Juventudes do campo e da cidade disputam o direito de narrar o próprio território
Por Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) — Brasil de Fato
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Costuma-se repetir, em tom de queixa fácil nas esquinas, ônibus, metrô, e no senso comum, que a juventude contemporânea “não quer mais nada com nada”, anestesiada pelo brilho das telas e pelo fluxo individualizante das redes sociais. No entanto, quando se olha para os territórios populares, do semiárido sertanejo às quebradas do Nordeste, a realidade mostra outros cenários. Em vez de mera passividade, as telas, câmeras e microfones nas mãos de jovens periféricos e camponeses transformam-se em ferramentas de insurgência política, preservação de memórias e autodefesa comunitária.
Neste 17 de outubro, Dia Nacional da Democratização da Comunicação, esse protagonismo juvenil ganha centralidade. A data marca uma exigência histórica que continua inconclusa: a efetivação da Constituição Federal de 1988. Em seu Capítulo V (artigos 220 a 224), a Carta Cidadã determina expressamente que a comunicação social não pode ser objeto de monopólio ou oligopólio, consagrando o direito à informação, à pluralidade cultural e à coexistência equilibrada entre os sistemas público, privado e estatal.
Quase quatro décadas depois, contudo, o “latifúndio do ar” permanece intocado. Concessões públicas de rádio e TV seguem operando como feudos familiares de clãs políticos tradicionais, enquanto conglomerados privados lucram com a estigmatização da pobreza. Mais recentemente, essa concentração histórica ganhou o reforço transnacional das chamadas Big Techs, que impõem filtros algorítmicos e ditam o que pode ou não circular.
É na contramão desse duplo bloqueio, concentração das antenas e as algemas digitais do Vale do Silício, que coletivos de juventude se erguem como trincheiras vivas de resistência. Em Canudos, na Bahia, e nas periferias urbanas de Pernambuco, jovens articulam saberes ancestrais, audiovisual de guerrilha e comunicação comunitária para afirmar que comunicar não é privilégio de empresas, e sim um direito humano inegociável e condição indispensável para a democracia.
No sertão da Bahia, a luta pela comunicação carrega a densidade histórica de um solo que conheceu de perto a violência do monopólio da palavra. Desde o final do século XIX, quando a imprensa hegemônica retratou os sertanejos de Antônio Conselheiro como “bárbaros e fanáticos” para legitimar o massacre militar da Guerra de Canudos, a narrativa sobre o semiárido foi construída de fora para dentro. Ao longo das décadas, os grandes meios mantiveram essa toada, associando o sertanejo quase exclusivamente à miséria, à caridade punitiva e ao atraso.
É para romper com essa engrenagem secular que os jovens Igo Santos e Willian Levi fundaram o Coletivo Raízes Culturalizadas Nordestina, em Canudos. Com o uso de celulares, fotografia e produção audiovisual compartilhada nas redes, a juventude do território assume o papel de guardiã e narradora da própria história.
“Buscamos valorizar a memória de Canudos por meio das histórias dos moradores, das tradições populares e dos conhecimentos sobre a convivência com o semiárido. Nosso objetivo é fortalecer a identidade do território e garantir que o próprio povo conte sua história”, explica Willian Levi.
Longe da visão conformista e resignada que os manuais corporativos insistem em vender sobre o interior, o coletivo utiliza a comunicação popular para visibilizar a riqueza da Caatinga, a agroecologia e as práticas comunitárias que garantem a vida no semiárido. “Mostramos que o sertão também é riqueza cultural, resistência, conhecimento e criatividade. Desconstruimos preconceitos mostrando a verdadeira potência do nosso território”, reforça Levi.
Essa resistência caminha sobre obstáculos concretos que escancaram a dívida pública de conectividade e apoio à cultura: a escassez de equipamentos adequados, a precariedade do sinal de internet no interior e a falta de editais públicos perenes. Para resistir, a parceria comunitária com entidades como a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) tem sido crucial para a sustentabilidade das ações.
