Por Vinicius AbrantesConsultor Jurídico

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“Coração de tempestade”

Carlos Lacerda nasceu no dia 30 de abril de 1914, no Rio de Janeiro.

Maurício, seu pai, protagonizou político de postura ferrenha, deputado federal, orador exaltado, autor de livros, bateu-se, na década de 20, pela urgente necessidade de legislação social e trabalhista.

Sebastião, seu avô, pai de seu pai, elegeu-se deputado federal, atuou no cargo de ministro de Estado; sua derradeira posição: ministro do STF.

Seu nome, Carlos Frederico, síntese da mais seminal dupla da história: Marx e Engels.

O nome também destaca a marca familiar dos filhos do ministro do STF: compromisso com as reformas sociais; que o mundo para todos seja melhor.

“Lacerda: coração de tempestade”, lançado no selo da Companhia das Letras, neste mês de agosto de 2026 (sempre agosto) nos conduz pela mão a revisitar nossa história, no espaço de 1914 a 1955.

O autor, o jornalista Mário Magalhães, merece prodigiosos elogios. Livro único. Prosa rica. Erudição. A difícil tarefa de escrever sobre personagem já biografado.

Comecei sua leitura abusado: sem querer gostar. Guardava vagamente sentimento desfavorável ao biografado. Entretanto fui vencido: não tem como parar de ler, pelo menos aos da minha geração (1964) e as que a antecedem. E a todos aqueles outros apaixonados pela história do Brasil.

Spacca

Maurício, pai de Carlos, destinou-lhe pálida atenção nos anos de formação da infância e da adolescência, mobilizado que estava em suas lidas políticas e em seus namoros, culminados, batido roteiro, em família paralela.

Assim, naquele grupo familiar, a função de pai veio a ser exercida pelo seu avô Sebastião, conexão afetuosa, a quem, décadas depois, reviveu em A Casa do Meu Avô.

O ministro Sebastião Lacerda nasceu em 1864. Eloquente, ganhou fama nas campanhas abolicionistas e republicanas. “Ele me adotou”, disse Carlos. “O carinho do avô contrastava com a ausência do pai.”

A primeira página do primeiro capítulo do livro estampa fato que marcou a família: busca e apreensão na casa do ministro do STF Sebastião Lacerda. Não meus caros, o ato de exceção não foi ordenado por colega dele do STF. Foi ordenado, sim, pelo Executivo, Arthur Bernardes, em retaliação à atuação política de dois filhos do ministro do STF.

“Eles me marcaram com essa brutalidade”, são as palavras do ministro do STF. Essa brutalidade acabou com sua saúde. Acabou com seu gosto pelo Judiciário. Faleceu logo depois, aos 61 anos de idade.

O lar, espaço sagrado, desde os romanos, é cuidado na Constituição, que o protege: “inviolável”.

Mas essa inviolabilidade é ficção, na medida em que casas são violadas, ontem pelo chefe do Executivo, hoje por milhares de juízes (ou seja, aqueles que adquirem novas roupagens, depois de acertarem quesitos em provas de memorização de legislação) espalhados Brasil afora, cujas ordens são abruptamente executadas.

O espetáculo está solto, atropelando famílias, a mídia sedenta, ninguém responderá por sucessivos erros e excessos.

Em outras palavras: lendo-se sobre ontem, constata-se que hoje, ainda que com outra forma, avulta a insegurança jurídica; antes concentrada, hoje difusa.

(E o livro, ao reconstituir aquela época, suas instituições, nada falou sobre o Judiciário, nem de passagem, como se fosse, longe de hoje, instituição que não detinha poder ou não exibia poder). Apenas o Judiciário.

Olga, a mãe de Carlos, filha de gaúcho proprietário de empresa agropecuária, encarnava personalidade determinada, seguiu a vida depois da separação do casal.

Maurício e Carlos, pai e filho, aproximaram-se em adultos, radicalmente próximos.

As notas colegiais de Carlos “não distinguiam nem eram vexatórias”. Por breve espaço viu-se aluno interno, quando sentenciou: “os internatos são mais tristes do que os cemitérios”.

Em 1930, Carlos com 16 anos, veio o golpe, ruptura constitucional, que afastou o presidente eleito, Júlio Prestes, e alojou no poder o candidato derrotado, Getúlio, para um governo “provisório” de 15 anos.

O governo provisório de Getúlio tomou sua primeira medida: excluir seus atos de apreciação judicial.

Excluiu HC em processos políticos, criando, a esses casos, Corte Especial.

Afastou governadores, nomeando interventores.

Proibiu reuniões políticas e sindicais.

