Índia propõe integrar moedas digitais do Brics sem criar rival direto para o dólar dos EUA
Por Luis Mauro Filho — Brasil 247
247 – A Índia vai propor que os países do Brics conectem suas moedas digitais de bancos centrais para facilitar pagamentos internacionais, mas evitará apoiar uma rede única que possa ser interpretada como concorrente do dólar e do sistema SWIFT. A posição será apresentada na cúpula de líderes em Nova Délhi, segundo apuração da agência Bloomberg, baseada em fontes familiarizadas com as negociações.
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, defende que essas moedas sejam usadas na liquidação do comércio bilateral entre os integrantes do grupo. As fontes afirmaram que um acordo para criar um sistema unificado de pagamentos do Brics é improvável durante o encontro.
A estratégia indiana prevê conexões diretas entre as moedas digitais de cada país. O modelo poderia reduzir a participação de bancos intermediários, baixar os custos das operações e tornar as transferências internacionais mais rápidas.
Nova Délhi, porém, avalia que uma plataforma comum para todo o bloco poderia atribuir ao Brics uma identidade explicitamente antidólar ou antiocidental. Por isso, o governo indiano prefere acordos bilaterais e o uso de moedas nacionais no comércio, sem apoiar a formação de uma estrutura financeira centralizada.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Índia, Randhir Jaiswal, afirmou que seria prematuro antecipar o resultado das reuniões entre ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais. Ele recomendou que os jornalistas aguardassem a declaração conjunta e classificou a posição indiana na cooperação financeira do Brics como “voltada ao desenvolvimento”.
O Banco da Reserva da Índia não comentou as negociações. A autoridade monetária conduz um projeto-piloto da rupia digital, enquanto China e Rússia também testam moedas digitais emitidas por seus bancos centrais.
Os líderes do Brics poderão discutir ainda a conexão entre sistemas nacionais de pagamentos instantâneos, utilizados principalmente em transferências de menor valor. Entre os participantes dessas conversas estarão o presidente da China, Xi Jinping, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin.
A Índia já integrou sua Interface Unificada de Pagamentos, conhecida como UPI, ao PayNow, de Singapura, para permitir remessas entre os dois países. Modi defendeu nesta semana que esse tipo de ligação seja estendido a nações com grandes comunidades indianas.
Nova Délhi também assinou acordos com os bancos centrais dos Emirados Árabes Unidos, de Maurício, das Maldivas e da Indonésia para ampliar o uso de moedas locais. Outras negociações estão em andamento, de acordo com o presidente do Banco da Reserva da Índia, Sanjay Malhotra.
“Continuaremos nossos esforços para internacionalizar a rupia e promover o uso de moedas locais nos pagamentos transfronteiriços e no comércio”, afirmou Malhotra.
Comércio em moedas locais avança no Brics
Os integrantes do Brics ampliaram as transações em moedas nacionais depois que bancos russos foram excluídos do sistema SWIFT em resposta à invasão da Ucrânia, iniciada em 2022. A rede é uma das principais infraestruturas de comunicação usadas por instituições financeiras em transferências internacionais.
Cerca de 96% do comércio entre Índia e Rússia já utiliza mecanismos de liquidação em rúpias e rublos, segundo Ivan Nosov, chefe do banco russo Sberbank na Índia. Quase todas as transações entre Rússia e China são realizadas em yuans e rublos, conforme informações da agência Interfax.
Para a economista Sonal Varma, da Nomura Holdings, o uso de moedas nacionais também pode reduzir a exposição de países emergentes às oscilações dos fluxos internacionais de capital.
“A liquidação em moedas locais pode ajudar a preservar as escassas reservas em dólar para importações estratégicas, enquanto permite o financiamento do comércio cotidiano em moeda local”, afirmou.
Fonte: Brasil 247