Ideologia, identidade e voto: a direita indígena na Amazônia Legal

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Por Isabella Mota — Intercept Brasil

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A presença de candidaturas indígenas no espectro da direita política desafia a ideia simplista de que a identidade originária determina, por si só, um posicionamento ideológico. Na Amazônia Legal, os dados eleitorais revelam um movimento complexo, menos linear do que se costuma supor, guiado por trajetórias pessoais, buscas por espaço partidário e visões divergentes sobre desenvolvimento e autonomia territorial.

A Amazônia Legal segue como o principal território das candidaturas indígenas brasileiras e lidera tanto as eleições municipais quanto as eleições gerais. Os dados mostram que a região não apenas reúne a maior população indígena do país, mas também concentra a maior mobilização política institucional entre os indígenas.

Nas eleições municipais de 2024, os nove estados da Amazônia Legal registraram 1.277 candidaturas indígenas, o equivalente a 49,5% de todas as candidaturas indígenas do Brasil. Em outras palavras, praticamente uma em cada duas pessoas indígenas que disputaram cargos públicos estava na Amazônia.

Já nas eleições gerais de 2026, a liderança permanece. A Amazônia Legal reúne 80 das 192 candidaturas indígenas registradas para os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador e governador, representando 41,7% do total nacional. Apesar do crescimento de candidaturas em estados fora do bioma, nenhuma outra região alcança o mesmo volume de representações.

O cenário eleitoral: a diferença entre disputas municipais e gerais

Nas eleições municipais de 2024, a direita assumiu a liderança na preferência partidária entre as candidaturas indígenas autodeclaradas no Brasil. Impulsionadas pelo pragmatismo da política local e pela busca de alianças que garantam governabilidade e investimentos imediatos em infraestrutura nos municípios, 1.112 candidaturas filiaram-se a legendas de direita e centro-direita, representando 43,1% do total de postulantes indígenas.

A adesão deu-se maioritariamente em partidos de grande capilaridade regional, com destaque para o PP (186 candidatos), Republicanos (181), União Brasil (177), PSD (153), Podemos (110) e PL (93). A concentração geográfica esteve focada em estados com forte presença comunitária e disputas locais acirradas, liderados por: Amazonas (288), Bahia (81), Mato Grosso do Sul (80), Mato Grosso (73) e Pernambuco (70).

No cenário nacional e estadual de 2026, a presença da direita entre as lideranças indígenas sofre uma retração proporcional acentuada. Dos 192 registos autodeclarados no TSE, a direita responde por 51 candidaturas (26,6%), perdendo o posto de maior espectro para a esquerda, que passa a concentrar 63,5% do total. 

As 51 candidaturas de direita em 2026 estão distribuídas principalmente entre o NOVO (10 candidatos), DC (10), PL (8), PSD (7) e AGIR (5). Os estados com maior número de postulantes são Roraima (5), Mato Grosso do Sul (5), Amazonas (4) e Bahia (4). 

A mudança de comportamento evidencia a dualidade do eleitorado e das lideranças indígenas: no âmbito municipal, o alinhamento com legendas conservadoras é moldado pela necessidade de pontes com o poder local; já na esfera federal e estadual, a pauta da representação indígena reorienta-se para a defesa de direitos territoriais e ambientais.

Protagonismo da Amazônia Legal

O protagonismo amazônico é impulsionado principalmente por Amazonas, Roraima e Pará, estados que concentram grande diversidade de povos indígenas, extensas Terras Indígenas e organizações historicamente articuladas na defesa de direitos coletivos.

Mais do que um dado demográfico, a concentração de candidaturas revela uma resposta política aos conflitos que atravessam a Amazônia. É justamente no bioma mais pressionado pelo avanço do agronegócio, do garimpo, da exploração madeireira e das disputas fundiárias que cresce a presença indígena nas urnas, transformando a ocupação de câmaras municipais, assembleias legislativas e do Congresso em uma estratégia de defesa territorial e de incidência sobre políticas públicas.

A trajetória de Ray Kleber: entre a busca por espaço e o discurso de centro

Para Ray Kleber, 33 anos, a motivação para ingressar na política  nasceu do desejo de combater as desigualdades  vivenciadas em sua própria história. Indígena do povo Macuxi, nascido em Boa Vista, Roraima, Ray mudou-se aos seis anos para a Comunidade Indígena do Cedro, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, município de Normandia. 

Diante das carências estruturais do seu território, ele aponta a precariedade da educação pública como uma das principais falhas do estado. Estudos sobre a educação escolar indígena entre 2000 e 2019 indicam avanços importantes na formação docente e no acesso ao ensino superior durante as gestões do Partido dos Trabalhadores, embora especialistas ressaltem a falta de reformas estruturais de longo prazo. Por outro lado, gestões como as de Michel Temer e Jair Bolsonaro são frequentemente associadas a contingenciamentos orçamentários e retrocessos institucionais na área.

A precariedade forçou Ray a deixar a aldeia para dar continuidade aos estudos. “A gente não passou fome, porque a minha mãe mandou dinheiro do garimpo”, conta. O dinheiro do garimpo ajudou a criar Ray e seus seis irmãos e ainda, pagou a sua primeira graduação. 

Aos 19, disputou sua primeira eleição para vereador em Boa Vista, em 2012, pelo Republicanos. Tentou novamente em 2020 e 2024, desta vez filiado à Rede Sustentabilidade, de alinhamento à esquerda, mas não obteve êxito, mesmo tendo recebido consideráveis recursos: suas campanhas, somadas, declararam arrecadação de 143 mil reais.

