Janja volta a ser alvo de ‘fogo amigo’ no entorno de Lula

0

Por Vinícius Nunes — Carta Capital

Menu

Primeira-dama ganhou protagonismo na disputa, mas passou a ser criticada por aliados do presidente após o resultado do 1º turno; mote ‘menos Janja, mais Alckmin’ expõe disputa interna sobre os rumos da campanha

A primeira-dama Janja voltou a ser alvo de “fogo amigo” entre aliados de Lula (PT) após o presidente terminar o primeiro turno das eleições de 2026 atrás de Flávio Bolsonaro (PL). Parte do entorno do petista passou a discutir abertamente os rumos da campanha e, entre as queixas, ganhou força a avaliação de que Janja estaria ocupando espaço demais nos palanques, nas redes sociais e na própria organização dos atos.

O tema foi discutido na reunião da cúpula do PT realizada na terça-feira 6. A ex-senadora e neopetista Kátia Abreu afirmou que a campanha deveria ter “menos Janja e mais Alckmin”. Segundo relatos, a manifestação foi aplaudida pelos presentes.

Na avaliação de Kátia Abreu, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) deveria ter mais espaço na campanha por sua capacidade de diálogo com o centro, empresários e o mercado financeiro. Em entrevista ao jornal O Globo publicada nesta quinta-feira 8, ela voltou ao assunto e afirmou que a crítica não era uma questão de gênero, mas de estratégia eleitoral.

Segundo ela, a participação de Janja não estaria produzindo efeitos positivos para a candidatura neste momento. A ex-senadora chegou a questionar Janja publicamente: “ qual é a prioridade: aparecer ou eleger o marido ? ”. Também afirmou que não se arrepende do que disse na reunião, embora tenha reclamado que uma conversa fechada tenha vazado.

A crítica ganhou peso porque Janja passou, nesta campanha, de uma presença principalmente de bastidores para um papel cada vez mais visível. Ela acompanhou Lula em caminhadas, carreatas, comícios e outros atos pelo País, cantou jingles, discursou e participou da organização das mobilizações. Dividiu o palco com o presidente em eventos e, em algumas ocasiões, foi responsável por conduzir parte das falas.

A primeira-dama Janja canta durante ato da campanha de Lula (PT), em São Paulo. Foto: Nelson Almeida/AFP

No último dia de campanha antes do primeiro turno, em São Paulo, no sábado 3, Janja tomou o microfone e provocou o prefeito Ricardo Nunes (MDB) por causa das restrições impostas à realização da manifestação na Avenida Paulista. Disse que a Paulista seria ocupada pelos apoiadores de Lula e mandou o prefeito “ plantar batatas ”.

A presença constante de Janja também virou motivo de reclamação entre setores do PT por causa de sua participação em reuniões e da influência na definição de agendas e eventos. Críticos questionaram ainda o fato de ela cantar um jingle de inspiração gospel nos comícios e de ter protagonizado confrontos verbais com adversários durante a campanha.

Assista ao vídeo :

A primeira-dama chegou a chamar o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) de “piá de bosta” em um comício em Minas Gerais. O episódio passou a ser usado por parte dos aliados de Lula para sustentar a tese de que Janja estaria, em determinados momentos, deslocando o foco da campanha para si. 

A reação dela, porém, foi respaldada pelo próprio presidente. Depois da reunião do PT, a primeira-dama enviou uma mensagem a Kátia Abreu. Segundo reportagem do Globo , Janja afirmou que não reduziria sua participação na campanha por decisão do “meu marido”, numa referência a Lula. 

O gabinete de Janja também reagiu publicamente às críticas. Em nota, afirmou que ela seguirá participando da campanha e que sua atuação é “legítima” e “sempre respaldada pelo presidente Lula” . A equipe acrescentou que o objetivo dos envolvidos é um só: reeleger o presidente.

A posição não é nova. Desde o episódio ocorrido durante a viagem de Lula à China, em maio de 2025, o presidente vem defendendo publicamente o direito de Janja de participar de discussões e de expressar suas opiniões. Na ocasião, um diálogo entre Lula, o presidente chinês Xi Jinping e integrantes da comitiva brasileira vazou para a imprensa . Janja havia abordado os efeitos do TikTok sobre mulheres e crianças.

Parte da comitiva considerou a intervenção inadequada e o episódio foi descrito como “constrangedor”. Lula, no entanto, contestou essa interpretação e criticou o vazamento de uma conversa que considerava confidencial. Disse ainda que não havia ocorrido nenhuma manifestação desrespeitosa por parte da primeira-dama e afirmou que ela tinha pleno direito de participar da discussão. Ao justificar a participação dela, afirmou que sua mulher não era “cidadã de segunda classe”.

A derrota no primeiro turno deste ano transformou a avaliação da campanha em uma disputa por responsabilidades, com críticas também ao presidente do PT, Edinho Silva , ao ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira , e à própria estratégia adotada na primeira rodada.


Vinícius Nunes

Repórter de CartaCapital baseado em Brasília. Cobre os Três Poderes. Já trabalhou em Jovem Pan, Poder360, UOL, Blog do Noblat, JOTA e SBT News.

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.


Desenvolvido por OKN Technology Agency

Fonte: Carta Capital

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *