Lula x Flávio: a esquerda precisa recuperar a conexão com o povo

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Por Pai Rodney — Carta Capital

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Mais do que vencer uma votação, o campo progressista precisa reconstruir vínculos e despertar a esperança de um futuro melhor

Nossa análise precisa ir além do resultado de uma eleição. O campo progressista não perdeu apenas a capacidade de disputar narrativa. Simplesmente não consegue reconstruir uma identidade mínima com a chamada base. Enquanto isso, o outro lado compreendeu que política de massas não se faz apenas com propostas, realizações e superioridade moral, mas com identificação.

A esquerda brasileira já foi profundamente identificada com trabalhadores, pobres, minorias e suas lutas por direitos sociais. Não era apenas uma questão de “consciência de classe”. Havia um alinhamento, relativamente simples, a pressupor que as conquistas dos trabalhadores existiam porque havia movimentos dispostos a defendê-los.

Crise de identidade

Quando essa identidade se enfraqueceu, a parcela da sociedade que a representava foi cooptada por outras formas de engajamento, entre elas, novos pertencimentos religiosos, com um discurso totalmente inspirado na promessa de prosperidade individual. Assim, o empreendedorismo como ideal, a família como unidade política e a moralidade conservadora como salvação passam a promover uma verdadeira demonização da identidade por meio do chamado “identitarismo”.

Aqui se encaixam a “ideologia de gênero”, a luta antirracista, os movimentos feministas, os povos indígenas e quilombolas e a comunidade LGBTQIAPN+. O trabalhador deixa de se perceber como aquele que é explorado ou dependente de políticas públicas e começa a enxergar-se como empreendedor, um vencedor da classe média, um cristão perseguido, uma pessoa de bem ameaçada pelo comunismo e pelos bandidos à solta.

O problema não está no direito de professar a fé. A grande questão revela-se em certas versões da teologia da prosperidade, especialmente as que oferecem uma explicação individual para problemas estruturais. Ao passo que prosperar se torna um sinal de mérito, devoção e disciplina, o fracasso vai sendo interpretado como incompetência. Dessa forma, desigualdade, precarização e falta de oportunidades deixam de ser compreendidas como temas políticos. O pobre fiel ainda espera o milagre que vai salvá-lo.

Em sua admirável trajetória, Lula sintetizou a ideia de que alguém igual a milhões de brasileiros havia atravessado uma barreira intransponível. Um operário chegou à Presidência e sua ascensão individual funcionou, por certo tempo, como uma esperança de emancipação coletiva.

Essa esperança, porém, nunca foi politicamente organizada olhando para transformações sociais. Se a vitória individual viesse, não seria por meio das reformas estruturais, mas pela fé, pelo empenho, pela obediência aos princípios conservadores e cristãos, pelo esforço e pela observação dos códigos morais da igreja. Ao dialogar com o sofrimento e as aspirações do povo, exaltava-se o sonho de cada pessoa em detrimento da luta coletiva.

Identidade contra identidade

Em todas as eleições que disputou antes de se tornar presidente, Lula enfrentava “adversários”, e agora enfrenta um “inimigo”. A disputa política operava-se num mesmo horizonte institucional democrático, mas, a partir de 2018, a competição assume essa dimensão “identitária”.

O “outro” passa a representar uma ameaça ao modo de vida, à religião, à família, aos valores e até à própria existência simbólica do grupo. Quando isso acontece, argumentos sobre indicadores econômicos, obras realizadas ou políticas públicas encontram um limite. Identidade não pode ser superada por planilhas ou estatísticas. Trata-se de uma questão simbólica.

Esperar que algum acontecimento, denúncia, decisão judicial, escândalo ou revelação funcionariam como uma “bala de prata” capaz de destruir eleitoralmente o campo conservador foi mais do que um erro estratégico, foi uma irresponsabilidade (porque não é possível que a esquerda seja tão ingênua).

