regras claras para remoção de conteúdo e responsabilidade civil.
É uma exigência que reforça a ideia absurda de que as normas da justiça dos EUA devem prevalecer sobre as normas e as leis nacionais sobre a imprescindível regulação das redes sociais.
11. Companhias aéreas brasileiras comprometeram-se a adquirir aeronaves comerciais fabricadas nos EUA, incluindo anúncios de intenção de comprar aeronaves Boeing.
Essa exigência aplica-se tanto a jatos comerciais quanto a jatos executivos fabricados pela Boeing. Trump e Bolsonaro querem que as companhias brasileiras comprem apenas jatos da estadunidense Boeing, que anda em crise grave depois dos desastres com a versão Max do Boeing 737 e os problemas recorrentes com o atual péssimo controle da qualidade de seus produtos. No Brasil, apenas a Gol usa mais os aviões da Boeing. A Latam usa preferencialmente aviões da Airbus. E a Azul usa os Embraer para voos internos e os Airbus para voos de longo curso. Obviamente, o governo brasileiro não pode obrigar suas empresas a adquirir os aviões da Boeing.
12. O Brasil alinhará suas normas às normas internacionais nos setores de modo a facilitar o comércio e permitirá a entrada no Brasil, sem requisitos adicionais de avaliação de conformidade, de bens dos EUA que cumpram as normas aplicáveis dos EUA ou internacionais, os regulamentos técnicos dos EUA ou os procedimentos de avaliação de conformidade dos EUA ou internacionais.
Mais uma exigência descabida destinada a impor as normas técnicas, sanitárias e fitossanitárias prevalentes nos EUA, em detrimento das regras que vigoram no Brasil. Nosso país, desse modo, teria de aceitar os certificados emitidos nos EUA sem submeter produtos e bens de origem estadunidense a um controle nacional e soberano. Isso seria tornar letra morta a defesa técnica comercial do Brasil, um perigo gravíssimo.
O governo Lula, obviamente, rejeitou essas exigências dos EUA porque elas atentavam, tanto no âmbito político como no econômico, contra a soberania nacional. O governo Lula persistiu, frise-se, na defesa dos interesses nacionais mesmo depois que algumas dessas exigências estapafúrdias foram relativamente abrandadas.
Afinal, não existe meia soberania. Ou se é soberano ou não se é. Não há dúvida possível: Trump e Marco Rubio querem transformar o Brasil “na bola da vez” geopolítica, com o prestimoso e sabujo auxílio do clã Bolsonaro e dos seus aliados, espalhados pela mídia, por outros partidos e por setores de oligarquias entreguistas e reacionárias.
Querem transformar o Brasil em um estado vassalo, em uma espécie de protetorado. Eles sabem que a submissão geopolítica do país é vital para que os EUA possam impor a chamada Doutrina Donroe em todo o continente. Nosso país pesa muito nessa estratégia neoimperial.
Até a Abin já sabe que o imperador Trump está intervindo no processo eleitoral brasileiro, com o intuito de beneficiar seus proxies, Jair e Flávio Bolsonaro.
Alguém duvida?
Trump tem à sua disposição, entre outros vastos recursos, a NSA, a CIA e as grandes Big Techs. É um arsenal político e comunicacional de extremo poder, já testado em inúmeras ocasiões pelo mundo todo em “câmbios de regimes”.
Será que a recente virada política da América do Sul praticamente toda para o campo da direita e da vassalagem geopolítica se deu de maneira realmente espontânea? Ocorreu somente devido a fatores internos?
Será que a crise do nosso Supremo, tão oportuna para certos interesses eleitorais, ocorreu de forma automática e natural, como fungos que crescem depois da chuva?
Será que a decisão de trazer sofisticados drones de ataque para a América do Sul destina-se somente à cândida intenção de combater “criminosos”?
Todo o mundo possui o direito de acreditar no que quiser, mas ninguém tem o direito, em um momento crucial como este, de ser estúpido ou ingênuo.
Nem na Groenlândia há mais esse direito. Todos têm o dever de proteger o Brasil, sua soberania, sua democracia e seu povo.
Às vezes não é a economia, ou a percepção da economia, ou a comunicação falha ou a suposta falta de propostas.
O buraco pode ser mais embaixo. É a geopolítica, estúpido!
Fonte: Brasil 247