Lula não é Neo
Por Emerson Barros de Aguiar — Brasil 247
A ingenuidade analógica da esquerda ainda não percebeu que o poder mudou de endereço.
Hoje o poder não mora apenas nos palácios, nos parlamentos e nos partidos. Mora nos Data Centers, nos servidores digitais, nos bancos de dados, nas plataformas, nos algoritmos e nos escritórios de empresas que ninguém elegeu.
As maiores corporações do nosso tempo não precisam fabricar sapatos, automóveis ou geladeiras para exercer poder. Elas administram dinheiro, informação, nuvens digitais, inteligência artificial, publicidade e, principalmente, a atenção humana. E quem controla a atenção controla a narrativa e pauta a realidade. Não é preciso censurar uma ideia quando se pode simplesmente enterrá-la sob dez milhões de opiniões.
A banca financia e as Big Techs fornecem a estrada, o radar, o pedágio e, em certos casos, até o mapa. O cidadão pensa que está navegando livremente quando, na verdade, está circulando dentro de um labirinto cuja arquitetura não conhece.
A luta hoje é na arena digital, mas a esquerda e o campo democrático e progressista entram nela desarmados, numa arena dominada por algoritmos que favorecem os interesses de seus próprios donos.
As Big Techs têm na direita e, sobretudo, na extrema-direita, seus representantes políticos formais, favorecendo-os radicalmente através dos seus algoritmos.
Em setembro, na própria Casa Branca, os gigantes da inteligência artificial celebraram um acordo voluntário para estabelecer seus próprios mecanismos de segurança, auditoria e controle. Em vez de uma autoridade pública impondo limites a empresas que concentram um poder tecnológico extraordinário, as próprias empresas participam da construção das regras pelas quais serão avaliadas. É o Dragão controlando seu próprio apetite, o vampiro gerenciando o banco de sangue, o cachorro escrevendo o regulamento do canil.
O próprio governo americano vem adotando uma política que privilegia padrões conduzidos pela indústria e rejeita a criação de novas estruturas específicas de regulação da inteligência artificial. Paralelamente, o governo Trump vem estreitando a integração entre o governo, a indústria tecnológica e a infraestrutura estratégica da IA.
É nesse cenário que alguém olha para Lula e pergunta: e agora?
Lula é Lula. Tem história, votos, experiência, autoridade internacional e uma capacidade política que não deve ser subestimada. Mas Lula não é Neo. Não existe presidente capaz de entrar sozinho na Matrix, arrancar os cabos das máquinas e sair tomando café na esquina enquanto o sistema explode atrás dele.
Porque a Matrix, desta vez, não está escondida em uma sala escura. Ela está no bolso de cada cidadão, na tela de cada celular, no dinheiro que circula invisivelmente, no algoritmo que escolhe o que aparece diante dos nossos olhos e na infraestrutura que decide a velocidade com que uma informação chega a milhões de pessoas.
A velha esquerda ainda discute palanque enquanto os donos do palanque discutem o algoritmo.
O poder descobriu que não precisa acabar com a oposição. Basta torná-la pobre, pequena, invisível e inaudível. Não é necessário proibir o pensamento. Basta controlar o megafone.
Lula pode enfrentar muita coisa. Mas nenhuma pessoa enfrenta uma estrutura dessa dimensão sozinha. Para isso não basta um Neo. É preciso que milhões de pessoas descubram, antes de tudo, que estão dentro da Matrix.
Não basta denunciar o dragão digital: é preciso construir armas para enfrentá-lo. Democratas, esquerda e campo progressista precisam criar suas próprias redes de comunicação, formar comunidades digitais, disputar os algoritmos com conteúdo de qualidade e organizar uma comunicação capaz de furar as bolhas.
A extrema-direita é apenas o pitbull político das grandes corporações tecnológicas e da banca internacional: rosna para as massas, mas protege os interesses de quem segura a coleira.
O campo democrático precisa aprender a enfrentar esse inimigo. Nessa guerra, cada um de nós é um Neo e um Lula!
Fonte: Brasil 247