Livro recupera pensamento de Mariátegui como instrumento para os desafios contemporâneos
Por rosesilva — Fundação Perseu Abramo
O evento de lançamento do livro Meu sangue em minhas ideias: dialética e imprensa revolucionária em José Carlos Mariátegui, realizado em 22 de setembro, reuniu na sede da Fundação Perseu Abramo a cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mônica Bruckmann e o pesquisador responsável pelo volume de iconografia Emílio Font, diretor da Escola Latino-americana de História e Política (ELAHP), que são autores da publicação. A mesa foi mediada pelo diretor de cooperação Internacional da FPA, Valter Pomar.
Em dois volumes que separam texto e iconografia, Meu sangue em minhas ideias baseia-se na dissertação de mestrado defendida por Monica Bruckmann na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde é professora e coordenadora do Núcleo de Pesquisa de Geopolítica, Integração Regional e Sistema Mundial.
Os anexos do livro trazem a lista de todos os colaboradores que escreveram na histórica revista Amauta, uma das principais da América Latina no século 20, e a capa das 32 edições, que receberam tratamento gráfico e se destacam em belíssimas imagens. “Decidi escrever sobre Mariátegui porque de alguma maneira era uma forma de me aproximar do que constitui a própria cultura política peruana e de reconstruir uma a história do pensamento latino-americano do século XX”, disse.
Nascido em 1894, em Moquegua, Peru, Mariátegui morreu aos 36 anos e produziu uma obra jornalística bastante extensa. Autodidata, ele sofreu um acidente que o impediu de frequentar a escola e o tornou uma criança que não podia brincar devido a problemas de locomoção. Aprendeu francês nas revistas de moda que sua mãe, costureira, utilizava em sua profissão, e se tornou leitor assíduo de jornais que comprava com as gorjetas que recebia das clientes dela. Muito informado, lia todos os livros que chegavam a suas mãos.
Atuou como escritor, jornalista, editor, cientista social, filósofo e ativista político. Teve papel importante na construção das primeiras organizações da classe trabalhadora no Peru e foi um dos principais pioneiros do marxismo latino-americano.
“A liberdade com a qual ele analisou os problemas da época dele desde uma perspectiva marxista, mas ao mesmo tempo sem moldura e predefinição, a partir de um entendimento complexo das tendências da realidade, faz dele o marxista mais criativo do século 20 e, para muitos, estudiosos, o primeiro da América Latina capaz de pensar o caráter da revolução peruana a partir das origens históricas, sociais e políticas do Peru”, afirmou Bruckmann.
De acordo com a autora, ele já preconizava, nos anos 1920, a necessidade de entender o indígena como sujeito político. “O debate sobre a questão indígena começa com uma visão mais filantrópica, segundo a qual o índio tem direito a reparação histórica, religiosidade, sua própria cultura, um pouco o que prevalece ainda hoje quando se pensa a questão indígena no Brasil. Mariátegui escreveu que o problema do índio é a estrutura de propriedade da Terra, e a questão indígena tem a ver com uma visão civilizatória. Então, já colocava o índio como sujeito social”, pontuou.
O lançamento do livro coincide com o centenário da revista Amauta, criada pelo pensador peruano em 1926, que foi uma plataforma intelectual e movimento cultural de âmbito global, com a ideia de levar o mais avançado do espírito humano para operariado peruano e latino-americano. Junto com a costarriquenha Repertório Americano, criada em 1929, foi uma das revistas históricas do século 20.
“A característica principal da Amauta foi seu caráter planetário, acolhia em suas páginas artigos, informações, análises sobre a situação da crise mundial daquele momento e os grandes temas emergentes. Falava de Freud quando ainda estava tentando se manter na comunidade médica, antes de ser expulso. Tinha artigos do Einstein inclusive. E vamos lembrar que nós, de países ex-colônias portuguesas ou espanholas, éramos proibidos de ter imprensa, tínhamos de importar os jornais, os livros. Então, um projeto do início do século 20 que já se propunha a produzir conhecimento local e bebia de todas as fontes, as mais atuais, as mais avançadas da literatura, das artes, do debate político, psicanálise, homeopatia”, pontuou a autora.
“O que o livro traz não é apenas uma história das ideias. O interesse principal foi, e eu estou convencida de que continua sendo o desafio de nosso tempo, a apropriação de um instrumental teórico metodológico, a inspiração em uma obra que não foi escrita, não foi conceitual, não foi uma obra política organizativa, foi tudo isso ao mesmo tempo, como um instrumento para os desafios contemporâneos. As chaves que ele coloca para compreender processos absolutamente atuais são impressionantemente vigentes hoje em dia”, conclui a autora.
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Fonte: Fundação Perseu Abramo