Se fosse possível cravar uma diferença entre os tais movimentos identitários e aquilo que a Antropologia moderna definiu como identidade, no primeiro caso, a vaidade assume o lugar do projeto para arrastar multidões com discursos vazios, frases de efeito e promessas de que o esforço produzirá a vitória daqueles que dominarem as ferramentas de comunicação e as narrativas. A identidade, fundamental na organização da resistência, é completamente esvaziada, desvirtuada e destituída de legitimidade.

O “identitarismo” nada mais é do que a demonização da identidade, pois quando as pautas “identitárias” se transformam em códigos de pertencimento, a política deixa de produzir identificação e passa a fiscalizá-la. A defesa de mulheres, negros, indígenas, pessoas LGBTQIAPN+ e outros grupos historicamente discriminados continua sendo fundamental, mas o meio utilizado para fazer isso vem distanciando justamente as parcelas populares nas quais essas pessoas, em sua maioria, estão inseridas.

Abandonar as pautas das “minorias” seria um erro, mas falar sobre elas apenas para públicos que já compartilham determinado repertório cultural também é. A comparação entre Maria Bethânia e Jojo Todynho, independentemente da posição política de cada uma, coloca uma pergunta: para quem a comunicação progressista está sendo feita? Não se trata de substituir uma artista por outra, mas de compreender os significados dessa comparação.

Uma campanha pode ser esteticamente sofisticada, intelectualmente impecável e profundamente emocionante para quem já está convencido, mas inútil do ponto de vista eleitoral. Há uma diferença enorme entre representar valores progressistas e produzir identificação popular com esses valores. E essa distinção talvez seja uma das chaves que devem ser viradas para que o quarto mandato de Lula se concretize.

Tomando São Paulo como exemplo, a eficiente campanha de Tarcísio de Freitas mostra que a discussão sobre ideologia foi deslocada por uma estratégia narrativa. Se um governador constrói a imagem de gestor que “faz obras”, é bem avaliado e tem uma reeleição quase certa, uma oposição minimamente competente não deveria negar as obras, mas, considerando os prováveis financiamentos do governo federal, poderia disputar a autoria, demonstrar os aportes e exaltar a parceria. O voto casado entre oponentes poderia ampliar o percentual de Lula no maior colégio eleitoral do País.

Se o governador enaltece a obra e bate no peito para dizer que fez, o presidente poderia ter “colado” nele, mostrando quem colocou dinheiro nessas obras. Isso poderia transformar a popularidade do adversário e demonstrar a relevância da parceria com o governo federal. “Surfar na onda” seria o melhor jeito de usar a narrativa adversária e de encontrar dentro dela elementos que pudessem ser favoráveis.

Construir uma maioria

Na política atual o que voga é construir maioria. Movimentos eleitoralmente eficientes concentram-se também em ser majoritários. Uma coisa não deveria excluir a outra, pois possuir maioria não significa abandonar princípios para agradar conservadores. Ao entender valores como aquilo que sustenta uma sociedade, deve-se difundi-los entre todas as pessoas, principalmente, as que ainda não alcançaram as mesmas compreensões políticas.

Dinheiro no bolso e tempo para viver, casa para morar e geladeira cheia, criança na escola e longe do crime, respeito à diversidade e liberdade para professar a própria fé, judiciário e polícia tratando todos como iguais, hospitais sem filas, lazer e bem-estar. Quem não entenderia um discurso nesses termos? Democracia não pode ser uma abstração institucional, e sim demonstrar na prática o profundo significado da liberdade.

A extrema-direita sempre soube usar conceitos políticos abstratos convertendo-os em emoções simples, como medo, orgulho, indignação, pertencimento, fé, Deus, pátria, família, ordem, liberdade. A esquerda precisa aprender a realizar um movimento semelhante com os valores que sempre defendeu, como solidariedade, direitos humanos, igualdade, dignidade e esperança.