Ele diz que a transição para o Podemos, no final de 2025, ocorreu em busca de uma legenda que oferecesse maior suporte e viabilidade eleitoral para sua pré-candidatura a deputado federal em 2026.

“A gente quando começa a sonhar entrar na política, parece que ela pisa um pouco mais na gente. Na verdade, eu acho que as pessoas que já estão no poder, não querem que a gente entre lá”, desabafa. Foi então que o candidato resolveu se filiar ao Podemos, em busca de conseguir mais investimentos para a campanha.

Para as eleições de 2026, Ray Kleber recebeu aproximadamente 500 mil reais do fundo partidário. “Eu fui para o Podemos para ter um espaço que eu não tinha antes. “Eu entendi que precisava estar num partido maior para ter mais condição para disputar uma eleição”, declarou.

Partidos como Podemos e Republicanos sustentam pautas predominantemente conservadoras e votaram favoravelmente a propostas como a tese do Marco Temporal —, aprovada no Congresso e atualmente sob julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2022, apesar de filiado à Rede, Ray votou em Jair Bolsonaro, justificando a escolha pela agenda econômica do ex-ministro Paulo Guedes.

Ray define seu posicionamento como de “centro”, defendendo propostas como o fortalecimento da agricultura familiar, o incentivo ao esporte para jovens e parcerias público-privadas. “Sempre vou defender menos Estado em alguns aspectos. Por exemplo, andei numa estrada em Pernambuco que é privatizada e bem cuidada. O Estado tem que continuar fazendo parte, talvez numa proporção de 50%. Esse é o caminho para mim”, afirma.

Ysani Kalapalo: ativismo digital, empreendedorismo e aliança com o bolsonarismo

Ysani Kalapalo, de 35 anos, prefere ressaltar suas origens no Parque do Xingu e sua ancestralidade vinculada a quatro etnias (Kalapalo, Matipu, Nafukuá e Aweti). Ativista desde a adolescência, ela iniciou sua presença pública em 2008 no Orkut, combatendo o preconceito e afirmando a presença indígena nos espaços digitais e urbanos.

Sua trajetória inclui a participação nos protestos contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará —, empreendimento licenciado durante as gestões do PT e que enfrentou intensas disputas judiciais sobre os impactos nas comunidades locais e o descumprimento da Convenção 169 da OIT.

Diferentemente de grande parte do movimento indígena tradicional, Ysani aproximou-se do pensamento conservador e liberal. “Eu não mudei; já era de direita”, sustenta. Segundo ela, em 2017 ficou claro que suas bandeiras sobre liberdade produtiva e empreendedorismo nas aldeias convergiam com o ideário da direita.

“Me identifiquei principalmente com o Bolsonaro, pregando os princípios da direita. Falei: ‘Essa é a minha luta’. Mas sempre fui uma ativista que se indignava com qualquer tipo de injustiça”, explica.

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Candidata a deputada federal pelo partido Agir no Mato Grosso, Ysani defende que o modelo de gestão das terras indígenas precisa garantir maior autonomia econômica para que as comunidades possam produzir, acessar crédito e explorar recursos de forma sustentável, reduzindo a dependência de programas assistenciais. Com um financiamento de campanha de cerca de 11 mil reais, Ysani está filiada a um partido isolado, ou seja, sem qualquer composição de coligação. 

Sua proximidade com Jair Bolsonaro consolidou-se em 2018. Mesmo com dados que apontam o aumento do desmatamento na Bacia do Xingu no período de 2019 a 2022, Ysani mantém a defesa da autonomia econômica como o caminho para o fortalecimento dos povos originários. Com mais de 380 mil seguidores no Instagram sob o slogan “Minha tribo é o Brasil”, ela utiliza as redes para aproximar a pauta indígena do público geral.

Movimento indígena, pragmatismo partidário e os desafios da representatividade 

Desde 2018, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a Apib, coordena a “Campanha Indígena”, criada para ampliar a presença dos povos originários na política institucional. A plataforma atua no fortalecimento de lideranças e na cobrança pelo cumprimento do financiamento proporcional de campanha determinado pelo TSE.

Contudo, a Apib não inclui candidaturas filiadas a partidos de direita ou extrema-direita. Segundo Dinamam Tuxá, coordenador executivo da entidade, embora alguns candidatos de direita possam defender pautas pontuais como a demarcação, o modelo de desenvolvimento proposto por essas legendas diverge dos princípios do movimento indígena organizado.

“Os partidos políticos geralmente questionam as candidaturas indígenas e não querem fazer os devidos investimentos por acreditar que são candidaturas que não terão voto”, afirma. Segundo ele, esse cenário começa a mudar quando candidaturas como as de Joenia Wapichana, atualmente candidata a deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Sonia Guajajara e Célia Xakriabá, ambas candidatas a deputadas federais pelo Partido Socialismo e Liberdade (Psol), conseguem se eleger.

Por outro lado, especialistas destacam o caráter pragmático do sistema partidário brasileiro.  “A gente não escolhe um partido por identificação ideológica para competir. A gente escolhe um partido pelas chances reais de ganhar uma eleição”, explica Carlos Augusto, professor de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará.

O professor também chama atenção para outro limite dos dados: o TSE classifica como indígena quem se autodeclara dessa forma. A categoria, portanto, reúne tanto pessoas vinculadas a comunidades e povos específicos quanto aquelas que reivindicam a identidade indígena por ancestralidade ou práticas culturais, sem necessariamente manter vínculo com uma comunidade organizada.

A presença dessas candidaturas, porém, revela que a identidade indígena não determina, sozinha, uma posição política — e que diferentes visões sobre Estado, economia, território e desenvolvimento também atravessam a disputa eleitoral.

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Fonte: Intercept Brasil

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