Jogadores teriam pago até R$ 100 mil por licenças falsas de técnico
Por Esporte News Mundo — Carta Capital
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Thiago Silva, Felipe Melo, Roberto Carlos e outros nomes aparecem entre os citados pela investigação jornalística
A jornalista Joanna Assis revelou, em reportagem publicada no UOL nesta quarta-feira (7), um esquema de venda de diplomas falsos de técnico comandado pelo argentino Alejandro Mancuso, ex-volante de Palmeiras e Flamengo. Segundo a apuração, entre os clientes, nomes consagrados do futebol são citados: Thiago Silva, Luiz Gustavo, Diego Lugano, Paolo Guerrero, Roberto Carlos, Felipe Melo, Alex de Souza, Petkovic, Paulinho, e outros.
O desejo de trocar a carreira de jogador pelo trabalho à beira beira dos gramados de qualquer time do mundo, com quatro licenças de técnico da ATFA, a escola de treinadores da Argentina, PRO (internacional), a A (profissional) e os certificados B e C (base), em até 10 dias, tinha um preço. Para conseguir o documento, o Mancuso cobrava uma transferência de R$ 100 mil.
Aos jogadores e ex-jogadores, Mancuso se identificava como “diretor internacional da ATFA”, e afirmava ter ligação com o presidente e o jurídico. Entretanto, a entidade nega qualquer relação entre as partes.
Em contato com a reportagem, o ex-jogador argentino negou o vínculo com a ATFA. “Muitos brasileiros me ligam. Por quê? Porque eu sou um cara muito conhecido no Brasil, sabe? E eles me perguntam como é que a gente faz, como é que dá um jeito. Eu passo o contato da federação para que eles liguem direto. Eu não estou na federação, eu não sou parte da federação”, disse.
A primeira denúncia aconteceu em maio de 2024, de acordo com a reportagem, quando um ex-jogador, que não quis se identificar, teria recebido uma mensagem do argentino oferecendo o esquema. Em áudios encaminhados, ele dizia que Salvador Pasini, diretor-geral da ATFA, sabia do atalho e assinaria os diplomas.
“Fechei com o nosso presidente da federação para que todas essas feras que jogaram futebol tenham um jeito para não fazer esse curso online. Pronto e acabou”, Mancuso afirma em um dos áudios. “São caras que jogaram bola a vida toda, precisa de três anos de curso online?”
Enquanto a formação da ATFA leva três anos, onde o aluno vai dá licença C até a PRO, o trâmite vendido por Mancuso burlava o histórico escolar e a trilha de formação.
“Na federação fica que você fez três anos de curso online. 2021, 2022, 2023. É isso aí que você tem que falar para todo mundo.”
Felipe Melo, ex-Palmeiras, foi um dos clientes de Mancuso. A licença dele, suspensa por não conseguir cumprir as aulas presenciais, foi uma das investigadas pela polícia argentina em 2025.
“Eu imaginei que as licenças poderiam ser falsas quando eu comecei a cobrar pela aula presencial e o Mancuso nunca marcava. Pensei: ‘Isso aqui tá errado’. A primeira coisa que eu faço é tirar das minhas redes sociais, porque eu estava exibindo que eu era um associado da ATFA, né? E aí peço o meu dinheiro de volta. Diferente de muitos, eu consegui essa façanha”, contou o ex-jogador.
Outro que conseguiu a licença foi Paulinho, que disse ao UOL que acreditou na versão contada por Mancuso sobre a possibilidade da ATFA reconhecer a carreira dos jogadores para a emissão dos diplomas. Para ele, não parecia ser um esquema falso.
“Ele [Mancuso] dizia que tinha uma forma de arranjar as licenças argentinas. Ele garantiu que só era necessário um processo online e, em pouco tempo, enviaria os documentos. Eu cheguei a preencher uma papelada que ele me enviou, e aí ele me mandou os certificados pelo correio. E foi um erro, que acredito que tenha sido o erro da maioria, e eu assumo. Era para comprar facilidade, mas eu nunca usei.”
Para a reportagem, Alex de Souza, Luiz Gustavo, Roberto Carlos, Pet, Roberto Assis e Thiago Silva, também sustentam a versão de que não sabiam da ilegalidade do esquema e que não utilizaram as licenças.
Ao analisar os documentos enviados por Mancuso e os diplomas originais, foram encontrados erros e inconsistências.
“A verdade é que nós, jogadores que pegamos as licenças com o Mancuso, sempre soubemos que esse dia iria chegar. Que alguém descobriria o esquema e daria ruim”, disse uma fonte procurada pela reportagem.
“Parecia algo fácil demais para ser verdade, e eu vi que virou um papo de vestiário. Inúmeros jogadores compraram. Isso me levou a pensar que não daria certo, mas eu jamais desconfiei da possibilidade de ser um documento falso.”
Em nota, a ATFA negou qualquer relação com o esquema de documentos falsos.
“A ATFA não reconhece qualquer gestão que o Sr. Mancuso tenha realizado ou alegado fazer em nome da entidade. O referido senhor não integra a Diretoria, não ocupa cargo de autoridade na ATFA, não mantém qualquer vinculo contratual com a instituição e não possui autorização para agir em seu nome ou representá-la. Consequentemente, qualquer oferta, cobrança ou envio de documentação que ele possa ter realizado invocando a ATFA é algo totalmente alheio a esta instituição.”
Além disso, a entidade afirmou que o caso já foi investigado pela Justiça Federal Criminal e Correcional da República Argentina durante o ano de 2025.
“No referido processo, investigou-se a suposta emissão irregular de diplomas e licenças de treinador em favor de ex-jogadores de futebol estrangeiros – entre eles, vários dos que você menciona em sua nota, bem como a eventual participação de autoridades e funcionários da ATFA.
Após a realização de diligências probatórias – incluindo uma busca e apreensão na sede da ATFA, па qual não se encontrou qualquer documentação que comprovasse a emissão de diplomas, históricos escolares ou carteiras profissionais irregulares, o Ministério Público Fiscal solicitou o arquivamento dos autos. O Juízo Federal Criminal e Correcional responsável pelo caso decidiu, em dezembro de 2025, arquivar o processo por inexistência de crime (art. 195, segundo parágrafo, do Código de Processo Penal da Nação).
Portanto, a questão já foi investigada e resolvida pela Justiça Federal argentina, revestindo-se, para ela e para o direito penal argentino, do caráter de coisa julgada.”
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Fonte: Carta Capital