Jogo do remedinho: testes clínicos ou bets?
Por Theo Ruprecht — Revista Pesquisa Fapesp
Quer apostar que a cura do diabetes tipo 1 estará disponível antes de 2033 (ou que isso não acontecerá, para a tristeza das mais de 9 milhões de pessoas com a doença mundo afora)? Se desejar — e, a bem da verdade, se não estiver no Brasil —, você pode fazer essa aposta. Apesar do nome pomposo, o “mercado de predição” basicamente permite que qualquer um invista seu dinheiro na possibilidade de um evento futuro acontecer, desde a vitória de um político nas eleições até a quantidade de plays que um músico acumulará em um ano. E, recentemente, plataformas digitais desse segmento, como Polymarket e Kalshi, anunciaram a possibilidade de apostar em pesquisas clínicas e aprovações de medicamentos.
Além da tal cura do diabetes tipo 1, em outubro a aba de “Medicina” da Kalshi, permitia apostar quando a retatrutida, um medicamento contra obesidade, seria aprovada pela FDA, a agência que regula fármacos e alimentos nos EUA. Ou se um tratamento para o angioedema hereditário, uma doença rara, chegaria antes ou depois de julho de 2027. Ou em qual momento alguma empresa submeteria os estudos clínicos de uma terapia inovadora contra a doença falciforme.
Antes de entrar nas repercussões científicas, confesso que sinto um certo desconforto ao acessar um site com cara de monitor de bolsa de valores e ver que muitos contratos negociados ali envolvem, em última instância, a vida de pessoas fragilizadas por diversas doenças. Quem aposta no fracasso de um ensaio clínico acaba torcendo pela falta de uma nova opção terapêutica — em resumo, pela desgraça alheia — em nome de uma conta bancária polpuda.
Foi por aí que comecei a conversa com Andrei Sposito, coordenador do Centro de Pesquisa Clínica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O mercado financeiro convencional já possui outros mecanismos para lucrar com o fracasso de pesquisas clínicas. Isso não é novo.” O que mais desalenta Sposito é, na verdade, a onda de apostar em tudo, dos esportes à medicina, um fenômeno capaz de levar famílias a sofrer prejuízos consideráveis.
Um relatório da Kalshi defende que o mercado de predição ajuda a gerar informações objetivas sobre quão promissoras seriam certas pesquisas, o que, entre outras vantagens, ajuda pacientes em busca de soluções para seus problemas. A base do argumento? Nessas plataformas, a odd — perdão, o preço de contrato, ou “ação” — é definido pelas transações entre os usuários, o que refletiria a expectativa coletiva sobre um tratamento em avaliação. Se muitas pessoas (inclusive especialistas) estão dispostas a colocar dinheiro no sucesso de uma terapia, o preço do contrato tende a subir, o que funcionaria como um indicador de potencial.
Essa visão, no entanto, encontra resistências. Em um artigo de opinião na revista científica JAMA Health Forum, a economista Genevieve Kanter, da Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles, defendeu que esse modelo de negócios pode comprometer o recrutamento para pesquisas clínicas consideradas menos promissoras pelo mercado. Quem gostaria de entrar em um experimento no qual quase ninguém está apostando?
Só que, no caso das pesquisas clínicas, o mercado de predição teria menor potencial de… predição. Um dos segredos para antecipar o futuro é se munir da maior quantidade possível de informações disponíveis no presente, o que é particularmente complicado em um setor cercado por contratos de confidencialidade e metodologias duplo-cegas.
Poucos indivíduos, como os pesquisadores e os patrocinadores, têm acesso a mais dados e, mesmo assim, com restrições. Então o sujeito que desiste de entrar em um ensaio clínico porque uma plataforma do mercado de predição não exibe dados prévios otimistas está tomando uma decisão baseada em enorme incerteza —e, potencialmente, fechando as portas para uma melhoria na própria saúde.
O artigo da JAMA Health Forum também manifestou preocupação com possíveis manipulações científicas, principalmente na ausência de regras claras e específicas. “Imagine […] um pesquisador de ensaio clínico modificando critérios de exclusão para influenciar os resultados do estudo aos quais uma aposta está vinculada”, escreveu Kanter. Ou pior, um profissional de saúde com dívida na praça que interfere nas doses administradas aos participantes para levar a aposta e sair do vermelho.
Para Sposito, no entanto, as regulações focadas em pesquisas clínicas e na aprovação de medicamentos dificultam esse tipo de fraude, uma vez que existem diferentes pontos de controle: “O pesquisador, a empresa, a seguradora, as agências reguladoras… todo mundo teria de ser enganado ou participar do esquema”. Em resumo, o risco maior estaria em apostas voltadas para estudos iniciais, em que há menor vigilância.
O mercado de predição não gosta de ser comparado às casas de apostas. E realmente existem diferenças. Por exemplo: em vez de “apostar contra a bet”, você na verdade compra e vende contratos com outros usuários, como em uma bolsa de valores — a plataforma ganha pela mediação.
Mas, para o usuário comum, essa distinção fica, no mínimo, diluída nos sites. Essa interpretação não é (só) minha: em abril deste ano, o governo federal proibiu plataformas como Kalshi e Polymarket de operarem no Brasil porque não estariam enquadradas nos setores previamente autorizados do mercado de apostas (resultados esportivos e cassinos on-line, como o jogo do Tigrinho).
Ou seja, o governo enxergou essas plataformas como bets repaginadas. “Começamos a ver o crescimento de um setor que se apresentava como outra coisa, mas o que observamos efetivamente é que tem cara, focinho e nariz de aposta”, disse na ocasião Régis Dudena, secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, à Reuters. Com a medida provisória que baniu por completo as bets, ficou ainda mais complicado para o mercado de predição. Você apostaria que esse veto vai ficar de pé no ano que vem?
Castelo de cartas
Em 2022, a especialista em integridade científica Leslie McIntosh revelou, junto com outros colegas, a existência de uma rede falsa de cientistas, a Pharmakon Neuroscience Network (PNN), que vendia espaços de autoria em milhares de estudos adulterados. Quatro anos depois, ela e Federica Silvi recuperaram uma base com quase 2 mil artigos publicados que listavam ao menos um coautor da PNN — um indicativo claro de fraude — para verificar quantos foram incluídos nas referências de patentes, manuais e afins.
De acordo com os dados que as duas publicaram em formato pré-print, 57 foram citados em guias de políticas públicas, 12 em diretrizes clínicas e incríveis 480 em patentes.
Deixando o alarmismo de lado, isso não significa que cada um desses documentos está completamente manchado, ou mesmo que recomenda práticas sem evidência científica. Muitos outros artigos — esses, aparentemente confiáveis — também eram listados nessas páginas.
No mais, se você deseja lucrar com fábricas de artigos falsos (as paper mills), uma boa estratégia é não chamar a atenção e produzir textos que, embora falsos, sigam a correnteza e gerem conclusões similares às da maioria dos textos publicados. Ainda assim, a penetração desses artigos em documentos oficiais reforça como debates sobre integridade científica desaguam em impactos reais. E você pensando em pular a leitura desta coluna…
Fonte: Revista Pesquisa Fapesp