Por Sinésio Dioliveira — Jornal Opção

Infância arrastada pela enxurrada…

Há tristezas da infância que deixam marcas profundas. Elas não atormentam no momento em que acontecem, protegidas, digamos assim, pela ingenuidade própria dessa fase da vida, mas podem incomodar por muitos anos, quando a pessoa finalmente se “desentende” como gente. É que certas experiências da infância não ficam apenas na memória: deixam marcas duradouras. O estresse intenso vivido na infância pode afetar o desenvolvimento do cérebro e do corpo e deixar marcas que podem aparecer mais tarde, na forma de problemas físicos e emocionais.

O que não falta por aí é adulto chorando tristezas que não pôde chorar na infância. Há lágrimas que ficam represadas por anos, até que uma enxurrada de lembranças as faça transbordar. Tive um amigo que, para cicatrizar as tristezas advindas da pobreza da infância, comprava presentes e mais presentes para os filhos. Felizmente ele se curou e passou a presentear apenas os filhos. Esse amigo, na época nefasta da Covid 19, teve a vida interrompida por um motorista bêbado, que avançou o sinal vermelho do semáforo e bateu seu carro na moto do meu amigo. Ele voltava, feliz, de um posto de vacinação por ter conseguido se vacinar contra Covid 19.

Foi justamente nesse período, marcado pela morte do meu amigo, que o país assistia, atônito, às declarações do então presidente Jair Bolsonaro sobre a pandemia. Em pronunciamento em rede nacional, no dia 24 de março de 2020, chamou a Covid-19 de “gripezinha” e “resfriadinho”. Menos de um mês depois, diante das perguntas sobre o avanço das mortes, respondeu: “Eu não sou coveiro”. Meses mais tarde, ao falar sobre a vacina, chegou a dizer que quem a tomasse poderia “virar jacaré”. Enquanto famílias choravam seus mortos, o presidente parecia tratar a maior tragédia sanitária de nossa geração como uma coisa menor, quase uma anedota.

As alegrias da infância, ainda bem, também nos acompanham pela vida afora. E até se tornam mais bonitas. Fui invadido, na semana passada, pela lembrança doce de um momento específico de minha infância. É até um tanto paradoxal dizer, mas, nesse dia sob os escombros do tempo, cheguei a levar umas varadas de amora de minha mãe pelo que fiz. Ou melhor, pelo que deixei de fazer: trazer meus chinelos da rua, já que havia saído com eles. A dor das varadas, entretanto, não conseguiu afugentar a doçura da lembrança.

Naquela época, eu tinha uma vontade enorme de cortar o pé de amora do quintal de nossa casa, pois vinham dele as varas que castigavam minhas pernas. Não era uma tunda selvagem; as surras de minha mãe eram mais verbais que físicas. Meu pai pegava com força. Ainda bem que as varadas só doíam no momento em que aconteciam. E havia mais: na época da frutificação, as amoras tratavam de afugentar a dor das tundas. Poucas frutas sobravam para os sanhaços, cambacicas e outros pássaros frugívoros que visitavam o nosso quintal.

Imagem: Reprodução

Minha infância me veio numa enxurrada, mais precisamente num pé de chinelo. Como a chuva estava muito forte, tratei de encostar o carro e esperar que ela diminuísse. Foi então que vi o chinelo descer, arrastado pela correnteza. Era de uma criança. Talvez sua dona o tivesse esquecido, como eu fizera quando menino, em Belo Horizonte. Em época de chuva, as folhas do meu caderno viravam barquinhos na enxurrada. Dentro deles, eu costumava colocar uns insetos conhecidos como tatuzinhos. Esses barquinhos, por causa do desperdício de folhas, também já me renderam algumas varadas.

Uma alegria maravilhosa, feita de duas coisas, tomou conta de mim: a lembrança daquele momento da infância e, principalmente, o fato de estar ali, naquele instante, assistindo, extasiado, à chuva. Havia ainda um segundo ingrediente nessa alegria: uma moça no frescor da idade que caminhava sob a chuva. Sua única preocupação foi apenas com os cabelos, que estavam protegidos por uma sacola plástica de supermercado. Estava descalça, com as sandálias numa das mãos, caminhando na calçada com a água pelas canelas. Sua roupa colada no corpo deixou-a muito sensual.

Quando a moça saiu do alcance dos meus olhos, fiquei sozinho com a chuva, que é sêmen bendito a escorrer do céu. E talvez tenha sido melhor assim. Pude voltar a contemplar aquele espetáculo tão simples e grandioso, sem o qual não haveria árvores, pássaros, frutos nem nós. A chuva que um dia carregou barquinhos das folhas do meu caderno agora arrastava um chinelo pela rua. E eu, entre a lembrança do menino que fui e o homem que me tornei, fiquei pensando em quantas coisas a vida leva embora sem que percebamos.

O chinelo desapareceu dentro de uma boca de lobo. Fiquei olhando até ele sumir. Talvez pertencesse a uma criança que o perdera naquela chuva. Talvez, muitos anos depois, ela se lembrasse daquele dia como eu me lembrava do meu. No fim, foi apenas um chinelo levado pela enxurrada. Mas, para mim, carregou junto um pedaço da infância.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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Fonte: Jornal Opção

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