Ignacio Ramonet analisa nascimento de uma nova ordem mundial marcada pela multipolaridade e pela revolução tecnológica
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O mundo atravessa uma transformação histórica que poderá redefinir profundamente a distribuição do poder internacional, as relações econômicas, os sistemas produtivos e a própria organização das sociedades. Essa é a avaliação do jornalista e ensaísta Ignacio Ramonet, que analisa a transição para uma nova ordem mundial em artigo publicado pela teleSUR. Segundo o autor, a humanidade vive um período de mudanças simultâneas nas dimensões geopolítica, tecnológica, energética, econômica, demográfica e climática, cujo resultado ainda permanece indefinido.
“O que estamos vivendo é a transição de um sistema histórico para um novo sistema histórico cujo perfil ainda não está completamente definido”, afirma Ramonet, em tradução do espanhol.
Para o jornalista, a característica mais importante do momento atual é justamente a convergência de transformações estruturais. Não se trata de uma sucessão de crises isoladas, mas de uma reorganização abrangente das relações de poder, da economia mundial e das bases tecnológicas da sociedade.
Fim da hegemonia unipolar e ascensão do Sul Global
Uma das principais mudanças identificadas por Ramonet é a passagem de um sistema internacional dominado pelos Estados Unidos, após o desaparecimento da União Soviética, para uma configuração multipolar, na qual diferentes países e regiões ampliam sua influência.
China, Índia e Rússia ocupam posições centrais nesse processo, enquanto países como Brasil, México, Indonésia, Turquia, Irã, Arábia Saudita, Nigéria e África do Sul procuram fortalecer sua autonomia estratégica e ampliar sua capacidade de negociação internacional.
Segundo Ramonet, essa transformação não significa necessariamente o surgimento de um mundo mais cooperativo. A multiplicação dos centros de poder também pode intensificar rivalidades, disputas comerciais e conflitos geopolíticos.
Ao mesmo tempo, a ascensão do Sul Global amplia a pressão pela reforma das instituições internacionais, como a Organização das Nações Unidas, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio.
Essas organizações foram estruturadas em períodos históricos nos quais a distribuição do poder econômico e político era muito diferente da atual. A crescente participação das economias emergentes torna mais evidente a necessidade de adaptar os mecanismos de governança internacional.
Ramonet ressalta, porém, que o Sul Global não constitui um bloco homogêneo. Seus integrantes possuem interesses distintos e, em determinadas questões, concorrentes.
Globalização entra em nova fase marcada pela geopolítica
Outra transformação destacada pelo ensaísta é a reorganização da globalização econômica.
Na avaliação de Ramonet, a integração internacional não está desaparecendo, mas assumindo novas características. Empresas e governos passaram a considerar fatores como segurança nacional, autonomia produtiva e dependência tecnológica, além dos critérios tradicionais de custo e eficiência.
Conceitos como nearshoring, que representa a aproximação geográfica das cadeias produtivas, e friend-shoring, que privilegia parceiros considerados politicamente confiáveis, refletem essa mudança.
A geopolítica voltou a ocupar uma posição central nas decisões econômicas.
Governos ampliam subsídios a setores estratégicos, estabelecem controles sobre exportações tecnológicas e procuram garantir o abastecimento de componentes essenciais, como semicondutores e minerais críticos.
Segundo os dados apresentados no artigo, a participação dos setores estratégicos nos novos projetos internacionais de investimento passou de 16%, em 2020, para 44%, em 2025.
Esse movimento revela uma mudança na lógica da economia mundial: a busca pela eficiência econômica passou a conviver com preocupações relacionadas à soberania e à segurança nacional.
Inteligência artificial se transforma em instrumento de poder geopolítico
Ramonet considera que a revolução tecnológica representa uma das dimensões mais profundas da transição histórica em curso.
A disputa entre as grandes potências envolve cada vez mais o domínio de semicondutores, inteligência artificial, computação avançada, robótica, biotecnologia, satélites, telecomunicações e infraestrutura digital.
A tecnologia deixou de ser apenas um setor da economia para se transformar em elemento decisivo da distribuição do poder internacional.
A inteligência artificial, em particular, poderá provocar mudanças profundas na indústria, na medicina, na educação, na agricultura, nos serviços financeiros, na administração pública e na defesa.
Uma das novidades dessa revolução é a possibilidade de automatizar atividades intelectuais antes desempenhadas exclusivamente por trabalhadores qualificados.
Entretanto, Ramonet alerta que os ganhos de produtividade e os benefícios econômicos não serão necessariamente distribuídos de maneira equilibrada.
A concentração dos investimentos, da capacidade científica e da infraestrutura computacional em poucos países poderá ampliar as desigualdades internacionais.
Para a América Latina, o desafio será decidir se permanecerá como consumidora de tecnologias desenvolvidas no exterior ou se construirá capacidade própria de pesquisa, inovação e produção.
Soberania digital se torna questão estratégica
O avanço tecnológico também exige uma redefinição do conceito de soberania nacional.
Tradicionalmente associada ao controle do território, dos recursos naturais e das instituições políticas, a soberania passa a incluir o domínio sobre dados, infraestrutura digital e sistemas de inteligência artificial.
