Houthis avançam no Iêmen e ameaçam rota do petróleo saudita no Mar Vermelho
Por Aquiles Lins — Brasil 247
247 – O avanço dos houthis pela costa do Iêmen abriu uma nova frente de pressão sobre o comércio mundial de petróleo nesta quinta-feira (10), ao aproximar o grupo alinhado ao Irã do Estreito de Bab el-Mandeb, passagem estratégica que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. O movimento ameaça especialmente as exportações da Arábia Saudita, que passaram a depender ainda mais dessa rota após o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz em meio à guerra com o Irã.
Segundo a Reuters, os houthis assumiram o controle da cidade portuária de Mocha e avançaram em direção às ilhas Hanish. Fontes militares ligadas ao governo iemenita afirmaram que as novas posições aumentam a capacidade do grupo de exercer influência sobre Bab el-Mandeb, uma das principais rotas marítimas do planeta.
A possibilidade de interrupções simultâneas em Bab el-Mandeb e no Estreito de Ormuz provocou reação imediata no mercado. O petróleo Brent chegou a subir 4% nesta quinta-feira e alcançou US$ 105 por barril, diante do temor de novos obstáculos ao transporte internacional da commodity.
Pressão sobre as exportações sauditas
A Arábia Saudita, maior exportadora mundial de petróleo, tornou-se particularmente vulnerável ao avanço houthi. O país vem utilizando intensamente a saída pelo Mar Vermelho desde que a guerra com o Irã praticamente fechou Ormuz, passagem pela qual circulava cerca de um quinto do petróleo consumido mundialmente.
O centro de coordenação de operações humanitárias administrado pelos houthis afirmou que a navegação pelo Mar Vermelho permanece segura para as companhias marítimas, com exceção das embarcações sauditas.
O porta-voz do grupo, Mohammed Abdulsalam, declarou que as ações militares são defensivas e seriam interrompidas caso cessem os ataques contra o Iêmen. Ele não forneceu detalhes adicionais sobre as operações.
Fontes do governo iemenita, do Irã e de outros países da região disseram à Reuters que o avanço desta semana pela costa teria ocorrido sob orientação direta da Guarda Revolucionária iraniana.
Disputa pelo “Portão das Lágrimas”
As forças houthis também avançam para o sul, em direção a Dhubab, localizada diretamente em Bab el-Mandeb e diante da ilha de Perim. De acordo com fontes militares citadas pela Reuters, o controle desses dois pontos é considerado fundamental para ampliar o domínio sobre o estreito.
Conhecido como “Portão das Lágrimas”, Bab el-Mandeb separa o Iêmen, na Península Arábica, de Djibuti e Eritreia, no continente africano. Sua posição permite conectar o Oceano Índico e o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e, posteriormente, ao Canal de Suez.
A passagem é essencial para o transporte de petróleo e derivados do Golfo Pérsico em direção ao Mediterrâneo, por meio do Canal de Suez ou do oleoduto Suez-Mediterrâneo, no Egito. Também é utilizada no comércio entre Europa e Ásia e no escoamento de commodities, incluindo petróleo russo.
O eventual fortalecimento dos houthis em Bab el-Mandeb teria consequências que ultrapassam o conflito no Iêmen. Com Ormuz já severamente afetado pela guerra, o Irã e seus aliados passariam a exercer pressão sobre dois dos corredores marítimos mais sensíveis para o abastecimento energético mundial.
Arábia Saudita em alerta
A escalada já provocou alertas dentro do território saudita. Autoridades da Defesa Civil emitiram avisos de emergência em Khamis Mushait, no sudoeste do país, pela quarta vez em 24 horas, em razão dos ataques dos houthis.
Fontes sauditas, paquistanesas e iranianas disseram que o Paquistão transmitiu a Teerã um alerta de Riad para que o governo iraniano contenha os houthis e evite uma ampliação da crise.
Segundo um alto funcionário iraniano ouvido pela Reuters, a resposta de Teerã foi: “O Irã não controla os houthis”.
Os houthis entraram diretamente na atual guerra ao lado do Irã com um ataque contra Israel em março. Em julho, anunciaram um bloqueio naval contra a Arábia Saudita e, neste mês, intensificaram ataques contra o sul do reino.
O grupo também integra o chamado “Eixo da Resistência”, rede de forças apoiadas por Teerã no Oriente Médio. Durante a guerra de Gaza, os houthis lançaram drones e mísseis contra Israel e atacaram embarcações mercantes no Mar Vermelho em apoio aos palestinos.
Trump prevê fim da guerra depois das eleições
A deterioração da situação no Mar Vermelho ocorre enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta as consequências econômicas e políticas da guerra contra o Irã. O aumento dos combustíveis contribuiu para pressionar sua popularidade às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, previstas para novembro.
Trump afirmou acreditar que o conflito terminará imediatamente depois da votação e acusou Teerã de tentar influenciar o processo eleitoral.
“Acho que a guerra vai terminar imediatamente após a eleição porque eles não conseguem resistir por mais tempo. Eles estão desesperados para tentar influenciar a eleição”, declarou o presidente estadunidense a jornalistas na quarta-feira (9).
Trump já havia estabelecido anteriormente outros prazos para o encerramento da guerra.
Durante a convenção republicana para as eleições de meio de mandato, o presidente também afirmou que os Estados Unidos podem atacar a chamada Montanha da Picareta, no Irã, onde existem dois complexos de túneis subterrâneos próximos à instalação de enriquecimento de urânio de Natanz.
Ormuz permanece sob forte restrição
Estados Unidos e Israel iniciaram os ataques militares contra o Irã em 28 de fevereiro, alegando, entre outros motivos, preocupações relacionadas ao programa nuclear iraniano. Teerã sustenta que suas atividades nucleares possuem exclusivamente objetivos pacíficos.
Nas últimas semanas, Washington vinha destacando avanços na escolta de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, mas a retomada dos combates neste mês voltou a dificultar qualquer perspectiva de normalização da passagem.
Dados preliminares de rastreamento de embarcações citados pela Reuters mostram que apenas sete navios atravessaram Ormuz na quarta-feira, metade da média registrada nos dez dias anteriores.
A mídia estatal iraniana informou ainda nesta quinta-feira que a Marinha da Guarda Revolucionária atacou uma embarcação não tripulada dos Estados Unidos na entrada do estreito.
Em outra frente, o Wall Street Journal informou, citando autoridades estadunidenses e do Oriente Médio, que o Irã teria retomado a produção de mísseis balísticos utilizando componentes já disponíveis e trabalhando em instalações subterrâneas.
A combinação entre as restrições em Ormuz e a ofensiva houthi em direção a Bab el-Mandeb eleva, assim, o risco de uma crise simultânea nas duas extremidades da Península Arábica. Para o mercado de energia, a possibilidade de restrições em dois corredores fundamentais ajuda a explicar a escalada do Brent para a faixa de US$ 105.
Fonte: Brasil 247