Guerras e crise do multilateralismo tiram centralidade do clima nos discursos de Lula e Guterres na Assembleia Geral da ONU
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A crise climática continua entre os grandes desafios apontados pela Organização das Nações Unidas (ONU), mas perdeu centralidade diante de uma agenda internacional dominada por guerras, tensões geopolíticas, crise do multilateralismo e avanço da inteligência artificial. Essa mudança de foco aparece nos discursos do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e do secretário-geral da ONU, António Guterres, na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas nesta terça-feira (22), em Nova York.
Os dois trataram a emergência climática como uma das grandes ameaças do presente. Mas, na construção das falas, o tema divide espaço com uma sucessão de crises que pressionam diretamente a ordem internacional e a capacidade da própria ONU de coordenar respostas globais.
Lula afirmou que este é, desde sua primeira passagem pela tribuna da ONU, em 2003, “o momento mais crítico das Nações Unidas”. Disse que a organização está falhando em sua missão de evitar guerras e criticou a paralisia do Conselho de Segurança. Para o presidente, conflitos, corrida armamentista e tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma crise de proporções globais.
A questão climática aparece somente depois de um longo bloco dedicado às guerras, ao Oriente Médio, à Ucrânia, à soberania dos países e às relações de poder. Ao chegar ao tema ambiental, Lula afirma: que “até pouco tempo, a resposta à mudança do clima estava consolidada no centro da agenda internacional.” Em seguida, diz que o tema desapareceu dos debates do G7 e do G20 e defende a retomada da agenda climática.
Na parte ambiental, Lula cita o derretimento das geleiras do Himalaia e os riscos de um Super El Niño provocar chuvas intensas, secas e incêndios. Afirma ainda que os impactos atingirão principalmente os mais vulneráveis.
O presidente também apresentou o Brasil como parte da resposta à crise. Citou o Mapa do Caminho para a descarbonização da economia, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e a redução do desmatamento na Amazônia. Ao mesmo tempo, afirmou que o país seguirá pesquisando novas reservas de petróleo, incluindo a Margem Equatorial, e defendeu o uso dos minerais críticos e terras raras brasileiros como instrumentos de desenvolvimento e de inserção na transição energética global.
Assim, no discurso de Lula, o clima aparece também como questão de soberania, desenvolvimento econômico e disputa internacional por recursos estratégicos.
Tarifaço, soberania e Estados Unidos
Antes de falar de clima, porém, Lula dedicou espaço significativo à soberania brasileira e à relação com os Estados Unidos. Ao abordar a América Latina, criticou o que chamou de “tentações hegemônicas”. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou. Também criticou a ingerência externa em processos eleitorais e a divisão do mundo em zonas de influência.
Na área de segurança, rejeitou a necessidade de presença militar estrangeira para combater o crime organizado e defendeu cooperação internacional contra o fluxo de armas e dinheiro.
Lula voltou ao tema econômico ao criticar o uso de tarifas como instrumento de pressão. Disse que a Organização Mundial do Comércio está praticamente paralisada e atacou governos que, segundo ele, cedem a países que usam tarifas como instrumentos de coerção. Mais adiante, mencionou diretamente o “tarifaço contra nossa economia” e afirmou que o Brasil deverá registrar novo recorde de exportações.
A inteligência artificial também ganhou espaço. Lula defendeu a regulamentação das Big Techs e da IA, criticou a concentração de poder tecnológico e citou medidas brasileiras para proteger crianças, adolescentes, mulheres, artistas e usuários no ambiente digital.
Guterres e os quatro testes para o poder
Em seu último discurso de Guterres na Assembleia Geral como secretário-geral, Antonio Guterrez, apresentou ao público de chefe de Estado e imprensa os quatro grandes testes de poder para o mundo: guerra e paz, desigualdade, crise climática e inteligência artificial.
Logo no início, Guterres colocou as guerras, divisões geopolíticas, desigualdade, clima e IA dentro de uma mesma crise. Para ele, não são fenômenos isolados, mas capítulos de uma disputa sobre quem detém o poder e como ele é exercido.
Antonio Guterrez fez seu último discurso de Guterres na Assembleia Geral como secretário-geral
UN Photo/Loey Felipe
Ao falar sobre Gaza, Ucrânia, Sudão e Mianmar, o secretário-geral criticou a incapacidade das instituições internacionais de conter conflitos armados e voltou a defender uma ampla reforma do Conselho de Segurança.
O tema da agenda climática também foi apresentado como um grande teste, especialmente em termos de justiça entre gerações. Deu, porém, ênfase no fato de ser cada vez mais palpável que o planeta ultrapasse o limite de 1,5°C. Também defendeu planos nacionais de transição para além dos combustíveis fósseis, mais financiamento para adaptação e perdas e danos e maior participação dos países produtores de minerais críticos na riqueza gerada pela transição energética.
A inteligência artificial dominou também parte do discurso. Guterres fez um alerta para sistemas sem supervisão, transparência ou responsabilidade e defende cooperação entre países, inclusive diante da rivalidade geopolítica. Ele reivindica para a ONU um papel central na governança internacional da tecnologia.
No fim de sua fala, Guterres conecta os quatro temas ao dizer que as guerras aprofundam desigualdades, enquanto as desigualdades determinam quem consegue enfrentar choques climáticos. A crise climática, por sua vez, diz, pode alimentar instabilidade e deslocamentos. E a IA pode tanto ajudar a enfrentar essas crises quanto agravá-las.
Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente da República Federativa do Brasil, discursa no debate geral da octogésima primeira sessão da Assembleia Geral.
UN Photo/Loey Felipe
Arrefecimento da agenda
Começou no último domingo (20) a Climate Week de Nova York, uma das mais tradicionais do mundo e que geralmente acontece em paralelo à Assembleia Geral da ONU. Em um momento que, como destacaram os líderes, o mundo passa por múltiplas crises, a emergência climática, ainda que continua presente nos discursos, eventos e atividades das empresas e governoas, disputa atenção e recursos com guerras, rivalidades entre potências, enfraquecimento do multilateralismo e uma revolução tecnológica cujos efeitos ainda estão sendo definidos.
Também é interessante observar que, tanto no discurso de Lula quanto de Guterrez, a pauta climática parece estar cada vez mais associada a soberania, questões de segurança energética, recursos estratégicos, segurança nacional, disputa de poder e desigualdades. Deixa de lado, de certa forma, uma visão pragmática, econômica e estratégia, de negócios e também de governos. Os eventos climáticos – ondas de calor, incêndios, desastres naturais, chuvas e alagamentos, furacões e vendavais, apesar de serem relatados pelo mundo todo e preocuparem os países, não aparecem como a emergência central para os líderes que estiveram nas Nações Unidas.
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Fonte: umsoplaneta