“Voto não enche barriga” repetia o ditador.

Ou: “a Constituição é como as virgens: existem para serem violadas”.

E mais: a condição para ingresso nas escolas militares, conforme decreto, era: “não ser de cor”.

Ademais, Getúlio, gaúcho pequeno de estatura, receitara, na Semana da Pátria e da Raça, de 1938, “o preparo cultural e eugênico das novas gerações”.

“O presidente Getúlio Vargas passará à história como defensor da civilização”, bradou elogiosamente o nazista Joseph Goebbels, braço direito de Hitler.

Anos depois, agora em segurança democrática, ano de 1954, o então deputado Aliomar Baleeiro, futuro ministro do STF, discorda do nazista: “Quando nascestes, teu destino estava traçado. Havias de levar mais concidadãos teus ao exílio, a prisão e ao cemitério do que qualquer outro homem em toda a história do Brasil”.

Nessa atmosfera tenebrosa, Carlos entra na Faculdade de Direito. Aproximou-se da esquerda, na tradição de seu pai e dos dois tios, irmãos do pai, ambos filiados ao Partidão, PCB.

Posteriormente, Carlos enxerga claramente o caráter de seita do PCB: “por qual motivo o assassinato de Elza, mulher de Miranda, ordenado por Prestes, em 1936, seria melhor do que os assassinatos perpetrados por Getúlio?” A paranoia de seita do PCB levou ao assassinato da mulher do então Secretário Geral. Depois a história não confirmou a alegada traição dela ao partido comunista.

Segundo Lacerda, o PCB “não tem consistência nem possibilidade de expansão”.

Carlos Lacerda foi firme em sua oposição a Getúlio. E foi igualmente firme em sua reprovação ao PCB e a Prestes. Acertou e acertou.

“Tremenda decepção” sintetizou o historiador (filiado ao PCB) Caio Prado Júnior, quando Prestes perdoou Getúlio por ter despachado sua mulher Olga, grávida, ao inferno, às fumaças dos fornos nazistas.

Carlos Lacerda, por sua vez, assim expressou-se: “ele (Prestes) não tem o poder de perdoar a morte de outra pessoa”.

Dois tios de Carlos (irmãos do pai Maurício) foram próceres do PCB, um deles chegou ao cargo supremo de secretário geral do PCB, quanta honra meu Deus… Carlos escreveu peça de teatro colocando em palco a sofrida vida de seu tio Paulo, militante em tempo integral do PCB. “Ah, meu dia, meu dia durou cem anos e nunca teve sol”.

No início de 1938, aos 23 anos, Carlos conheceu Letícia. Viu em Letícia sua mulher. “Eu te amo, eu te amo, eu te amo”, era sua fala a ela.

Bonito, inteligente e frequentador das rodas de elite, Carlos casou com mulher desprovida de patrimônio material.

Tiveram três filhos, Sérgio, Sebastião e Maria Cristina. Carlos foi pai presente. O casamento foi para sempre.

Mago das palavras

Carlos herdou o verbo fácil do pai. “Como se pudesse haver uma dinastia do verbo.”

A estrada da advocacia não era seu destino. Sequer formou-se em Direito, antes deixando a faculdade.

Cumpriu-se jornalista. Em 1949, funda seu próprio jornal, o legendário Tribuna da Imprensa, atravessando alegrias infinitas de ver o jornal impresso e o contraponto de seguidas crises financeiras.

Anos depois funda a editora Nova Fronteira, de tantas e valiosas contribuições.

Leitor voraz. Lançou-se à tradução de livros do francês e do inglês. Digam-me vocês: como, em tão atribulada vida, em tão atribulado cotidiano, encontrava tempo à leitura e à tradução?

Jornalista, varou o mundo. Cobriu in loco a eleição americana de 1950.

Viajou algumas vezes a Europa, sobretudo a Lisboa.

Esteve na fundação do Estado de Israel, quando vaticinou: “a partilha da Palestina pode significar a guerra”.

Carlos Lacerda deslocou-se ao interior do Ceará. Nosso sertão. Alcançou a comarca de Pentecostes. Não esperava ver a fome. Não esperava ver tantas necessidades a descoberto. O carioca vivente da década de 50, jornalista influente, ignorava até então essa face do Brasil.

A ninguém ocorria políticas públicas compensatórias: a fome era ignorada ou naturalizada. O exemplo maior de política pública nos chega com o Programa Bolsa Família, no século seguinte, exigência, em escala, do presidente que um dia passou fome.

“Quem conhece a verdade? Os que sofrem”, inesquecível resposta do personagem de O Romance da Nova Lusitânia, do escritor Hélio Barros.

