Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, a advocacia e a IA que ia, veio
Por Redação — Jornal Opção

Pedro Lustosa do Amaral Hidasi
Especial para o Jornal Opção
Neste ano se completa meio século de lançamento do livro “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa. É um clássico da literatura graças aos tipos e sua linguagem, com os quais nós, advogados, convivemos diariamente. Assim como Guimarães Rosa, os clientes nos trazem histórias maravilhosas e ensinamentos para a vida toda. E aí voltamos à IA.
No sertão, ninguém espera a colheita antes de preparar a terra. A Inteligência Artificial aplicada ao atendimento em escritórios de advocacia segue lógica semelhante. Afinal, é preciso receber o primeiro contato, compreender minimamente a necessidade, organizar informações e encaminhar a pessoa ao profissional adequado. Como uma nascente que encontra vários caminhos pela terra seca, em vez de concentrar toda a água em um único ponto, ela se espalha e alcança outras distâncias.
A inteligência artificial aplicada ao atendimento faz algo parecido, pois distribui capacidade. Enquanto o advogado está em audiência, estudando uma questão complexa ou elaborando uma estratégia processual, o sistema continua recebendo contatos, coletando informações e organizando demandas. O advogado soma na carteira ao multiplicar a capacidade de sua estrutura.

Isso é particularmente importante em regiões nas quais a distância sempre representou um obstáculo. No Centro-Oeste, Norte e Nordeste, em que comecei a carreira na militância da advocacia, um cliente pode estar a centenas de quilômetros do escritório, que possui o conhecimento necessário para seu problema.
A máquina pode organizar o percurso inicial, mas a decisão jurídica permanece humana. Essa fronteira é essencial para que a tecnologia seja compreendida como instrumento de ampliação de capacidade, e não como substituta da relação profissional que sustenta a advocacia
A tecnologia reduz parte dessa distância e permite que um escritório receba contatos de diferentes municípios sem precisar reproduzir fisicamente sua estrutura em cada cidade. A IA funciona, nesse sentido, como uma vereda no meio da Caatinga, do Cerrado ou da Amazônia. Não substitui o destino, mas ajuda a encontrar o caminho.
O cliente ainda precisa do advogado para compreender sua história, interpretar juridicamente os fatos, construir estratégia, assumir responsabilidade profissional e estabelecer confiança.
A máquina pode organizar o percurso inicial, mas a decisão jurídica permanece humana. Essa fronteira é essencial para que a tecnologia seja compreendida como instrumento de ampliação de capacidade, e não como substituta da relação profissional que sustenta a advocacia.

Existe ainda a questão da velocidade. Quem conhece o sertão sabe que certas oportunidades são breves e que a chuva precisa encontrar a terra preparada. Na advocacia digital ocorre algo semelhante. Muitas pessoas procuram diferentes profissionais ao mesmo tempo, e um escritório que demora horas para responder pode perder uma oportunidade antes mesmo de conhecer o problema.
A inteligência artificial permite que esse primeiro contato seja recebido imediatamente. Sistemas como o ChatJurídico podem coletar informações iniciais e organizar potenciais clientes em etapas de atendimento até que a equipe humana assuma a condução.
Talvez essa seja uma das mudanças mais importantes provocadas pela IA na advocacia. Capacidade de atendimento e tamanho físico do escritório começam a deixar de ser sinônimos,. O escritório do futuro não será obrigatoriamente aquele com mais salas, mais funcionários ou a fachada mais imponente, mas aquele capaz de combinar tecnologia e humanidade, automatizando aquilo que é repetitivo para reservar inteligência humana ao que exige julgamento, responsabilidade e confiança.
A inteligência artificial pode ser como a chuva sobre a terra seca. Sozinha, não produz o futuro. Mas, quando encontra estrutura, conhecimento e preparo, faz surgir possibilidades onde antes parecia existir apenas limite. No sertão e na advocacia, a lição permanece a mesma. Não prospera necessariamente quem possui mais recursos. Muitas vezes, prospera quem aprende a utilizá-los melhor.
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Fonte: Jornal Opção