Talvez seja o fim ou o esgotamento de uma forma de fazer política, sobretudo no campo progressista. Imaginar que os pobres “viraram de direita” e desistir deles é desconsiderar que continuam desejando emprego (mesmo com o menor índice de desemprego da história), segurança (apesar da necessidade de emenda constitucional para uma ação mais direta do governo federal), reconhecimento, prosperidade e respeito (mesmo com todos os programas sociais), família protegida e futuro para os filhos (embora haja programas que garantam a permanência na escola e o acesso à universidade).

Com tantos parênteses, por que a população ainda se sente desfavorecida? A resposta é simples: o atual governo não conseguiu organizar simbolicamente essas conquistas.

Não se pode acreditar que nosso povo seja desprovido de inteligência. Na verdade, trata-se de um povo que quer ter esperança de dias melhores (ainda que os atuais não sejam ruins) e acaba abraçando o discurso do mérito e caindo num golpe. Só que não basta denunciar as intenções nefastas de certos políticos. É preciso compreender quais expectativas tornaram aceitáveis e verossímeis essas figuras e suas respectivas ideologias.

Como reconstruir uma esperança suficientemente real para disputar com essa gente? As eleições podem ser vencidas por quaisquer candidatos, mas maiorias duradouras são conquistadas quando milhões de pessoas passam a enxergar sua própria história dentro de um projeto político.

Ao compreender a dimensão da identidade, o campo conservador usou a força do símbolo para avançar e conquistar uma fatia essencial do eleitorado, que segue fiel a Deus, à pátria e à família. Se o campo progressista pretende voltar a construir uma maioria social, sem confundi-la com coalizão eleitoral, deve entender que ninguém pertence a um projeto político apenas porque está correto e parece justo, mas porque, de alguma maneira, consegue ouvir um discurso e identificar-se com aquilo que o instiga e é urgente dentro dele.

Falar ao povo nunca foi simples, mas desde que uma “elite pensante” tomou pra si o lugar de fala e o desvirtuou num conceito vazio e raso, o “identitarismo” passou a simbolizar o demônio com o qual nenhum crente (e não estou falando exclusivamente dos evangélicos) quer se identificar. Intelectuais, artistas, feministas, negros, indígenas, gays, lésbicas ou trans, defensores de toda sorte de desvalidos estão apenas fantasiados de bastiões da democracia.

Se a desigualdade afeta o povo, Deus proverá e salvará aqueles que creem e merecem. Eles disseram que não falta nada ao pobre quando existe fé, esforço e um redentor. Eles são Deus e só precisavam de um diabo. Eles venceram. Eles são muitos, mas, pra nossa sorte, continuam sem saber voar.

O sonho do povo

Em 1989, fomos convocados a restabelecer a democracia, que segue incipiente e frágil. O apóstolo de um Beija-flor, em João, Trinta, capítulo glorioso, versículo inesquecível, convocou mendigos, desocupados, pivetes, meretrizes, loucos, profetas, esfomeados e povo de rua a tirar dos lixos deste imenso País restos de luxos. Mas os usurpadores do templo não permitiram que o Cristo atravessasse impunemente a encruzilhada sagrada.

Desde então, todas as vozes resgatadas na Sapucaí ainda clamam por liberdade. No berço do samba, a eleição do algoz pode rasgar definitivamente a fantasia do povo que trabalha o ano inteiro por um instante de sonho, porque agora, o sonho do pobre não é mais ser rico, é ser salvador.

O Messias já veio e retornou, foi morto, crucificado, alvejado, esquartejado e ainda teve a cabeça pendurada em praça pública. Mas o povo só escolheu Barrabás porque quem poderia decidir não compareceu e se omitiu, isentando-se da responsabilidade de realizar a transformação histórica que preservaria o futuro.

Consciência de classe só se constrói com lideranças que surjam e permaneçam comprometidas com o povo. Mais do que não se vender, não se render ou não esmorecer, é preciso se valer da identidade para construir resistência. Só assim virá a revolução.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Pai Rodney

Pai Rodney de Oxóssi é antropólogo, escritor e babalorixá. Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e religiões de matriz africana. É sacerdote do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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Fonte: Carta Capital

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