Para a juventude de Canudos, democratizar a comunicação é um acerto de contas com a história: “Significa garantir que o povo sertanejo tenha voz e espaço para contar suas próprias histórias. É valorizar nossa cultura, combater estereótipos e mostrar ao mundo a realidade, a identidade e a resistência do povo de Canudos”, sintetiza o comunicador.
Se no sertão a comunicação popular contesta a caricatura da escassez, na região metropolitana do Recife ela opera como fronteira direta de defesa da vida frente à brutalidade do Estado. Nascida em 2019 a partir da inquietação da comunicadora Iane Mendes, a Rede Tumulto, coordenada hoje também por Flora Rodrigues, Nanda Paixão e Gilmara Santana, surgiu da recusa terminante em ver a favela ser retratada apenas em terceira pessoa.
“A Rede Tumulto nasce dessa inquietação de a gente sempre ser narrada em terceira pessoa e nunca ter a autonomia de, enquanto comunicadores favelados, narrar as histórias dos nossos territórios, que guardam a nossa memória e nos transformam a partir de narrativas positivas. A grande mídia quase sempre coloca os nossos lugares de forma hostil e vulnerabilizada”, pontua Flora Rodrigues.
Com foco na educação midiática voltada a juventudes e mulheres negras, a Rede Tumulto compreende a chamada “justiça informacional” como pilar para refundar o pacto democrático. Para o coletivo, isso exige atuar em duas frentes simultâneas: o combate nas redes digitais e a ocupação das ruas físicas por meio de lambe-lambes e “anúnciocletas” (bicicletas de som), furando os desertos de sinal e combatendo a desinformação onde a internet não chega.
Na frente audiovisual, a câmera na mão dos jovens periféricos atua como divisor ético:
“O audiovisual é nosso maior aliado para produzir uma memória viva do território, garantindo narrativas positivas. E isso atua diretamente nos direitos humanos, porque direitos humanos é dar humanidade às pessoas. Para nós, pessoas negras e periféricas, muitas vezes somos distanciadas desse lugar. O audiovisual gera humanidade sobre nossos corpos. Quando a gente mostra que no território tem criança, sonho, mulheres idosas que contam histórias como ninguém, estamos dizendo à mídia hegemônica e aos aparatos policiais que aqui não tem só morte, guerra às drogas e violência. Aqui se produz ciência, tecnologia e vida”, enfatiza Flora.
A comunicadora faz críticas à subserviência cega às redes proprietárias, denunciando o controle e a censura exercidos pelas grandes empresas de tecnologia sobre os conteúdos que denunciam o racismo e a violência de Estado: “As Big Techs não são ingênuas nem neutras: elas têm lado. Elas têm lado quando censuram determinados conteúdos nossos, quando diminuem nosso alcance político. Por isso defendemos a regulamentação das redes sociais, para que a internet não seja terra sem lei dominada por bilionários que controlam dados e silenciam denúncias”, ressalta
Para Flora, a democratização da comunicação precisa estar atrelada a mudanças estruturais mais profundas no país, que passem pela reparação histórica e pela centralidade das mulheres negras nos espaços de decisão: “Como diz a filósofa Rosane Borges, nós, mulheres negras do Nordeste, somos a borda do mundo. E quem está na borda enxerga o centro como ninguém. É a partir da comunicação que anunciamos que o lugar de silenciamento e subalternidade não nos cabe mais”, comenta.
Na comunidade do Tururu, situada no município de Paulista, na Região Metropolitana do Recife, essa trincheira de resistência juvenil não é recente, são 18 anos de história. Em 2008, inconformados com os telejornais que só pisavam no bairro para noticiar homicídios e prisões sob a cartilha do sensacionalismo policialesco, três jovens decidiram criar o Coletivo Força Tururu.
A resposta à estigmatização veio pela linguagem do afeto e da investigação comunitária. Logo no início, o grupo lançou o documentário “Tururu: Justiça, Paz e Vida” (2012), seguido por produções como “Um campo e Suas Vidas” (2024) e uma trilogia audiovisual concluída em 2025, além de composições musicais, ensaios fotográficos e um projeto contínuo de formação que já diplomou mais de 100 comunicadores populares em 12 periferias metropolitanas.
