José Genoino: “O Data Povo aponta para a virada de Lula”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – O ex-presidente nacional do PT José Genoino afirmou que a mobilização popular nas ruas indica a possibilidade de uma virada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na disputa presidencial contra Flávio Bolsonaro (PL). Em entrevista ao Bom Dia 247, Genoino destacou o crescimento da participação espontânea de militantes, a intensificação das atividades de campanha nos bairros e a disposição de eleitores para conversar sobre política. Para ele, esse movimento, que chama de “Data Povo”, revela uma dinâmica eleitoral que não pode ser compreendida apenas pelos resultados das pesquisas de intenção de voto.
“Eu estou acompanhando a campanha na rua. Eu tenho meu Data Rua e Data Povo. E a minha sensibilidade é que há um crescimento da campanha do Lula, há uma ocupação das ruas, há uma ocupação dos lugares, há uma militância espontânea que veio para a rua. Eu acho que esse clima vai aumentar”, afirmou.
A avaliação de Genoino ocorre em um momento de aproximação dos candidatos nas pesquisas eleitorais. Durante a entrevista, foi mencionado um levantamento do Poder Data que apontava empate de 50% a 50% entre Lula e Flávio Bolsonaro. Na interpretação do dirigente petista, a redução da diferença entre os candidatos, combinada com a presença crescente de apoiadores nas ruas, cria condições para uma disputa voto a voto na reta final da campanha.
O ex-presidente do PT considera que o principal indicador desse movimento não está apenas na quantidade de pessoas reunidas em manifestações, mas na maneira como os participantes se organizam depois dos atos. Segundo ele, a mobilização deixou de depender exclusivamente de atividades convocadas pelas direções partidárias e passou a alcançar comunidades, locais de trabalho e espaços de convivência.
Como exemplo, mencionou uma manifestação realizada na região da Avenida Vital Brasil com a Avenida Corifeu de Azevedo Marques, em São Paulo. De acordo com Genoino, depois da concentração, os participantes se dispersaram para continuar o trabalho de convencimento em diferentes regiões da cidade.
“O pessoal faz manifestação […] e se dispersa e vai penetrando nas comunidades, nos bairros, fazendo corpo a corpo. O importante é virar voto e há um clima de virar voto”, explicou.
Para Genoino, essa forma de organização demonstra que a campanha de Lula passou a contar com uma participação que ultrapassa as estruturas partidárias. A presença de pessoas dispostas a abordar vizinhos, familiares e colegas de trabalho representa, em sua avaliação, uma oportunidade de alcançar eleitores que ainda não decidiram o voto ou que manifestam resistência aos dois candidatos.
Ele também destacou a importância das mobilizações programadas para os últimos dias da disputa, entre elas atividades com a participação de Lula no ABC paulista e uma manifestação prevista para o centro de São Paulo. Na avaliação do petista, esses encontros ajudam a ampliar a presença da campanha no espaço público, mas precisam estar associados ao trabalho cotidiano de convencimento.
“Eu acho que nós vamos fazer uma disputa voto a voto. Nós não podemos vacilar um minuto. Temos que trabalhar coletivamente nas redes e nas ruas, ruas e redes. Eu estou otimista militando na campanha”, declarou.
O dirigente ressaltou que o contato direto com os eleitores permite identificar mudanças de posição que nem sempre aparecem imediatamente nos levantamentos eleitorais. Segundo ele, há pessoas que já decidiram mudar o voto, enquanto outras demonstram disposição para ouvir argumentos, embora ainda resistam à candidatura petista.
“A gente anda na rua, eu faço o meu DataRua todo dia e, ao fazer o DataRua, você encontra pessoas que viram voto, que já viraram o voto, mas há pessoas que param, querem conversar, resistem”, relatou.
Essa percepção sustenta a avaliação de que existe um espaço de disputa entre eleitores indecisos, pessoas que consideram se abster e segmentos que não se identificam integralmente com nenhuma das candidaturas. Para Genoino, a campanha precisa reconhecer as diferenças entre esses grupos e investir na conversa direta, em vez de limitar sua atuação à divulgação de mensagens políticas.
O ex-presidente do PT afirmou que a entrevista concedida por Lula à TV Globo também pode contribuir para esse processo. Na avaliação dele, o presidente conseguiu dialogar com parte do eleitorado que ainda está refletindo sobre sua escolha, especialmente ao reconhecer problemas de seu governo e assumir responsabilidades.
“Eu acho que não perde, não perde voto. Pode conquistar alguns votos indecisos e que se abstêm, dada a radicalização de certos temas no processo da disputa política”, avaliou.
Genoino considera, entretanto, que a capacidade de conquistar esses eleitores depende também de uma apresentação mais clara do projeto de país defendido por Lula. Para ele, a campanha deve combinar a defesa das realizações do governo com propostas que permitam à população identificar mudanças concretas para os próximos anos.
“Eu sugiro que, nas próximas entrevistas, o presidente Lula enfatize principalmente o futuro, porque o legado dele as pessoas conhecem, a experiência do Lula 4 também as pessoas conhecem”, afirmou.
Na interpretação do dirigente, a mobilização eleitoral também revela uma transformação na relação entre a esquerda e sua base social. Ele observa que parte das atividades de campanha surgiu de iniciativas organizadas horizontalmente, com participação de militantes e apoiadores que não dependem de decisões das direções partidárias.
“Esse movimento grande que está acontecendo agora foi um movimento horizontal, foi um tanto quanto espontâneo e horizontal. Isso dá lição de como a esquerda deve se relacionar com o povo e com a sociedade e com os setores organizados”, disse.
Para Genoino, essa experiência não deve se encerrar com a eleição. Caso Lula seja reeleito, ele defende que a participação popular se transforme em um elemento permanente da relação entre o governo e a sociedade. O petista considera que o envolvimento dos movimentos sociais, sindicatos e organizações populares será necessário para sustentar a agenda do próximo mandato diante da composição do Congresso Nacional.
Na reta final da disputa, contudo, sua prioridade é transformar a mobilização em votos. Genoino afirmou que, diante do equilíbrio apontado pelas pesquisas, pequenas mudanças nas preferências eleitorais podem determinar o resultado.
“Como a diferença é pequena e está empatado 50 a 50, conforme a última pesquisa do PoderData, cada voto vale dois, porque você tira de lá e vale aqui, ou acrescenta aqui e diminui lá”, explicou, ao se referir à importância da transferência de votos de um candidato para outro.
Por isso, insiste na necessidade de intensificar as conversas nos espaços em que os eleitores mantêm relações cotidianas. “É o corpo a corpo micro, é o corpo a corpo na família, no vizinho, no trabalho, no bairro, na moradia. Nós não podemos vacilar, combinando isso com as demonstrações de mobilização grande.”
Ao projetar os últimos dias de campanha, Genoino afirmou que a presença popular nas ruas de São Paulo reforça sua expectativa de vitória. Para ele, o crescimento da militância espontânea, a aproximação dos candidatos nas pesquisas e a disposição de parte do eleitorado para reconsiderar sua escolha compõem um cenário favorável à candidatura de Lula.
“Cada hora vale um dia, cada dia vale uma semana e cada semana vale um mês”, resumiu, ao defender que a campanha aproveite o tempo restante para ampliar o diálogo com a população.
Fonte: Brasil 247