Isolda Costa: “O foco deve ser tecnologia para melhorar a qualidade de vida”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – A possibilidade de o Brasil desenvolver uma arma nuclear serviu de ponto de partida para a pesquisadora Isolda Costa, diretora do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), discutir uma questão mais ampla: quais devem ser as prioridades científicas e tecnológicas do país. Para ela, mais importante do que direcionar recursos a um projeto nuclear de caráter militar é ampliar os investimentos em ciência e inovação voltados a áreas como educação, saúde e melhoria da qualidade de vida da população.
Em entrevista concedida ao Opera Mundi, Costa afirmou que o Brasil ainda estaria distante da capacidade necessária para produzir material nuclear em grau militar. Ao mesmo tempo, ressaltou que o país possui pesquisadores qualificados e conhecimento científico que permitem avanços quando existem financiamento, infraestrutura e objetivos definidos.
“Eu acho que a gente tem tantas necessidades maiores”, afirmou. “É a educação básica, é a saúde. Acho que esse deve ser o nosso foco: tecnologia para melhorar isso, qualidade de vida.”
Questionada sobre quanto tempo o Brasil levaria para desenvolver uma bomba nuclear caso decidisse seguir esse caminho, Costa evitou estabelecer um prazo. Segundo ela, um programa dessa natureza exigiria uma concentração de recursos incompatível com as prioridades que identifica para o país.
“A gente não tem esses recursos para investir nisso dessa maneira concentrada, como têm os países bélicos. Nós não temos, nem queremos, nem pretendemos”, disse.
Para a pesquisadora, a questão central é que o desenvolvimento tecnológico não ocorre apenas como consequência da existência de conhecimento acumulado. Ele depende da capacidade de um Estado de mobilizar recursos financeiros, instituições e pesquisadores durante um período prolongado.
Costa recorreu ao desenvolvimento das vacinas contra a Covid-19 para explicar esse processo. As tecnologias que permitiram a produção dos imunizantes não surgiram durante a pandemia, mas resultaram de anos de pesquisa. A emergência sanitária, no entanto, produziu uma concentração de investimentos e esforços que acelerou etapas e permitiu alcançar resultados em poucos meses.
“Quando existe um esforço concentrado muito grande, investimentos em uma determinada ação, em determinado objetivo, como foi o caso da criação das vacinas em dez meses, todo mundo trabalhando conseguiu”, afirmou.
A cientista utiliza esse exemplo para sustentar que o problema brasileiro não pode ser reduzido à falta de capacidade intelectual. O país possui pesquisadores formados em universidades e centros de pesquisa capazes de atuar em áreas de alta complexidade. O desafio, segundo ela, está em garantir recursos, laboratórios, estabilidade e continuidade para que esse conhecimento seja desenvolvido dentro do Brasil.
“Competência, capacidade estão lá. Nós temos pessoas extremamente competentes no país”, destacou.
Nesse ponto, Costa citou a China como exemplo de transformação científica produzida por investimentos mantidos durante décadas. A pesquisadora, que esteve três vezes no país e acompanha a produção acadêmica chinesa em sua área de atuação, relata uma mudança significativa tanto no volume quanto na qualidade das pesquisas provenientes de instituições chinesas.
“A China disparou em tudo quanto é coisa. Tudo que você imaginar, a China está lá”, afirmou.
Segundo Costa, essa mudança pode ser observada diretamente na publicação científica internacional. Em sua atuação editorial em uma revista especializada, ela diz verificar uma presença crescente de trabalhos produzidos por pesquisadores chineses.
“Mais de 90% dos trabalhos são de chineses e são excelentes”, relatou.
Para a pesquisadora, a experiência chinesa mostra que a posição de um país na produção internacional de conhecimento pode mudar quando ciência e tecnologia recebem investimentos continuados. O resultado não depende de uma medida isolada, mas da combinação entre formação de pesquisadores, financiamento, infraestrutura e planejamento de longo prazo.
Essa discussão também leva Costa a um dos problemas enfrentados historicamente pelo sistema científico brasileiro: a saída de pesquisadores formados no país em direção a universidades e centros de pesquisa estrangeiros.
O Brasil investe durante anos na formação de profissionais em universidades públicas e programas de pós-graduação, mas parte deles encontra no exterior melhores condições para desenvolver suas pesquisas. O resultado, segundo Costa, é que outros países acabam incorporando profissionais cuja formação foi financiada, em grande medida, pela sociedade brasileira.
“A gente forma, às vezes nas melhores universidades, nas melhores escolas, gratuitamente, e muita gente vai embora”, disse.
Costa destacou, por isso, iniciativas de repatriação e atração de pesquisadores desenvolvidas por instituições brasileiras de fomento. Ela mencionou programas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e de fundações estaduais de apoio à pesquisa destinados a criar condições para que cientistas brasileiros que trabalham no exterior possam retornar.
Para ela, a volta desses profissionais produz efeitos que vão além do currículo individual de cada pesquisador. Cientistas com experiência em instituições estrangeiras podem trazer conhecimento acumulado, redes internacionais de colaboração e experiência na organização de laboratórios e projetos.
“É impressionante quando você recebe uma pessoa bem formada. Eu nunca pensei quanto faz diferença você investir nesse capital humano que a gente forma”, afirmou.
A pesquisadora também observa uma oportunidade para o Brasil diante das mudanças recentes no ambiente científico internacional. Na avaliação de Costa, a redução da valorização da ciência nos Estados Unidos pode estimular pesquisadores a procurar outros países para desenvolver seus trabalhos. O Brasil poderia aproveitar esse movimento, desde que ofereça condições materiais para recebê-los e mantê-los.
Ela reconhece avanços em programas brasileiros de atração e retenção de cientistas, inclusive por meio de bolsas com valores mais elevados, mas considera necessário ampliar essas políticas e, principalmente, garantir sua continuidade.
“A gente precisa de mais recursos, precisa modernizar a infraestrutura que nós temos, precisa investir continuamente”, afirmou.
A discussão sobre uma eventual bomba nuclear, portanto, conduz a uma questão anterior: qual projeto de desenvolvimento científico o Brasil pretende financiar. Costa não questiona a importância de ampliar a autonomia tecnológica brasileira, mas defende que essa capacidade esteja voltada às necessidades econômicas e sociais do país.
Sob essa perspectiva, domínio tecnológico não significa necessariamente transformar conhecimento científico em poder militar. Significa também ser capaz de produzir medicamentos, desenvolver tecnologias, formar pesquisadores, modernizar laboratórios e utilizar conhecimento para enfrentar problemas concretos da população.
É nesse ponto que Costa estabelece sua prioridade. Para ela, o Brasil possui recursos humanos capazes de produzir ciência em nível internacional, mas precisa transformar essa capacidade em uma política permanente de Estado, reduzindo a perda de pesquisadores para o exterior e oferecendo condições para que projetos de longo prazo sejam desenvolvidos no país.
Em vez de perguntar apenas quanto tempo o Brasil levaria para construir uma bomba, sua reflexão desloca o debate para aquilo que poderia ser realizado se recursos, planejamento e capacidade científica fossem mobilizados de maneira contínua em torno de outros objetivos nacionais.
“Eu acho que a ciência, a inovação e a tecnologia é o que fica nas nossas vidas”, concluiu.
Fonte: Brasil 247