Leandra Arruda, integrante do coletivo, sintetiza o método da comunicação popular: “Acreditamos que ecoar vozes é a principal estratégia para quebrar o estigma que a mídia tenta colar na gente. A comunicação popular parte da ideia de que é preciso ouvir e vivenciar o território, não para dizer pelas pessoas, mas para fazer com que elas mesmas digam o que é importante para si. Com esse trabalho ao longo de quase duas décadas, as menções negativas quando se busca o nome da comunidade quase desapareceram. Não significa que não haja violência, mas que as ações de vida no cotidiano comunitário são infinitamente maiores do que as de morte”, afirma.
Manter essa chama acesa, contudo, exige sacrifícios diários que ilustram a precariedade imposta à comunicação comunitária no Brasil. Apenas recentemente o coletivo conseguiu formalizar-se como Organização da Sociedade Civil (OSC). “Costumamos dizer que com R$ 10 fazemos R$ 100, porque multiplicamos com dedicação qualquer valor que chega. Mas a falta de recursos é um entrave permanente. Dos oito integrantes, apenas uma tem dedicação exclusiva; os demais trabalham fora e dedicam suas noites e fins de semana ao coletivo”, relata Leandra.
Para o Força Tururu, tratar o direito à comunicação com o mesmo peso do direito à saúde, moradia ou saneamento é enxergar quem realmente manda nos destinos da cidade. Ao analisar o avanço desenfreado de empreendimentos privados em Paulista, Leandra demonstra a função fiscalizatória da comunicação popular: “A comunicação no país historicamente esteve nas mãos de grandes oligopólios com poder de manobra e conchavos, e hoje as Big Techs mantêm essa manipulação com algoritmos. Quando a comunicação for democratizada de fato, o povo perceberá que os resorts, condomínios fechados e atacarejos que sufocam a nossa cidade derrubam matas, poluem rios e privatizam o lazer das comunidades pesqueiras. Enquanto os poderosos mandarem na informação, a verdade nunca chegará a quem é prejudicado. Democratizar a comunicação é ajudar o povo a encontrar caminhos para a coletividade, o meio ambiente e a vida das pessoas mais pobres”, conclui.
As trajetórias do Coletivo Raízes Culturalizada Nordestina, da Rede Tumulto e do Coletivo Força Tururu convergem em um ponto fundamental: longe de qualquer passividade diante das telas, a juventude trabalhadora faz da tecnologia um instrumento de organização, disputando o imaginário de seus territórios e afirmando o bem viver.
No entanto, o voluntarismo e a coragem dessas juventudes não tiram a responsabilidade de o Estado cumprir seu papel. As demandas trazidas por essas vozes coincidem rigorosamente com as teses históricas defendidas pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC):
-Fim dos oligopólios midiáticos: Regulamentação urgente dos artigos 220 a 223 da Constituição de 1988, garantindo a desconcentração das concessões de rádio e TV e o fim da influência de clãs políticos sobre a radiodifusão;
-Regulação das Big Techs: Estabelecimento de um marco regulatório soberano que obrigue as plataformas a terem transparência em seus algoritmos, coíba o racismo algorítmico e impeça a censura arbitrária de coletivos populares;
-Fomento público permanente: Criação de fundos públicos estaduais e federais com recursos descentralizados para apoiar, financiar e equipar coletivos comunitários, livrando comunicadores da asfixia financeira;
-Conectividade como bem público: Universalização da internet de qualidade e infraestrutura aberta em comunidades rurais, quilombolas e periferias urbanas.
No dia Nacional da Democratização da Comunicação, a lição que vem de Canudos, do Tururu e das favelas recifenses é de que a comunicação só é democrática quando pertence a quem nela vive. Enquanto a palavra for tratada como mercadoria, a liberdade será privilégio de poucos, quando ela se transforma em semente popular nas mãos da juventude, a democracia enfim começa a florescer nos territórios.
*Este conteúdo foi produzido em parceria com a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE).
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Fonte: Brasil de Fato