Jorge Messias traiu Lula pelo STF?
Por Marconi Moura de Lima — Brasil 247
A resposta direta é: não! No entanto, numa problematização da conjuntura, vale pensar na sua postura diante dos arroubos do ministro do STF, André Mendonça que afetam diretamente o Governo Federal para o qual Messias, como Chefe da AGU, deveria defender. Mais que isto: todo o esforço de Lula em segurar o mal remendado pilar da democracia, sofre abalo objetivo pelas evidentes tentativas de Mendonça em eleger – no tapetão – o suco estragado do fascismo: o filho de outro Messias (o piorado), Flavio Bolsonaro.
Caso concreto. O magistrado da Suprema Corte em questão determinou no último dia 8 de setembro o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Alegações pífias de um suposto relatório provido pela inteligência da PF contendo Mendonça como um alvo potencial da pseudo arapongagem.
Arbitrária de todas as formas de leitura, a decisão de Mendonça de afastar do cargo o chefe maior da PF, este ato se encontra com a omissão de Jorge Messias dos dois lados possíveis da moeda. No primeiro deles, fala-se uma imensa irmandade de Messias com Mendonça ao passo que o primeiro poderia ter intercedido ao segundo para prevenir a banalidade judicante. No segundo evento, a letargia do agir nos autos, ou de agir com “preguiça” conceitual-estrutural no interior das regras de sua competência republicana.
Ademais, são inúmeras as aberrações providas de dentro do gabinete do magistrado terrivelmente evangélico e de mesmo credo do Messias para as quais, o ministro da AGU poderia atuar, talvez menos no jogo litúrgico do cargo, todavia, na compreensão da sucumbência civilizatória (avaliar o espírito do tempo de coisas inconstitucionais e golpes continuados).
Isto é, ao observar Mendonça ferir de morte a Constituição Federal para sambar o inferno de Dante no jogo eleitoral, impulsionando a vitória de seu candidato, o Bolsonaro filho, e sabendo que a tragédia para a sociedade não é uma mera especulação de adversários (coito discursivo), todavia, esgotada nas evidências, tais como a proposital ação do Bolsonaro pai, na Presidência do Brasil, ao operar a política para a morte de mais de 700 mil pessoas na COVID-19, ou para o genocídio do povo Ianomâmi, ou mesmo para o retorno da miséria no País (com 33 milhões de pessoas passando fome), Messias deveria ter coragem de ir a público e disputar a contra-narrativa da abordagem civilizatória. Trata-se de um imperativo ético, mas também constitucional.
Caso concreto 2. O filho do Presidente Lula, o Fábio Luís foi implicado de forma sorrateira e ilegal na trama eleitoral do ministro Mendonça. Quebra de sigilo arbitrário, vazamentos seletivos para que a indústria das fake news da extrema direita pudessem ter discurso de que o Lulinha era um criminoso atuando do “berço”, no quarto ao lado do pai, ali no Palácio do Planalto. Fábio Luís, sozinho, travou o bom combate para provar que não tem nada a ver com os roubos do INSS e que não tentou usar da influência do pai para angariar contratos no Ministério da Saúde. (Entretanto, a sanha do ministro Mendonça ainda está acesa. Lulinha ainda passará uma barra para tenta cimentar esta trama vinda dos infernos que – também – moram no STF.)
É verdade que Messias não poderia defender – pela AGU – o filho do Presidente da República. Não está na lei. Todavia, deveria ajudar o seu chefe. Construir com firmeza um discurso em defesa da lisura das instituições e seriedade/legitimidade dos atos de seus agentes. Defender a democracia e a justiça acima de tudo. Contudo, Messias prefere o “em cima do muro”. Não o espaço da contemplação, da mediação. Todavia, a subserviência do silêncio cômodo para garantir “simpatia” dos moucos da Corte (entre eles, o Mendonça) a fim de garantir a imagem de sua isenção, carimbo chancelador de um digno e ilibado “futuro” ministro do STF, caso seja novamente indicado por Lula.
Esquece-se o Messias que, em tempos de tragédias, de crise, de comoção ou de guerra, não é a covardia o lugar da solução dos problemas; é assumir um lado. Preferencialmente, o lado justo. Foi assim com Luiz Gama, quando peitou o sistema de Justiça para libertar mais de 500 negros escravizados no tempo da vergonha (com 300 anos de escravidão neste País). E foi assim com Sobral Pinto, homem conservador e anticomunista, que enfrentou seus mais próximos para divergir da violação de direitos de presos políticos na Ditadura Militar. Entre os quais, defendeu Luiz Carlos Prestes, o maior símbolo da esquerda revolucionária daquele tempo histórico. Nenhum dos dois chegou a ministro da Suprema Corte. No entanto, seus nomes estão registrados na história como sujeitos épicos por seus feitos em cada tempo. (Nota: é verdade que Gama faleceu 9 anos antes de ser criado o STF. Mas vale a metáfora.)
Portanto, Messias, a menos que você já tenha sido escolhido por Cristo para liderar sua “Igreja”, como aconteceu com Pedro, o apóstolo, negar o “Senhor”[1] por três vezes antes que o galo cante pode representar mais que sua crucificação em santo martírio. Pode significar sua ruína como sujeito da história e sua sucumbência moral numa sociedade já tão combalida…
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[1] Favor ler “Senhor” como metáfora para “Estado de Direito”; “Democracia”; “Direitos Humanos”; “Justiça”, premissas fundamentais do Estado que têm sido tratadas como meros fatores de ocasião para a conveniência dos “bailes de gala” nos salões da nobreza de Brasília.
Fonte: Brasil 247