“Goiás é altamente privilegiado”: mineração eleva PIB em 32,86% e impulsiona arrecadação em municípios
Por Luan Monteiro — Jornal Opção

A chegada de grandes empreendimentos de mineração pode transformar a economia dos municípios goianos, mas o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), sozinho, não é suficiente para medir os efeitos da atividade sobre a população. É o que aponta o estudo “Goiás em Dados – A Influência da Mineração no Estado de Goiás”, que avaliou 82 indicadores em seis municípios com mineração estratégica.
Segundo a pesquisa, realizada pelo pesquisador do CNPq e diretor do Instituto Mauro Borges (IMB), Erik Figueiredo, a atividade mineral está associada a um crescimento adicional estimado de 32,86% no PIB municipal. O levantamento aponta ainda aumento de 29,95% na arrecadação de impostos e acréscimo médio de aproximadamente 2 mil vínculos formais de trabalho.
Os resultados serão apresentados nesta quarta-feira, 23, durante o Goiás Mineral 2026, evento promovido pelo Sindicato das Indústrias de Mineração de Goiás e do Distrito Federal (Minde), na Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), em Goiânia.
Para o presidente do Minde, Luiz Antônio Vessani, os números econômicos precisam ser analisados em conjunto com outros indicadores para mostrar de que maneira a riqueza gerada pela atividade mineral chega à população.
“O PIB é um número muito frio. A gente precisa detalhar esse número com outros aspectos, além do aumento da receita, para saber como é que esse dinheiro é distribuído”, afirmou ao Jornal Opção.
Segundo Vessani, os efeitos da instalação de uma grande operação mineral não ficam restritos à atividade extrativa. O aumento da demanda também movimenta empresas e serviços que passam a atender à nova dinâmica econômica dos municípios.
Oficinas, restaurantes, transportadoras, comércio e outros setores podem ser beneficiados. O estudo também identifica crescimento do emprego em segmentos como construção, comércio e serviços.
“O aumento do número de empregados e da população” está entre as transformações provocadas pela chegada de uma grande operação mineral, avalia Vessani. Segundo ele, porém, os efeitos variam conforme o tamanho do município e a dimensão do empreendimento.
Em cidades menores, a instalação de uma grande mineradora tende a representar uma mudança proporcionalmente maior na economia local. Em municípios maiores e com economia mais diversificada, o impacto relativo pode ser menor.
Arrecadação exige planejamento
Um dos pontos destacados pelo presidente do Minde é a necessidade de avaliar o destino dos recursos gerados pela mineração. Entre eles está a Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), cuja arrecadação é distribuída entre os entes previstos na legislação.
Para Vessani, a gestão desses recursos é determinante para transformar o aumento da arrecadação em melhorias permanentes para a população.
“A gente precisa ver a qualidade dos empregos. Precisa ver se o recurso de impostos que entra no município está sendo usado adequadamente”, afirma.
A pesquisa analisou, além da atividade econômica e do emprego, dimensões como saúde, educação, proteção social, dinâmica populacional, finanças públicas, infraestrutura, violência, segurança e qualidade do ar.
Nem todos os 82 indicadores apresentaram evolução na mesma direção. Segundo Vessani, alguns aspectos sociais permanecem praticamente estáveis após a chegada da mineração. O resultado mostra que o crescimento da atividade econômica não necessariamente se traduz, de forma automática, em avanço na mesma proporção em todos os indicadores sociais.
O desafio quando a mineração acaba
Outro ponto levantado pelo estudo e que estará em discussão no Goiás Mineral é a dependência econômica dos municípios em relação à atividade mineral. Como as jazidas são recursos finitos, a capacidade de diversificar a economia durante o período de exploração pode influenciar diretamente as condições econômicas e sociais da cidade quando a operação for reduzida ou encerrada.
Vessani reconhece que não é possível eliminar completamente esse risco. Para ele, a chegada de uma mineradora deve ser encarada também como uma oportunidade para estruturar outras atividades econômicas.
Catalão é citado pelo presidente do Minde como exemplo de município que conseguiu ampliar sua economia para além da mineração. Apesar da importância da atividade mineral, a cidade desenvolveu outras frentes econômicas e, na avaliação dele, apresenta hoje menor dependência do setor.
Niquelândia, por outro lado, é apontada por Vessani como um caso em que a diversificação econômica não avançou na mesma proporção.
“É durante esse processo que se vai ter maior ou menor sucesso na continuidade do bem-estar social do município quando acabar a mineração”, afirma.
A discussão coloca o planejamento de longo prazo no centro do debate: aproveitar o período de maior arrecadação, geração de empregos e circulação de recursos para estimular outras atividades capazes de permanecer depois da redução da exploração mineral.
Goiás e os minerais estratégicos
Além dos efeitos locais da mineração, o presidente do Minde vê uma janela de oportunidades para Goiás diante das mudanças nas cadeias globais de energia e alimentação.
O Estado possui produção de cobre, níquel, fosfato e terras raras, além de nióbio e outros minerais considerados estratégicos para diferentes cadeias produtivas. Parte desses recursos ganhou ainda mais importância diante da expansão de tecnologias relacionadas à transição energética.
“Goiás é um Estado altamente privilegiado dentro dessa situação moderna que nós temos no mundo em transformação”, afirma Vessani.
Na avaliação dele, o desafio não é apenas ampliar a extração, mas aumentar a capacidade de agregar valor aos minerais produzidos em Goiás. Isso passa por tecnologia, processamento e desenvolvimento de cadeias produtivas capazes de manter no Estado uma parcela maior da riqueza gerada pela atividade.
A estratégia também pode contribuir para reduzir a dependência de municípios em relação à simples extração mineral, ao estimular outras etapas da cadeia produtiva e novos investimentos.
Setor defende debate entre empresas e poder público
Para Vessani, o planejamento da mineração em Goiás precisa reunir governo, empresas, pesquisadores e outros setores da sociedade. Ele defende que as políticas públicas relacionadas à atividade considerem também o conhecimento técnico dos empreendedores e produtores minerais.
“O que a gente precisa é um ambiente de discussão sadio. A gente deve evitar polarizações”, afirma.
Segundo o presidente do Minde, a participação de quem atua diretamente na mineração pode contribuir para a formulação de políticas para o setor, especialmente diante do crescimento da demanda internacional por minerais estratégicos.
A proposta do Goiás Mineral 2026 é ampliar esse debate. O evento terá sete painéis sobre mineração e desenvolvimento, com discussões sobre agricultura e segurança alimentar, diversificação econômica, novas tecnologias de pesquisa e extração, minerais críticos, CFEM, sustentabilidade e desenvolvimento regional.
A apresentação do estudo de Erik Figueiredo abrirá a programação técnica. Na sequência, Vessani conduzirá o painel “Territórios que Transformam”, dedicado às experiências de desenvolvimento regional em municípios mineradores de Goiás.
Os dados apresentados pelo estudo mostram que a mineração tem potencial para provocar mudanças expressivas na economia municipal. O crescimento adicional estimado de 32,86% do PIB, porém, é apenas uma parte desse cenário. O desafio apontado pelo levantamento está em transformar a riqueza produzida durante a exploração mineral em desenvolvimento capaz de permanecer nos municípios mesmo depois do fim das jazidas.
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Fonte: Jornal Opção