Lula não defendeu que pobres devem passar a vida ‘cortando cana’
Por Bianca Bortolon — Aos Fatos | Valorize o que é real
Não é verdade que o presidente Lula (PT) defendeu em discurso que pessoas pobres devem “morrer cortando cana”, como afirmam postagens nas redes sociais. A declaração foi descontextualizada e retirada de uma crítica do petista à elite brasileira que, segundo ele, não investiu em educação para a parcela mais pobre da população brasileira ao longo da história.
Postagens com o conteúdo enganoso reuniam ao menos 20 mil compartilhamentos no Facebook até a tarde desta quinta-feira (24).
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O pobre tinha que morrer cortando cana ou garimpando

Publicações enganam ao compartilhar trecho descontextualizado de um discurso de Lula para fazer crer que o presidente defendeu que pessoas pobres devem passar a vida “cortando cana”. Lula se refere à elite brasileira e diz que “eles não se importaram, porque os filhos deles iam estudar na Europa, estudar nos Estados Unidos, e o pobre tinha que morrer cortando cana ou garimpando para eles”.
O discurso foi feito em 9 de setembro, durante um ato político em Teresina, no Piauí. No trecho, Lula afirmou que a educação não era tratada como prioridade no Brasil antes dos governos do PT (Partido dos Trabalhadores). Em seguida, comparou o intervalo entre a chegada dos europeus e a criação das primeiras universidades no Brasil e na República Dominicana.
Segundo o presidente, a demora na criação de universidades no Brasil ocorreu porque as elites não tinham interesse em garantir acesso à educação às populações indígenas e, posteriormente, às pessoas escravizadas e pobres, que eram destinadas ao trabalho.
A frase utilizada nos posts desinformativos tem 4 segundos, já a crítica sobre a elite brasileira tem pouco mais de 1 minuto. Confira abaixo o trecho completo do discurso:
Eu sei que, durante séculos e séculos, a elite brasileira não se importou com o povo pobre. A educação nunca foi levada a sério nesse país antes da gente chegar ao governo. Eu digo sempre, Rafael [Fonteles, governador do Piauí], a primeira universidade em Santo Domingo, na República Dominicana, que foi descoberta em 1492, foi criada 40 anos depois da descoberta.
A nossa primeira universidade só foi criada 420 anos depois que Cabral chegou aqui. Porque a elite brasileira daquela época não queria educar os indígenas. Indígenas foram feitos para trabalhar para eles.
Depois, durante 350 anos, não quiseram educar os escravos que só vinham aqui para trabalhar. E por isso eles não se importaram, porque os filhos deles iam estudar na Europa, estudar nos Estados Unidos, e o pobre tinha que morrer cortando cana ou garimpando para eles.
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Narrativa recorrente. Esta não é a primeira vez que publicações nas redes retiram de contexto discursos e entrevistas de Lula para fazer parecer que o presidente fez declarações depreciativas sobre pessoas pobres. Aos Fatos já desmentiu conteúdos que alegavam que o petista:
- Defendeu que pobres não devem estudar, apenas trabalhar (aqui e aqui);
- Disse que a solução para o país é manter os pobres na pobreza;
- Afirmou que pobres não devem consumir para evitar que ricos fiquem mais ricos;
- Defendeu que pobres devem ser usados durante o período eleitoral e depois descartados (aqui, aqui e aqui);
- Disse que o papel do pobre é esperar ajuda do governo;
- Afirmou que há brasileiros que gostariam de ser pobres por escolha própria;
- Falou que a universidade foi feita para ricos e não para pobres;
- Afirmou que pobres têm que comer carne de terceira e sofrer;
- Chamou pessoas pobres de “imbecis e ignorantes”.
Esta peça de desinformação também foi checada pela Reuters.
O caminho da apuração
Aos Fatos localizou a íntegra do discurso feito por Lula e comparou a gravação original com o trecho compartilhado nas redes.
A reportagem também consultou checagens anteriores sobre discursos de Lula retirados de contexto para mapear a recorrência desse tipo de desinformação.