Leandro Grass: “A esquerda errou muito ao abandonar o diálogo com a população das periferias”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – O candidato ao governo do Distrito Federal, Leandro Grass (PT), afirmou que o afastamento da esquerda em relação às populações das periferias contribuiu para enfraquecer sua presença eleitoral e abriu espaço para o avanço de grupos políticos conservadores. Em entrevista ao programa Boa Noite 247, ele fez uma autocrítica sobre a atuação do campo progressista e defendeu a reconstrução do trabalho de base como condição para recuperar a confiança dos trabalhadores e ampliar o apoio às candidaturas de esquerda.
“É preciso reconhecer que o campo progressista e nós da esquerda erramos muito ao abandonarmos o diálogo com essa base periférica mais empobrecida. A gente achou que naturalmente essas pessoas, por serem trabalhadoras, por serem de baixa renda, estariam do nosso lado”, declarou Grass.
A avaliação foi apresentada ao comentar as dificuldades enfrentadas pela esquerda no Distrito Federal, onde sua adversária, Celina Leão, chegou perto de vencer a eleição no primeiro turno, apesar das críticas à administração da qual participou. Para Grass, o resultado não pode ser compreendido apenas pela força da máquina pública ou pelos recursos mobilizados durante a campanha. Ele considera necessário examinar as transformações sociais e territoriais ocorridas em Brasília e a perda de vínculos políticos entre os partidos progressistas e os moradores das regiões administrativas.
Segundo o candidato, o crescimento do Distrito Federal nas últimas décadas produziu uma realidade marcada pela concentração de serviços públicos em determinadas áreas e pela ausência do Estado em outras. Ele observou que a maior parte dos aproximadamente 3 milhões de habitantes do DF vive fora do Plano Piloto, em cidades como Ceilândia, Samambaia, Taguatinga, Gama e Planaltina, onde se concentra uma parcela decisiva do eleitorado.
Grass citou Santa Luzia, localizada a cerca de 25 quilômetros do centro do poder político nacional, como exemplo das desigualdades que caracterizam o território. Segundo ele, moradores da região enfrentam problemas de acesso à água, ao esgoto e a serviços públicos. Na avaliação do candidato, a ausência de políticas públicas favoreceu o fortalecimento de grupos que passaram a exercer influência econômica e política sobre essas comunidades.
“Esses lugares, esses territórios onde o Estado não chegou, acabaram sendo muito controlados e muito dominados por milícias, por grileiros e também por agentes políticos que mantêm o povo nesse estado de pobreza e controlam politicamente essas áreas com muito dinheiro”, afirmou.
Grass argumentou que a esquerda precisa compreender como essas relações de poder se consolidaram e reconhecer que a identificação social dos trabalhadores com determinadas propostas políticas não se transforma automaticamente em voto. Para ele, o apoio eleitoral depende de relações construídas ao longo do tempo, da presença dos partidos nas comunidades e da capacidade de apresentar respostas às necessidades da população.
Nesse sentido, defendeu que a reorganização do campo progressista deve ultrapassar os períodos eleitorais. “É preciso recuperar a formação política, é preciso recuperar o trabalho de base, é preciso recuperar a comunicação política, a comunicação nas redes, nas ruas”, afirmou.
O candidato também questionou métodos de mobilização que priorizam atividades entre pessoas já identificadas com os partidos de esquerda, sem alcançar os eleitores que manifestam dúvidas ou resistência às suas propostas. Para Grass, a disputa política exige disposição para ouvir críticas e estabelecer conversas com cidadãos que não compartilham integralmente das posições do PT ou do presidente Lula.
“Não adianta assim, ninguém vai votar na marra e na força. E a gente precisa aprender a fazer campanha. A gente não vai virar voto com bandeira no ombro, não. Nós vamos virar voto conversando com o povo. Nós vamos virar voto fazendo um a um, casa a casa, pessoa a pessoa”, declarou.
Como parte dessa estratégia, a campanha lançou o projeto Casas de Leandro e Lula, que busca transformar residências de apoiadores em pontos de mobilização política. Segundo Grass, quase 700 casas foram cadastradas nos primeiros três dias da iniciativa, que não exige filiação partidária e procura envolver moradores dispostos a conversar com seus vizinhos.
Cada residência recebe materiais de divulgação, uma placa de identificação e orientações sobre como abordar questões políticas, apresentar propostas e responder às dúvidas dos eleitores. A intenção é criar uma rede de mobilização que alcance ruas e comunidades por meio das próprias relações entre seus moradores.
Grass explicou que o trabalho se concentra especialmente nas pessoas que, mesmo tendo divergências com a esquerda, demonstram abertura para o diálogo. “Tem muita gente que dá para conversar mesmo divergindo. Tem muita gente que dá para conversar mesmo tendo ali atritos ou problemas com o PT ou com o Lula ou comigo ou com a esquerda”, afirmou.
Outra preocupação do candidato é a linguagem utilizada pelos representantes do campo progressista. Segundo ele, parte da esquerda ainda encontra dificuldades para traduzir suas propostas em termos próximos da experiência cotidiana da população, recorrendo a explicações técnicas ou acadêmicas que nem sempre conseguem estabelecer comunicação com os eleitores.
Para Grass, recuperar a presença nos territórios significa também modificar a maneira de fazer política, substituindo a expectativa de apoio automático por uma relação permanente com os moradores. Ele considera que essa mudança é necessária tanto para a disputa pelo governo do Distrito Federal quanto para o fortalecimento da esquerda no país.
O candidato concluiu que a virada eleitoral depende menos de manifestações voltadas aos próprios apoiadores e mais da capacidade de alcançar quem ainda não decidiu seu voto. Sua aposta é que a organização comunitária, a comunicação direta e a retomada do trabalho de base possam reconstruir vínculos políticos enfraquecidos ao longo dos últimos anos e ampliar a participação popular nas decisões sobre o futuro do Distrito Federal.
Fonte: Brasil 247