Há 34 anos, Câmara abria impeachment de Collor e testava a democracia
Congresso em Foco
Entrar
Cadastro
Entrar
Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
MEMÓRIA POLÍTICA
Congresso em Foco
28/9/2026 7:00
Há 34 anos, sob pressão dos caras-pintadas, em meio a denúncias de corrupção e ao isolamento político do presidente, a Câmara dos Deputados autorizava a abertura do processo de impeachment de Fernando Collor, o primeiro presidente eleito pelo voto direto após a ditadura militar.
Às 18h50 de 29 de setembro de 1992, Paulo Romano (PFL-MG) pronunciou o voto decisivo. Era o 336º “sim”, número necessário para autorizar a abertura do processo. “Meu voto pela dignidade, por aquilo que Minas Gerais representa, é sim.”
A chamada foi interrompida. O Plenário explodiu em aplausos e os deputados cantaram o Hino Nacional. A votação ainda prosseguiria, até chegar a 441 votos favoráveis, 38 contrários, uma abstenção e 23 ausências.
A jovem democracia inaugurada pela Constituição de 1988 atravessava seu primeiro grande teste presidencial. Embora o Congresso já tivesse afastado Carlos Luz e Café Filho em 1955, Collor se tornaria o primeiro presidente brasileiro julgado por crime de responsabilidade nos termos da Lei do Impeachment. Naquela noite, 336 virou 441.
O resultado encerrava uma etapa da crise que havia tomado as ruas e desarticulado a base parlamentar do primeiro presidente eleito pelo voto direto após a ditadura militar. Do lado de fora do Congresso, os caras-pintadas, com rostos pintados de verde e amarelo, haviam se tornado o símbolo de uma mobilização nacional pelo afastamento de Collor.
Em agosto, o presidente convocara os brasileiros a vestir as cores da bandeira em demonstração de apoio ao governo. A resposta veio em preto. No dia 16, manifestações reuniram multidões em diversas cidades. Dez dias depois, enquanto a CPI aprovava seu relatório, cerca de 250 mil pessoas participavam de uma passeata na Avenida Paulista, em São Paulo, e outras 60 mil acompanhavam a votação do lado de fora do Congresso.
Das denúncias à perda de apoio
A crise ganhara força em maio, quando Pedro Collor acusou o próprio irmão de envolvimento com um esquema de corrupção operado por Paulo César Farias, o PC Farias, tesoureiro da campanha presidencial de 1989. Segundo as denúncias, o empresário arrecadava recursos de empresas em troca de favorecimentos e movimentava dinheiro por meio de contas bancárias de terceiros.
A CPI instalada em junho investigou as movimentações financeiras e encontrou indícios de que recursos administrados por PC Farias eram utilizados para pagar despesas pessoais da família presidencial, incluindo gastos com a Casa da Dinda, residência de Collor em Brasília.
O depoimento do motorista Eriberto França, que trabalhava para a secretária particular do presidente, Ana Acioli, ajudou a revelar a rede de contas utilizadas pelo esquema. A chamada Operação Uruguai, apresentada por auxiliares do governo para justificar a origem dos recursos, também foi contestada durante as investigações. Collor negava as acusações e procurava desvincular-se das atividades do ex-tesoureiro.
Em 26 de agosto, a CPI aprovou, por 16 votos a 5, o relatório do senador Amir Lando. Em 1º de setembro, Barbosa Lima Sobrinho, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), e Marcello Lavenère, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), entregaram ao presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), a denúncia por crime de responsabilidade.
Eleito pelo pequeno PRN, Collor dependia de alianças com outras legendas para governar. À medida que as investigações avançavam, parlamentares antes alinhados ao Planalto passaram a defender a abertura do processo. Na reta final, o presidente ainda tentou impedir que a votação fosse aberta, mas o Supremo Tribunal Federal rejeitou o pedido. Em 24 de setembro, a comissão especial da Câmara aprovou o parecer de Nelson Jobim favorável à autorização do processo.
A última noite
Na véspera da votação, aliados de Collor ainda tentavam reunir deputados em encontros para recompor a base. Na manhã seguinte, Jaques Wagner (PT-BA) levou à tribuna uma versão irônica desses esforços. Segundo ele, haviam sido organizados três jantares, mas, em uma das casas, onde eram esperados cerca de 30 parlamentares, teriam aparecido apenas seis.
O então deputado afirmou que os mesmos seis convidados precisaram comparecer aos três encontros, por serem os únicos dispostos a participar das reuniões. O relato, registrado no Diário do Congresso Nacional, ilustrava as dificuldades do Planalto para mobilizar seus aliados na hora decisiva.
O isolamento também apareceu nas manifestações dos partidos. Durante o encaminhamento da votação, Ricardo Izar (PL-SP) lembrou que sua legenda havia apoiado a agenda de privatizações do governo, mas anunciou posição favorável à admissibilidade do impeachment depois de examinar os relatórios da CPI e da comissão especial.
De cadeira de rodas ao Plenário
Antes de Paulo Romano garantir a maioria necessária, outra cena havia marcado a sessão. O economista e deputado Roberto Campos (PDS-RJ), internado no Rio de Janeiro após uma infecção grave, deixou o hospital e viajou a Brasília especialmente para votar. Uma ambulância o levou do aeroporto à Câmara, onde entrou em cadeira de rodas.
Por causa de seu estado de saúde, Ibsen Pinheiro abriu uma exceção à ordem alfabética da chamada. Campos foi o primeiro deputado a votar, favoravelmente à abertura do processo, e depois retornou ao Rio de Janeiro.
O gesto tinha significado político. Defensor da liberalização econômica, Campos reconhecia méritos na agenda de Collor, mas havia anunciado, em 4 de setembro, que votaria pelo impeachment. Considerava que o presidente não conseguira responder satisfatoriamente às acusações e perdera as condições políticas de governar.
Da Câmara ao Senado
A decisão daquele 29 de setembro não significava a cassação imediata de Collor. Cabia à Câmara autorizar a instauração do processo por crime de responsabilidade, cujo julgamento competia ao Senado.
No dia seguinte, Ibsen Pinheiro encaminhou pessoalmente a decisão ao presidente do Senado, Mauro Benevides. O processo foi instaurado em 1º de outubro. No dia 2, Collor foi afastado do cargo e o vice-presidente Itamar Franco assumiu provisoriamente a Presidência.
Em 29 de dezembro, já durante o julgamento, Collor renunciou. A decisão não impediu a continuidade do processo. No dia seguinte, por 76 votos a 2, o Senado o condenou à inabilitação para o exercício de função pública por oito anos. Em 1994, o Supremo Tribunal Federal o absolveu das acusações criminais relacionadas ao caso por insuficiência de provas, sem alterar a sanção imposta pelo Senado.
A jovem democracia sob a Constituição de 1988 atravessava seu primeiro grande teste presidencial. Naquela noite, sob pressão das ruas e diante de uma ampla maioria parlamentar, a Câmara autorizou o julgamento do primeiro presidente eleito pelo voto direto após a ditadura. O número necessário era 336. Ao fim da votação, foram 441.
Tags
Temas
LEIA MAIS
Projeto de lei
Deputado propõe tipificar ocupação de imóvel rural como terrorismo
Projeto de lei
Pollon quer proibir urnas de votação em áreas dominadas por facções
CONGRESSO EM FOCO NAS REDES
Fonte: Congresso em Foco