Questões como a localização dos centros de dados, a propriedade das informações, o controle dos semicondutores e a definição das regras de funcionamento dos algoritmos ganham importância estratégica.
Para Ramonet, a capacidade de um país tomar decisões autônomas dependerá cada vez mais de sua infraestrutura científica e tecnológica.
Essa transformação também afeta a democracia, uma vez que plataformas digitais e sistemas automatizados passaram a exercer influência crescente sobre a circulação de informações e a organização do debate público.
Transição energética amplia disputa por minerais críticos
A transformação da matriz energética mundial constitui outro eixo central da nova ordem internacional.
A expansão dos veículos elétricos, das baterias, das redes de transmissão e das tecnologias de energia renovável exige quantidades crescentes de lítio, cobre, níquel, cobalto, grafite e terras raras.
Segundo a análise apresentada por Ramonet, a demanda por esses minerais poderá triplicar até 2030.
A disputa por seu controle tende a ganhar importância semelhante àquela exercida historicamente pelo petróleo.
Nesse cenário, a América Latina ocupa uma posição estratégica devido à concentração de importantes reservas minerais.
Entretanto, Ramonet alerta para o risco de a região reproduzir um padrão histórico de dependência econômica, caracterizado pela exportação de matérias-primas e pela importação de produtos industrializados de maior valor agregado.
O desafio será desenvolver capacidade própria de processamento, fabricação e inovação tecnológica, de modo a transformar a riqueza mineral em desenvolvimento industrial e científico.
Revolução tecnológica pode aprofundar desigualdades sociais
Ramonet também chama atenção para as consequências sociais da automação e da inteligência artificial.
O aumento da produtividade não implica necessariamente melhoria das condições de vida da população.
Os resultados dependerão das políticas públicas, das relações de trabalho e dos mecanismos de distribuição dos ganhos econômicos.
A crescente concentração de poder nas plataformas digitais acrescenta uma nova dimensão à questão social.
Algoritmos já influenciam decisões relacionadas à concessão de crédito, contratação de trabalhadores, circulação de notícias e acesso a serviços.
Com a expansão da inteligência artificial, essas decisões poderão se tornar ainda mais automatizadas, ampliando a necessidade de transparência e controle democrático.
Informação, democracia e guerra também estão mudando
A revolução digital está transformando profundamente a produção e a distribuição de informações.
Embora a criação de conteúdo tenha se tornado mais acessível, sua circulação permanece fortemente concentrada em um pequeno número de plataformas tecnológicas.
A inteligência artificial amplia a capacidade de produzir textos, imagens, vídeos e vozes sintéticas em grande escala, tornando mais difícil distinguir informação jornalística, propaganda e manipulação.
Para Ramonet, a preservação da democracia dependerá também da existência de sistemas informativos plurais, transparentes e verificáveis.
As mudanças tecnológicas alcançam igualmente o campo militar.
Drones, satélites, sistemas autônomos, ciberataques, inteligência artificial e armamentos de precisão estão redefinindo as estratégias de guerra.
A fronteira entre tecnologias civis e militares torna-se progressivamente menos nítida, enquanto a superioridade tecnológica passa a desempenhar papel crescente nos conflitos internacionais.
Crise climática expõe contradição da nova ordem mundial
A crise climática acrescenta outra dimensão à transição histórica analisada por Ramonet.
A expansão da inteligência artificial poderá contribuir para melhorar a eficiência das redes elétricas, prever desastres naturais e aperfeiçoar a produção agrícola.
Ao mesmo tempo, os sistemas de computação avançada exigem grandes quantidades de eletricidade, água e infraestrutura física.
O jornalista observa que a transição digital e a transição energética são processos interdependentes, que precisam ser analisados conjuntamente.
Ramonet identifica ainda uma contradição fundamental: enquanto problemas como mudanças climáticas, pandemias e crises financeiras exigem níveis crescentes de cooperação internacional, as rivalidades geopolíticas e as respostas nacionalistas dificultam a construção de soluções coletivas.
A interdependência material entre os países aumenta justamente quando a confiança política internacional diminui.
Nova ordem mundial ainda está em disputa
Na conclusão de sua análise, Ignacio Ramonet sustenta que a humanidade atravessa uma fase de transição cujo resultado não está predeterminado.
A distribuição do poder entre as potências, o papel do Sul Global, o controle das novas tecnologias, o acesso aos recursos naturais e a capacidade de enfrentar a crise climática serão fatores decisivos na configuração do sistema internacional.
A soberania nacional, nesse contexto, passa a envolver não apenas a independência política, mas também a autonomia tecnológica, energética, produtiva e informacional.
A análise de Ramonet aponta, assim, para um período em que as decisões políticas e as escolhas estratégicas dos Estados terão papel determinante na definição das regras da nova ordem mundial.
Mais do que uma simples mudança na hierarquia das potências, trata-se de uma transformação histórica que poderá redefinir as relações entre Estado, mercado, tecnologia, sociedade e natureza.
Fonte: Brasil 247