Lindbergh pede ao STF investigação de Flávio por falcatrua nos Correios

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Por André Barrocal — Carta Capital

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Indícios contra o senador apareceram na Operação Postal Off, da Polícia Federal, e foram revelados por CartaCapital em agosto

Flávio Bolsonaro jamais foi investigado em um caso de falcatruas nos Correios, apesar de o nome dele ter aparecido em áudios de celular, telefonema e gravação clandestina existentes em um inquérito da Polícia Federal aberto em Santa Catarina no fim de 2018. Agora o deputado Lindbergh Farias (PT) pede ao Supremo Tribunal Federal que volte o tema e investigue o presidenciável.

O petista requer ao STF o sorteio de um relator para o caso, em vez de remetê-lo automaticamente a Kassio Nunes Marques, o responsável por engavetar em 2021 os indícios contra o senador. Entre as evidências, há o relato de um investigado de que Flávio teria ouvido proposta de propina para ajudar a nomear o presidente dos Correios no governo do pai. Oferta de “um barão por mês”, segundo um áudio de celular.

A juíza de primeira instância que supervisionava a operação policial “Postal Off” achava que as pistas sobre o senador mereciam ser examinadas e mandou o caso ao Supremo. Nunes Marques devolveu-lhe tudo, após ouvir o procurador-geral da República da época, Augusto Aras. Para este, não havia nada contra Flávio. Tanto Aras quanto Marques tinham sido indicados por Jair Bolsonaro para os cargos.

CartaCapital revelou as citações o Flávio na Operação Postal Off em agosto e foi com base naquela reportagem que Lindbergh acaba de acionar o Supremo.

Ao longo daquele inquérito, a PF descobriu um esquema que fraudou os Correios em ao menos 94 milhões de reais. A investigação começou em novembro de 2018, logo após a eleição de Jair Bolsonaro. O serviço de inteligência dos Correios de Santa Catarina relatou à PF local que um certo grupo empresarial tinha tentado corromper o então chefe da companhia no estado. Os subornadores queriam que Marciano da Silva Oliveira levasse a repartição catarinense da estatal a aderir a um esquema nascido no Rio.

Esse esquema desfalcava os Correios através do subfaturamento da quantidade de correspondências. A companhia aceitava grandes volumes para despachar, mas não cobrava a totalidade do envio, só parte. A diferença entre o volume real e aquele cobrado era embolsado pela turma do esquema, um pessoal que agia como intermediário entre o dono das correspondências e a estatal.

Em 11 de dezembro de 2018, Oliveira reuniu-se em Florianópolis com o então diretor dos Correios no Rio, Clever Isaías Machado, e gravou a conversa, com aval da Justiça. Machado disse que tinha apoio de certo empresário para seguir à frente dos Correios do Rio após o governo Temer e que esse empresário tinha acesso a Flávio Bolsonaro. Dois dias antes, esse empresário tinha estado com o senador, segundo Machado disse a Oliveira.

O empresário em questão é Eduardo Scheurer, o “Duda”. Era dono da Positiva, firma que participava do esquema no Rio em parceria com uma outra empresa, a Lógika. Quem havia tentado subornar Oliveira tinha sido a Lógika, de acordo com a PF.

Scheurer e os sócios da Lógika tinham um grupo de WhatsApp. Áudios enviados por ele em fevereiro de 2019 nesse grupo registram novas menções a Flávio e o papel que o senador poderia ter como canal na tentativa da turma do esquema de emplacar o novo comandante nacional dos Correios.

Segundo os áudios, a ponte de Scheurer com o senador era o então presidente do Campo Olímpico de Golfe da cidade do Rio, Carlos Favoreto, personagem das relações do clã Bolsonaro. Em 2017, por exemplo, ele, Flávio e Jair Bolsonaro aparecem juntos em uma foto postada pelo senador no ex-Twitter.

Na eleição de 2018, Favoreto ajudou a arrecadar dinheiro para a campanha do “Zero Um”, daí que teria “uma moeda de troca com o Flávio”, conforme um áudio de Scheurer de 19 de fevereiro de 2019. No dia desse áudio, Favoreto iria a Brasília e levaria uma proposta em nome de Scheurer: “um barão por mês” em troca da indicação de presidente dos Correios.

Em 25 de fevereiro de 2019, outro áudio de Scheurer relatava aos parceiros da Lógika o resultado da ida de Favoreto a Brasília. “Favoreto não abriu meu nome, falou com o Flávio (Bolsonaro), não abriu meu nome, falou que tinha um empresário que ele endossava, cara de primeira linha, cara pesado pá, pá, pá… com um projeto grandioso muito bom pros Correios e que sobrava um barão na mesa se a gente conseguisse colocar o presidente. Ele (Flávio Bolsonaro) adorou, ficou com os olhos brilhando, segundo o Carlos, tá?”.

O problema, segundo Scheurer, é que Jair Bolsonaro não abria mão de escolher ele próprio o presidente dos Correios, daí que Flávio achava que a saída era a indicação via Favoreto ser para uma vice-presidência.

As últimas menções ao “Zero Um” nas investigações são de abril de 2019, em telefonemas daquele que havia dirigido os Correios em São Paulo na gestão Temer. Em 2 de abril de 2019, Marco Venicio da Costa disse a um interlocutor que alguém “forte”, um “senador” havia pedido a ele (Venicio) para indicar alguém para chefiar a estatal em São Paulo. No dia seguinte, Costa afirmou em outra ligação quem era o “senador”: “Vou te dar só o sobrenome, tá? Bolsonaro”.

Diante de todas as citações a Flávio Bolsonaro, a juíza do caso Postal Off, Claudia Maria Dadico, da 7 a Vara Federal de Florianópolis, mandou o inquérito ao Supremo em abril de 2021. Só o STF pode apurar congressistas. “As menções são potencialmente relevantes, razão pela qual as investigações deveriam avançar em relação a tais indícios”, escreveu a magistrada na decisão.

No Supremo, o inquérito ficou sob a relatoria de Nunes Marques. Em maio de 2021, o togado enviou a papelada ao procurador-geral da República da época. Augusto Aras não viu motivo para investigar Flávio. Marques concordou. Cobriu sua decisão, de dezembro de 2021, com segredo de Justiça e devolveu o processo à 7 a Vara de Florianópolis.

No pedido ao STF para que apure Flávio, Lindbergh pede o sorteio de outro relator. Motivo: naquela sessão da corte de 15 de setembro que discutiu o envolvimento de togados supremos no caso Master, Nunes Marques declarou-se impedido de participar de julgamento que tivesse impacto potencial na eleição. Ele é o atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

No documento ao Supremo, Lindbergh menciona a existência de um inquérito policial instaurado no ano passado que, entre outras coisas, debruça-se sobre o controle político de Flávio Bolsonaro sobre nomeações para cargos em hospitais federais do Rio de Janeiro durante o governo do pai. Esse inquérito nasceu do relatório final da CPI da Covid, de 2021.

“A instauração, em 17 de setembro de 2025, de inquérito nesta Corte sobre o mesmo padrão de conduta atribuído ao parlamentar (Flávio) é fato posterior à decisão de dezembro de 2021 e altera o contexto probatório em que ela se formou, porque retira fundamento da premissa de que as referências ao senador seriam menção casual”, diz o pedido de Lindbergh. “Esse fato retira fundamento da premissa, adotada em 2021 (por Aras e Nunes Marques), de que as referências ao senador seriam menção casual.”


André Barrocal

Repórter especial de CartaCapital em Brasília

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Fonte: Carta Capital

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