Por Washington AraújoBrasil 247

Olhe à sua volta em um dia comum de sua vida. Você logo encontrará pessoas que atravessam vinte, trinta anos de nossa vida sem jamais receberem de nós uma pergunta elementar: como você se chama? Reconhecemos o rosto, a voz, o horário, o modo de andar, o cansaço de certos dias. Percebemos sua ausência, sabemos que adoeceram, mudaram de turno, envelheceram, tiveram filhos, perderam parentes. Ainda assim, o nome ficou de fora, como se a convivência cotidiana pudesse dispensar aquilo que primeiro nos individualiza diante do mundo.

O porteiro sabe a hora em que chegamos, quem nos visita, quando viajamos e até se voltamos de uma viagem mais calados. O jornaleiro conhece o jornal que comprávamos antes de abandoná-lo. O garçom sabe a mesa preferida, o café sem açúcar, a pressa, o silêncio. A moça da padaria percebe mudanças em nossos hábitos antes de alguns amigos. Conhecem fragmentos de nossa vida porque estiveram ali, discretamente, repetindo o encontro. E seguimos chamando essas pessoas pela função.

A intimidade pela metade

Sempre me intrigou esse tipo de convivência. Existe uma proximidade curiosa, quase doméstica, mas ela termina exatamente onde começaria a biografia. Alguém conhece nossos filhos pelo nome, reconhece nosso carro, percebe nossa tristeza, lembra nossas preferências e continua sendo “o porteiro”. A profissão engole a pessoa. A utilidade ocupa o lugar da identidade. Existe aí uma pequena radiografia das hierarquias sociais: perguntamos mais facilmente o nome de quem consideramos nosso igual.

A invisibilidade social tem endereço, uniforme e salário. Ela aparece com mais nitidez nas relações de classe. O homem que estaciona o carro, a mulher que limpa o escritório, o entregador que sobe com a comida, a balconista que serve o café entram diariamente em nossa vida sem entrar em nosso campo de atenção. Tornam-se visíveis no instante em que faltam e quase transparentes enquanto cumprem sua função. É uma crueldade perfeitamente incorporada à rotina: percebemos o serviço, mas não a pessoa; cobramos eficiência de quem mal nos damos ao trabalho de conhecer.

A cidade nos educou muito bem para reconhecer funções. Quem abre a porta, quem serve a mesa, quem entrega o pão, quem limpa o corredor, quem dirige o táxi, quem carrega a encomenda. Sabemos perfeitamente o que fazem por nós e quase nada sabemos sobre o que fazem da própria vida. Essa assimetria parece banal porque se repete todos os dias, mas justamente por isso merece atenção. A desigualdade também se instala em gestos aparentemente inocentes, nas maneiras de olhar e até naquilo que jamais perguntamos.

Existe um paradoxo que me parece cada vez mais difícil de ignorar. Nunca dispusemos de tanta tecnologia para aproximar pessoas, nunca produzimos tanto conforto material, nunca carregamos no bolso tantos caminhos para chegar aos outros. E, no entanto, nossas cidades estão cheias de gente solitária. Podemos alcançar alguém do outro lado do planeta em segundos e atravessar anos inteiros sem dedicar verdadeira atenção a quem cruza nosso caminho todos os dias. Multiplicamos contatos, ampliamos redes, aceleramos mensagens. No meio dessa abundância de conexão, fomos desaprendendo uma coisa elementar: estar realmente presentes diante de outra pessoa.

Penso, nesse ponto, em ‘Abdu’l-Bahá e na atenção extraordinária que dedicava aos pobres, aos anônimos, aos que as sociedades costumam empurrar para as margens do olhar. Em ‘Akká, sua proximidade com os necessitados ajudou a torná-lo conhecido como o Pai dos Pobres. Interessa-me especialmente aquilo que sua atitude revela: nenhuma existência era pequena demais para merecer cuidado, respeito e presença. Uma civilização pode exibir máquinas sofisticadas, edifícios imensos e avanços espetaculares; sua qualidade humana aparece com muito mais nitidez na maneira como trata aqueles que não têm prestígio, poder ou favor algum a oferecer.

Depois que desaparecem

A parte mais dura costuma chegar na despedida. O porteiro se aposenta, a banca fecha, o garçom muda de restaurante, a moça da padaria deixa de aparecer. Dias depois, alguém pergunta: “E aquele senhor que trabalhava aqui?” Depois de quinze anos, milhares de encontros, cumprimentos, pequenas conversas, notícias sobre filhos, férias, futebol, doença e tempo, resta apenas “aquele senhor”.

Existe algo de brutal nisso. A convivência foi suficiente para produzir memória, mas insuficiente para produzir um nome. E o nome importa porque impede que uma pessoa seja reduzida ao serviço que presta. Perguntá-lo significa admitir que existe uma história por trás do uniforme, da guarita, do balcão, da bandeja; alguém que também chega cansado em casa, espera telefonemas, guarda fotografias, teme perdas e sonha com alguma coisa.

Tenho pensado que uma cidade revela muito de si pela maneira como trata aqueles que tornam sua rotina possível sem jamais ocupar o centro dela. Podemos falar de civilidade, educação, gentileza, urbanidade. Mas existe um teste mais severo: quantas pessoas que encontramos há anos continuam sem nome dentro de nossa memória?
Desaparecer da nossa rotina é inevitável. Mais grave é descobrir, depois de tantos anos, que alguém esteve todos os dias diante de nós e permaneceu apenas como função.

Fonte: Brasil 247

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