Carlos Lacerda foi preso sete vezes, prisões de poucas horas ou poucos dias. Várias vezes foi vítima de agressões físicas. Hoje as agressões são verbais.

Culminou com o conhecido episódio da morte do major da Aeronáutica Rubens Vaz.

Getúlio, depois de tanto tempo como ditador, não conseguia conviver em ambiente democrático de liberdade de expressão.

Sua resposta, sua dialética, materializava na prisão ou na morte de seus críticos.

A morte de Carlos Lacerda foi encomendada a seus capangas, que, chinfrins, atrapalhados, não o mataram; mataram o major, que naquela noite acompanhava Carlos Lacerda e seu filho Sérgio. Era agosto de 1954.

Onda imensa avançou sobre o Palácio do Catete, inclusive das forças militares, que tomaram para si a investigação do crime. Getúlio, acossado, poucos dias depois, 24 de agosto, matou-se. Não era essa a sua dialética, matar?

Depois de idas e vindas o Brasil entrou em normalidade.

JK venceu as eleições presidenciais. Como aceitar aquele mineiro de sorriso largo, elegantíssimo, bossa-nova, ser presidente? Como ele mesmo entender que JK voava mais alto, em voo de brigadeiro? Carlos Lacerda abismou-se em erro crasso: posicionou-se, em seu estilo agressivo, contra a posse de JK. Foi golpista. Indesculpável negação em face do que antes viveu e defendeu.

Carlos Lacerda viveu nos gloriosos e saudosos anos 50 do Rio de Janeiro. Tinha os melhores e mais ilustres amigos, figuras conhecidas do mundo literário, artístico, jurídico, político.

Na tradição familiar do pai, dos tios e do avô, sua situação financeira e econômica não passava de classe média.

Foi o vereador mais votado do Rio. Foi eleito governador da Guanabara em 1960, quando solucionou o crônico e vexatório problema da falta de água da cidade maravilhosa. Não foi o seu único gol na administração pública, mas foi seu golaço. Entretanto, esse capítulo ficará para o volume 2. Assim como também a posição de Lacerda quanto ao golpe de 1964.

Talentoso, bravo, impetuoso, intempestivo, agressivo, mago das palavras, verbo solto, Carlos Lacerda viveu como bem queria. Era trovão-relâmpago, porque iluminava e assustava; mas não era raio, porque não matava.

O livro não nos devolve a atmosfera bossa-nova do Rio dos anos 50, as músicas, a praia, o Sol, o colorido, as mulheres, a cidade maravilhosa.

A entusiasmada atmosfera do pós-guerra, quando a energia da humanidade havia migrado da morte à vida. Talvez a tensão e a urgência do renomado personagem retratado, não corresponda a esse espírito: ele travava suas batalhas, essa outra vida desfilava ao lado.

Para finalizar, a pergunta, provocativa, mas que surge quando se fala do biografado, quase sempre lhe situando à direita. Então, Carlos Lacerda migrou da esquerda para a direita? Não sei ao certo essa resposta, seu contexto, sua gradação, e a questão de “direita” e “esquerda” naquela quadra, naquele momento internacional.

É essa a pergunta o que mais importa sobre Lacerda? Mais do que os fatos concretos que constituem sua vida?

Chegamos ao ponto: é para salvar de estereótipos que existe a biografia, que existe esse tão bem escrito livro.

Em outras palavras: sair do superficial, tentar o complexo, tentar ver o outro respeitosamente, o que significa: no conjunto de suas circunstâncias.

Lacerda, ao lado de Rui Barbosa e Brizola, compõe o trio dos presidentes que quase tivemos. Na perspectiva estritamente pessoal, os três jorravam vitalidade. Participaram ativamente do debate público. Expuseram-se. Contribuíram. Acertaram. Erraram. Em qual medida, qual a vertente resultante? O que ressalto é: não estavam confinados a seus pequenos mundos, circunscritos a seus interesses pessoais. Não acumularam patrimônio material, não eram essas suas bússolas. Suas vidas foram escrutinadas. Ou, ao modo americano, eram “larger than life”.

A presidência do Brasil estava escrita a ferro e fogo nos planos dos três. Entretanto: quer ver os deuses dando gargalhadas? Faça muitos planos…

Não chegaram à Presidência. Não há nunca garantias do que conseguiremos alcançar. Essa é a beleza da luta. O que conseguimos, provavelmente, caso se jogue como eles se jogaram, é encontrar seus limites, ou seja, seu potencial, dentro daquelas circunstâncias. É o encontro com você mesmo, até onde isso seja possível.

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Fonte: Consultor Jurídico

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