Horta comunitária fortalece a autonomia de mulheres camponesas e amplia o acesso à alimentação saudável em Goiás
Por Giovanna Campos — Jornal Opção

A produção de alimentos vai muito além do cultivo da terra. Ela também envolve autonomia, geração de renda, valorização dos saberes tradicionais e organização coletiva. Em Simolândia, no Nordeste goiano, um grupo de mulheres camponesas transformou esse entendimento em prática por meio de uma horta comunitária que, desde 2023, contribui para a distribuição local de alimentos saudáveis e fortalece a participação feminina na agricultura.
A iniciativa é conduzida por agricultoras ligadas ao Movimento Camponês Popular (MCP), integrantes do Quilombo dos Palmares. Organizadas sob o nome Mulheres do Cerrado, para além da hora, elas também coordenam a Cozinha Solidária Mulheres do Cerrado (CS018467). Nessa dinâmica, elas dividem o trabalho de produção, limpeza, coordenação, comercialização dos alimentos in natura da horta em feiras locais e distribuição de refeições gratuitamente através da Cozinha. As ações de solidariedade contam com o apoio do Governo Federal, através do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), mas também com o apoio dos alimentos do MCP, e da produção da horta.
A experiência ganha destaque nesta sexta-feira, 16 de outubro, quando é celebrado o Dia Mundial da Alimentação. A data convida à reflexão sobre o direito à alimentação adequada e saudável, a importância da agricultura familiar e o papel de quem produz os alimentos que chegam à mesa da população.
Para Mariene Pereira, membra do MCP e coordenadora do projeto Mulheres do Cerrado, a horta nasceu da necessidade de organizar a produção para ofertar alimentos saudáveis para quem mais precisa e também para fortalecer as feiras livres com alimentos cultivados por mulheres. A partir dessa articulação, as agricultoras construíram uma forma de trabalho que combina cooperação, geração de renda e valorização da produção camponesa. “Todas são agricultoras, e é uma coisa que todo mundo gosta de fazer. A gente também busca melhorar a renda das mulheres”, explica Mariene Pereira.

Trabalho e renda
A organização do grupo, incluindo a horta e a cozinha solidária, tem como base a divisão coletiva das tarefas. As mulheres trabalham juntas no cultivo, na manutenção do espaço, na entrega das refeições e na comercialização das ervas e verduras nas feiras. A produção da horta é destinada, inicialmente, ao atendimento das demandas da Cozinha Solidária. O excedente é vendido diretamente à população.
As feiras ocorrem às quartas-feiras e aos domingos, em dias escolhidos estrategicamente para alcançar diferentes públicos. Durante a semana, a movimentação de moradores da zona rural em direção ao centro de Simolândia amplia as oportunidades de comercialização. Aos domingos, a proximidade com uma igreja favorece o contato com as pessoas que circulam pelo local. É nesse dia que a Cozinha Solidária entrega alimentos.
A venda direta aproxima agricultoras e consumidores, cria oportunidades de geração de renda e permite que a população tenha acesso a alimentos produzidos no próprio território.
Mais do que uma alternativa de comercialização, a horta representa um espaço de organização das mulheres camponesas. Ao compartilhar responsabilidades e decisões, elas fortalecem seus vínculos comunitários e ampliam sua participação na economia local.
A experiência se relaciona a outras ações desenvolvidas pelo grupo, entre elas a participação na organização de atividades ligadas à Cozinha Solidária, que envolve o preparo e a entrega de refeições. Dessa forma, a produção agrícola se conecta a outras iniciativas de acesso à alimentação e mobilização comunitária.
Soberania alimentar
A experiência de Simolândia integra uma estratégia mais ampla do Movimento Camponês Popular, organização que atua no fortalecimento da agricultura camponesa e na defesa da soberania alimentar. Por meio da organização de agricultores e agricultoras, o MCP incentiva práticas produtivas, a valorização das sementes crioulas e a construção de alternativas para a comercialização dos alimentos.
A atuação do movimento articula produção, formação, organização comunitária e comercialização. Feiras, hortas coletivas, cozinhas solidárias e outras iniciativas locais contribuem para aproximar quem produz de quem consome, ao mesmo tempo que criam oportunidades para a permanência das famílias no campo e vida digna a toda a população.
Nesse contexto, a participação das mulheres é fundamental. Além de estarem diretamente envolvidas na produção agrícola, elas desempenham funções na organização dos grupos, na circulação dos alimentos e na manutenção de práticas tradicionais de cultivo e alimentação.
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Fonte: Jornal Opção