Juros altos vieram para ficar? Gestor da XP diz que investidor terá de reaprender a investir em um novo mundo
Por Monique Lima — Seu Dinheiro
Os investidores precisam se preparar para um cenário duradouro em que o dinheiro se torna um recurso escasso e caro para o investimento de risco. Isso porque os juros estruturalmente mais altos no mundo inteiro são a nova realidade.
Para Bruno Marques, gestor de multimercados da XP Asset, essa mudança vai muito além das decisões do Banco Central.
Em entrevista ao podcast Touros e Ursos, ele afirmou que vê como uma transformação mais global: governos endividados, empresas investindo volumes recordes de recursos em inteligência artificial e uma disputa crescente pelo dinheiro disponível dos investidores.
A consequência é significativa para a renda variável e para a economia real, segundo o gestor. Ações, fundos imobiliários e praticamente qualquer outro ativo de risco passam a competir com uma renda fixa que oferece retornos elevados sem exigir grandes riscos.
Marques cita o nível atual de rendimento dos títulos soberanos dos EUA. Atualmente, um Treasury de 30 anos está pagando 5,5% de juros. Trata-se de um patamar histórico e muito competitivo para um título público atrelado ao dólar.
A nova realidade dos juros
Na avaliação do gestor, muitos investidores olham para os juros elevados como um fenômeno temporário, esperando o momento de queda para investir. O problema é que as forças que empurram as taxas para cima parecem ser mais duradouras.
De um lado, governos de diversos países estão emitindo mais dívida para financiar déficits públicos. Do outro, grandes empresas de tecnologia passaram de provedoras de capital para a economia para grandes consumidoras de recursos, impulsionadas pelos investimentos em inteligência artificial e infraestrutura tecnológica.
O resultado é um ambiente diferente daquele observado durante boa parte dos anos 2010, quando as taxas permaneceram próximas de zero em várias economias desenvolvidas. Agora, investidores encontram remunerações relevantes mesmo em ativos considerados conservadores.
“O juro de 30 anos dos Treasurys hoje em dia é quase 6% em dólar. É muito retorno para um risco muito baixo. Uma coisa que se viu poucas vezes nos últimos 40 anos”, disse.
Esse cenário torna a competição de ativos no mercado mais difícil, segundo o gestor. Não basta um ativo parecer barato ou promissor. Ele precisa entregar um retorno suficientemente alto para justificar o risco adicional em relação à renda fixa.
Ações, fundos imobiliários e outros ativos de risco terão de provar seu valor para conseguir atrair o dinheiro dos investidores.
“Você está brigando com um juro de 6% lá fora e um juro de 13% aqui dentro.”
A carteira mais seletiva
Essa mudança exige mais seletividade dos investidores.
Citando o Brasil como exemplo, considerando o ciclo atual de queda dos juros, o gestor da XP Asset argumenta que nem todas as empresas acompanham da mesma forma uma eventual recuperação da economia.
Alguns setores sofreram muito com os juros altos — e a flexibilização atual ainda não é tão significativa.
Por isso, ele defende que o investidor evite decisões baseadas apenas em narrativas momentâneas e destaca o papel da gestão profissional nesse ambiente mais complexo.
“Escolher ações vai ter um resultado muito melhor do que comprar um índice”, afirmou, em referência aos fundos de índice (ETF) que replicam uma carteira inteira.
O principal motivo é a volatilidade, que o gestor acredita que continuará elevada.
Os grandes fundos globais têm movimentado volumes gigantescos de recursos, o que torna os movimentos de mercado mais rápidos e bruscos. E isso também se aplica ao Brasil, um dos destinos dos recursos internacionais de grandes gestoras.
Touros e Ursos da semana
No encerramento do episódio, o tradicional quadro Touros e Ursos trouxe os destaques da semana.
No lado dos Ursos (destaques negativos) Marques escolheu o aumento da polarização política e a dificuldade crescente de diálogo entre os diferentes campos ideológicos. Segundo ele, transformar adversários políticos em inimigos enfraquece o debate público e amplia as divisões do país.
Ainda refletindo o resultado eleitoral, outro urso foi o resultado do pleito ao governo do Rio de Janeiro. Eduardo Paes (Republicanos) perdeu no primeiro turno após a retotalização dos votos válidos com a saída do candidato Anthony Garotinho, eliminando o segundo turno que seria contra o candidato Douglas Ruas (PL), agora eleito governador.
Entre os Touros (destaques positivos), Marques destacou a possível mudança de ares na economia brasileira se a troca de governo se concretizar. O gestor acredita que o Brasil pode entrar em um período mais favorável para reformas econômicas e discussões estruturais importantes.
Por fim, o rali dos títulos públicos diante dessa perspectiva citada pelo gestor também entrou como touro. Os papéis tiveram forte valorização (de 10% a 12% nos preços) após o primeiro turno, com o alívio na curva de juros diante da projeção de taxas menores no futuro.
Confira o episódio completo do Touros e Ursos
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Fonte: Seu Dinheiro