Lula precisa reencontrar o Brasil do supermercado
Por João Lister — Brasil 247
O resultado desfavorável que se desenha para Lula no primeiro turno exige mais do que intensificar a campanha. Exige compreender o recado das urnas. Se o presidente pretende reverter a vantagem do adversário, precisará demonstrar que reconhece as dificuldades que atravessam a vida cotidiana e que tem disposição para enfrentá-las com decisões concretas.
O caminho das alianças, que tantas vezes ajudou Lula a construir vitórias, apresenta agora limites evidentes. Entre as candidaturas derrotadas com maior expressão eleitoral, predomina um campo situado à direita, pouco propenso a aderir ao projeto do presidente. Eventuais apoios individuais poderão ocorrer, mas seria um erro organizar a reação em torno da expectativa de uma grande ampliação da frente partidária.
Também seria equivocado imaginar que os eleitores pertencem aos candidatos em quem votaram. O apoio de uma liderança não transfere automaticamente sua votação, assim como sua adesão ao adversário não encerra a possibilidade de diálogo com quem a escolheu. Ainda assim, o cenário indica que Lula terá de buscar diretamente na sociedade a força que dificilmente encontrará nas negociações entre cúpulas.
Nesse quadro, a abstenção merece atenção central. Se confirmado o índice superior a 20%, mais de um em cada cinco eleitores terá ficado fora da decisão. Essa ausência não pode ser interpretada como um estoque de votos disponíveis para Lula. Entre os que não compareceram existem posições políticas diversas, dificuldades materiais, desinteresse e descrença. A tarefa será compreender essas razões e reconstruir a confiança na utilidade do voto.
Convocar alguém a participar requer oferecer uma razão para participar. Quem enfrenta trabalho precário, contas atrasadas e alimentação cara precisa perceber uma relação entre a escolha eleitoral e as possibilidades de melhorar sua vida. Uma campanha que apenas repita suas realizações poderá falar principalmente com os já convencidos. Para alcançar os demais, será necessário escutar o descontentamento sem tratá-lo como ignorância ou ingratidão.
A carestia deve ocupar o centro dessa conversa. A economia que aparece nos indicadores nem sempre coincide com aquela experimentada na fila do supermercado. Mesmo quando a inflação desacelera, os preços podem continuar elevados. Para quem compra menos com o dinheiro disponível, ouvir que a situação melhorou pode soar como desconhecimento de sua realidade.
A classe média também ocupa um lugar decisivo nessa disputa. Seu peso eleitoral e sua participação na formação da opinião pública tornam seu descontentamento um componente importante para compreender o resultado. Seria um erro presumir que sua insatisfação decorre apenas de posições ideológicas: há uma pressão material sobre o orçamento de famílias que enfrentam despesas crescentes com alimentação, moradia, saúde, educação e transporte.
Nesse contexto, a defasagem da tabela do Imposto de Renda merece atenção. Ampliar a isenção para rendas menores não equivale a corrigir integralmente a tabela para os demais contribuintes. Quando as faixas tributárias não acompanham a inflação, reajustes salariais que apenas recompõem perdas podem elevar o imposto devido, mesmo sem aumento real do poder de compra. A renda cresce nominalmente, mas o dinheiro disponível continua insuficiente.
A discussão sobre justiça tributária precisa, portanto, alcançar também essa parcela da população. A correção da tabela e a revisão das deduções merecem integrar o debate sobre recuperação da renda, com responsabilidade fiscal e maior progressividade. A classe média que depende do próprio trabalho também sente a carestia e precisa ser considerada na avaliação dos efeitos da política econômica. Seu orçamento ajuda a explicar por que indicadores favoráveis nem sempre se traduzem em aprovação do governo.
O arroz, o feijão, a carne, o café, o gás de cozinha e os combustíveis compõem uma linguagem política que dispensa tradução. O preço do diesel participa do custo de transportar mercadorias. A gasolina pesa no orçamento de quem depende do veículo para trabalhar. O gás disputa espaço com a comida no orçamento doméstico. Essas despesas organizam a percepção que milhões de brasileiros têm sobre o governo.
Lula precisa recuperar uma identidade mais forte com essas preocupações. Sua trajetória lhe oferece experiência para isso, mas a identificação construída no passado precisa ser renovada no presente. Não basta lembrar o que o povo conquistou em outros governos. É necessário explicar o que será feito agora para que a renda alcance o fim do mês.
A política internacional tem relevância para a soberania e para a economia brasileira. Entretanto, não deveria comandar a comunicação de uma campanha diante de um eleitorado pressionado pelo custo de vida. O reconhecimento externo do presidente não paga a compra da semana. A discussão sobre o lugar do Brasil no mundo precisa ceder espaço, nessa etapa, à discussão sobre as condições de vida dentro do Brasil.
Essa mudança de prioridade exige ação governamental. O presidente precisa examinar e utilizar os instrumentos legais disponíveis para enfrentar a carestia, com critérios públicos, responsabilidade e objetivos verificáveis. Na alimentação, isso significa avaliar medidas de abastecimento, apoio à produção, logística e redução de custos, além de providências pontuais quando houver escassez ou distorções de mercado.
Nos combustíveis, é necessário examinar toda a cadeia de formação dos preços. A estratégia comercial da Petrobras oferece referências para essa discussão, mas o valor cobrado pela companhia representa apenas uma parcela do preço final. Distribuição, revenda, tributos e outros componentes também precisam entrar na análise. Uma redução anunciada deve ser acompanhada de transparência para que a população possa verificar o que efetivamente chegou à bomba.
As medidas precisam apresentar fundamento econômico e observar as regras aplicáveis. Seu propósito deve ser melhorar o abastecimento e aliviar despesas essenciais, com resultados sustentáveis. O anúncio sem efeito perceptível pode aprofundar a frustração de quem já desconfia das promessas eleitorais.
O tempo até o segundo turno é curto, e nem todos os problemas poderão ser resolvidos nesse intervalo. Ainda assim, há uma diferença decisiva entre prometer genericamente e apresentar decisões, responsáveis, prazos e formas de acompanhamento. Reconhecer os limites também pode produzir confiança, desde que acompanhado de uma direção clara.
Lula terá de preservar os votos conquistados, dialogar com os que escolheram outros candidatos e recuperar a disposição de participar entre os ausentes. Nenhum desses movimentos está garantido. Todos dependem da capacidade de oferecer uma perspectiva convincente de melhora.
O desafio é reencontrar o Brasil que mede a economia pelo carrinho de compras, pelo tanque de combustível e pela conta que vence amanhã. Para esse Brasil, a campanha precisa trazer escuta, linguagem compreensível e providências concretas. A possibilidade de virada estará ligada à capacidade de Lula demonstrar que conhece a dimensão do aperto e que seu governo pode agir para aliviá-lo.
Fonte: Brasil 247