Lula propõe ampliar rede do SUS; Flávio prioriza contratação privada

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Por José Reinaldo — Brasil 247

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) propõem caminhos diferentes para o Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo levantamento do jornal O Globo, Lula concentra suas propostas na expansão da estrutura pública e de programas em andamento, enquanto Flávio prioriza a contratação de serviços privados.

As diferenças envolvem também o financiamento e a presença de profissionais em regiões com pouca oferta de assistência. O presidente defende ampliar o Mais Médicos e manter o crescimento do orçamento da Saúde acima do mínimo constitucional. A campanha do senador, de acordo com a reportagem, não respondeu se pretende aumentar os recursos destinados ao SUS.

Os dois candidatos apresentam suas propostas para um sistema do qual cerca de 75% da população depende exclusivamente, conforme os dados reunidos pelo jornal. Especialistas ouvidos pela publicação apontam o orçamento insuficiente, a dificuldade de articulação entre governos e a distribuição desigual dos serviços como obstáculos ao atendimento.

“O difícil hoje é conseguir fazer uma gestão mais eficiente com o uso dos recursos já escassos. A redução das filas é um dos pontos mais importantes. Uma das dificuldades é falta de integração entre as redes municipais e estaduais”, afirmou o sanitarista Gonzalo Vecina, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e fundador da Anvisa.

Contratação privada e expansão da estrutura pública

Embora dê prioridade à ampliação da rede própria, Lula também prevê a participação de hospitais e operadoras privados. Uma das principais propostas é expandir o Agora Tem Especialistas, programa que permite converter dívidas e créditos dessas instituições em atendimento a usuários do SUS.

O modelo prevê remuneração de três a quatro vezes superior à tabela tradicional e mecanismos de pagamento vinculados aos resultados, além dos procedimentos realizados. O presidente também cita acordos com entidades privadas para transferência de tecnologia e aumento da produção brasileira de medicamentos e vacinas.

Flávio propõe contratar exames e outros serviços em horários nos quais os prestadores privados tenham capacidade disponível. Defende ainda revisar a tabela do SUS para remunerar os parceiros pelo que chama de “custo real” dos atendimentos.

O senador menciona a adoção de um “modelo Einstein” no sistema público, mas, segundo O Globo, não detalhou como a proposta funcionaria. Também pretende recorrer a parcerias público-privadas para criar uma Rede Nacional de Cuidado, com centros-dia e assistência domiciliar para idosos e pessoas com deficiência.

Filas, câncer e atendimento em regiões remotas

Para reduzir a espera por consultas, exames e cirurgias, Lula propõe ampliar o terceiro turno nos serviços de saúde, os mutirões e as Carretas da Saúde, dentro do Agora Tem Especialistas. A continuidade e a expansão do Mais Médicos integram a estratégia para reforçar o atendimento em localidades com escassez de profissionais.

Na assistência oncológica, o presidente estabelece como meta que todos os municípios com mais de 150 mil habitantes tenham um centro de tratamento de câncer nos próximos quatro anos. A proposta também prevê reduzir para até 30 dias o prazo para início da terapia.

Outra medida apresentada é uma fila digital única, organizada conforme o risco clínico dos pacientes. Para cidades menores, Lula prevê teleconsultas com especialistas.

Flávio, por sua vez, defende ampliar a Estratégia Saúde da Família e utilizar um aplicativo para conectar médicos com menor demanda a pacientes de regiões com filas extensas. O candidato também propõe modernizar hospitais universitários federais.

Em entrevistas anteriores, o senador mencionou incentivos para que profissionais recém-formados trabalhem em áreas remotas, mas não apresentou detalhes sobre esses mecanismos, de acordo com a reportagem.

Vacinação tem propostas com diferentes níveis de detalhamento

A recuperação da cobertura vacinal será outro desafio do próximo governo. Segundo o levantamento publicado pelo jornal, apenas três imunizantes alcançaram as metas em 2025.

Lula apresenta a vacinação nas escolas como prioridade para ampliar a proteção. A estratégia leva equipes de saúde às unidades de ensino. O presidente também promete estender a imunização contra a dengue e o vírus sincicial respiratório (VSR), principal causador de bronquiolite em crianças pequenas, a toda a população elegível.

Flávio afirma que pretende “manter a imunização e incentivar a produção nacional de vacinas”, sem especificar medidas para recuperar as coberturas. No debate da Band, realizado no domingo (18), reconheceu que o governo de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, “não teve os melhores resultados” na área.

Para Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, a vacinação precisa ocupar posição central na política de saúde.

“A vacinação é talvez o maior instrumento de custo-efetividade em programas de saúde pública. O próximo governo deve assumir o compromisso de incentivar a vacinação e investir na aquisição e na produção nacional de doses”, afirmou.

Prontuário único depende de infraestrutura e integração

Os dois candidatos defendem integrar informações dos pacientes e ampliar o uso de ferramentas digitais.

Lula propõe utilizar a Rede Nacional de Dados em Saúde para permitir que profissionais consultem o histórico de usuários atendidos em diferentes municípios. Também prevê transcrição automática de teleconsultas, agendamento pelo celular e acompanhamento da posição nas filas de consultas, exames e cirurgias.

Flávio aposta em inteligência artificial para identificar riscos de doenças, antecipar cuidados e organizar agendamentos. Sua proposta inclui um prontuário eletrônico único conectado ao Gov.br, com intercâmbio de informações entre os setores público e privado.

Julia Pereira, gerente de relações institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), avalia que a integração precisa avançar primeiro dentro da própria rede pública. Os dados do Censo Nacional de Unidades Básicas de Saúde de 2024 mostram limitações: 34,8% dos postos conectados consideram a internet inadequada e 47,8% não dispõem de estrutura para webconferências.

“Além disso, hoje o SUS tem poucos instrumentos para exigir que a iniciativa privada envie seus dados à rede pública, informações que têm valor comercial para esses agentes. Uma integração mais profunda depende de mudança normativa, não de boa vontade contratual. Outras tecnologias como IA ajudam, mas sozinhas não resolvem. Não substituem a necessidade de contratar, formar e fixar equipes”, afirmou.

Envelhecimento amplia demanda por cuidados

Para atender à população idosa, Lula defende expandir centros-dia, academias públicas e vagas públicas em instituições de longa permanência. Também propõe levar a todo o país o Programa de Atenção Domiciliar ao Idoso, o PADI Brasil, destinado a pessoas com limitações funcionais, doenças crônicas e fragilidades clínicas.

Flávio apresenta, além da Rede Nacional de Cuidado, o programa Casa Segura para Envelhecer, com subsídios para adaptações de acessibilidade nas moradias de famílias de baixa renda. O senador também promete ampliar instituições de longa permanência.

Entre suas propostas está ainda um aplicativo de companhia com alertas de perigo, apresentado como ferramenta “para que o idoso tenha o amparo da tecnologia, e o filho que mora longe tenha tranquilidade”.

Fonte: Brasil 247

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