Guerra entre EUA e China não é risco real, mas crises preocupam, diz historiador de Yale

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Por Victoria Lacerda — JOTA

O professor de História e Assuntos Globais da Universidade Yale, Odd Arne Westad, afirmou durante o JOTA Global , realizado em Nova York, no dia 23 de setembro, que comparar o momento geopolítico atual a uma nova Guerra Fria é um erro de análise. Segundo o historiador, especialista em Guerra Fria e na Ásia moderna, o mundo de hoje não é bipolar como era durante a disputa entre Estados Unidos e União Soviética, nem carrega o mesmo peso ideológico que definia aquele confronto. Para ele, o paralelo histórico mais útil para compreender o presente é o período anterior a 1914, às vésperas da Primeira Guerra Mundial.

“Recorrer ao paralelo com a Guerra Fria é, sinceramente, preguiça intelectual. Nos agarramos ao último grande sistema internacional porque é o que conhecemos melhor”, afirmou Westad, autor de um livro sobre o tema publicado também em português. A pergunta mais importante a ser feita, apontou ele, não é se o conflito atual se parece com a Guerra Fria, mas o que fazer se ele for algo estruturalmente diferente.

Westad afirmou que o verdadeiro risco geopolítico atual não é uma guerra direta entre grandes potências por divergências comerciais, mas a possibilidade de que conflitos hoje tratados como separados, como as tensões envolvendo Irã, Ucrânia e as relações entre Estados Unidos, Rússia e China, acabem convergindo. Ele lembrou que a Primeira Guerra Mundial foi desencadeada por um ato terrorista que, isoladamente, não teria sido suficiente para derrubar o sistema internacional da época, mas que se somou a tensões já existentes que líderes acreditavam poder manter sob controle separadamente.

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O historiador destacou que menos de 0,5% das pessoas vivas hoje já vivenciaram uma guerra entre grandes potências, o que, segundo ele, dificulta dimensionar o nível de destruição que esse tipo de conflito pode causar. Como exemplo, citou a Batalha do Somme, em 1916, na qual mais soldados morreram do que em todas as guerras entre grandes potências somadas nos cem anos anteriores.

Questionado sobre a reunião entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping prevista para o dia seguinte ao painel, Westad afirmou que a pauta principal deve ser a estabilização da relação comercial e tecnológica entre os dois países, incluindo controles de exportação. Westad disse haver motivo para otimismo moderado quanto à continuidade da trégua atual por pelo menos um ou dois anos, pois ambos os países enfrentam pressões internas que tornam a estabilidade conveniente no curto prazo, citando as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos e desafios econômicos domésticos na China.

O historiador pontuou, porém, que a inteligência artificial é um terreno à parte nessa relação. Nesse contexto, a China tem reagido de forma mais contundente a medidas americanas no setor, defendendo um diálogo mais direto sobre as implicações de segurança da tecnologia e alertando que o mundo estaria mais próximo da chamada inteligência artificial geral (AGI, do inglês Artificial General Intelligence) do que se pensava poucas semanas atrás. Para Westad, a visão chinesa é a de que o governo americano busca conter o desenvolvimento de IA do país da mesma forma que já tentou em outras áreas tecnológicas.

Oportunidade para a América Latina

Sobre a presença chinesa na América Latina, Westad afirmou que a região tem se tornado cada vez mais relevante para Pequim, principalmente do ponto de vista comercial, e que tentativas do governo americano de afastar a China da região, sob a lógica de que a América Latina seria seu “quintal”, tendem a ser irrealistas. Enquanto isso, a disputa entre Estados Unidos, China e Europa pode abrir oportunidades para que países latino-americanos desenvolvam suas economias na direção que desejarem, desde que a competição não transborde para questões de segurança, terreno em que nenhum país da região gostaria de se ver envolvido entre as duas potências.

O historiador defendeu a diversificação como estratégia central para a região, apontando a Europa como parceiro ainda subaproveitado, apesar de um grau de complementaridade econômica considerável, citando como exemplo o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia.

Ao encerrar o painel com recomendações práticas, Westad citou três lições do período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial. A primeira é o valor de instituições internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) , criada para evitar repetir os desastres do século 20, mas que não vem sendo suficientemente utilizada. 

A segunda é a necessidade de maior compreensão estratégica mútua entre as grandes potências e, a terceira lição, é o valor da rede de alianças globais dos Estados Unidos hoje, algo que não existia da mesma forma no início do século 20, e que pode fazer diferença se usada a favor da estabilidade internacional.

O JOTA Global teve realização do JOTA , com patrocínio de ApexBrasil, DLA Piper e Vale, suporte especial do Einstein Hospital Israelita e parceria institucional da Dinâmica.

Fonte: JOTA

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