Glauber Braga: “Quero continuar dando trabalho para a direita”

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Por Dafne Ashton — Brasil 247

247 – O deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) afirmou que pretende manter, em um novo mandato, a atuação de confronto com grupos políticos que controlam parcelas do orçamento federal e com iniciativas que, em sua avaliação, ameaçam a soberania nacional e os direitos dos trabalhadores. Candidato à reeleição, ele colocou o combate às emendas sem transparência e a participação popular na definição dos recursos públicos entre os principais eixos de sua plataforma.

As declarações foram feitas em entrevista ao programa Conversas com Hildegard Angel, da TV 247. Ao apresentar as prioridades de sua candidatura, Braga relacionou sua trajetória parlamentar aos embates travados na Câmara dos Deputados e afirmou que não pretende abandonar esse perfil de atuação.

“Eu não posso estar em Brasília para ficar de enfeite”, disse.

Segundo Glauber, sua atuação contra o chamado orçamento secreto ajuda a explicar os conflitos que enfrentou no Congresso e o processo que colocou seu mandato sob risco de cassação. O parlamentar sustenta que o episódio envolvendo um militante que o provocou repetidamente não pode ser analisado de maneira isolada das disputas políticas anteriores.

“Não foi por conta do provocador que me atacou oito vezes em locais públicos. Na quinta vez, xingou minha mãe de tudo quanto é nome. Não foi por isso e pela minha reação a ele. Foi porque o mandato vinha fazendo denúncias sistemáticas contra uma captura institucionalizada dos recursos públicos”, afirmou.

O orçamento federal ocupa lugar central no diagnóstico apresentado pelo deputado. Glauber argumenta que o crescimento das emendas parlamentares alterou a relação entre Executivo e Legislativo e reduziu a parcela dos recursos sobre a qual o governo federal possui liberdade para definir investimentos.

Para ele, o problema não está na existência das emendas parlamentares em si, mas na falta de transparência, rastreabilidade e controle público sobre determinadas modalidades de transferência.

“Orçamento secreto tem que acabar”, resumiu.

O deputado também defendeu que a sociedade seja chamada a participar diretamente dessa discussão. Entre as propostas mencionadas durante a entrevista está a realização de um plebiscito sobre a organização do orçamento e o peso das emendas parlamentares.

Emendas definidas pela população

Como contraponto ao modelo que critica, Glauber destacou a experiência das chamadas “emendas participativas”, mecanismo adotado por seu mandato para definir a aplicação das emendas individuais.

Segundo o deputado, a destinação dos recursos é discutida em encontros públicos nos quais moradores, estudantes, professores, movimentos e instituições apresentam prioridades e deliberam sobre projetos que poderão receber verbas.

“Nós não indicamos verba de orçamento secreto. Nas emendas individuais, que são regulares e publicadas, a gente faz emendas participativas, o povo definindo onde o recurso público vai ser utilizado”, declarou.

Ele citou como exemplos recursos destinados a municípios do interior do Rio de Janeiro, à Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e a projetos voltados à tecnologia assistiva para pessoas com deficiência.

O parlamentar também mencionou investimentos em pesquisas sobre Alzheimer desenvolvidas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O tema ganhou dimensão pessoal para Glauber após sua mãe desenvolver a doença.

Segundo ele, o contato com pesquisadores mostrou as dificuldades enfrentadas por centros científicos que trabalham com recursos limitados. O mandato passou, então, a destinar verbas definidas por meio de processos participativos para pesquisas e projetos de atendimento relacionados às demências.

Braga afirmou que está em desenvolvimento uma iniciativa de R$ 13 milhões, ainda em fase de detalhamento junto ao Ministério da Saúde, que deverá combinar pesquisa e acolhimento de pessoas com Alzheimer, outras demências e seus familiares.

A experiência é apresentada pelo parlamentar como demonstração de que as emendas podem continuar existindo sem reproduzir mecanismos de distribuição de recursos que dificultem a identificação de responsáveis e beneficiários.

“Em Brasília, se eu não brigar, eles pisam na nossa cabeça”

Ao comentar a imagem de parlamentar “brigão”, Glauber reconheceu que os enfrentamentos fazem parte de sua trajetória, mas rejeitou a ideia de que eles sejam resultado de disputas pessoais.

“Às vezes dizem isso e é verdade. Em Brasília, se eu não brigar, eles pisam na nossa cabeça. Mas eu não sou brigão por uma questão pessoal e individual”, afirmou.

Ele enumerou episódios que o levaram ao Conselho de Ética e relacionou cada um deles a uma disputa política: as críticas a Sergio Moro e à Operação Lava Jato, a oposição à privatização da Petrobras, as denúncias relacionadas ao orçamento secreto e a defesa da realização de uma audiência em solidariedade ao povo palestino.

O deputado disse que pode alterar a forma de apresentar determinadas críticas, inclusive reduzindo o uso de adjetivos, mas afirmou que isso não significa abandonar os conflitos políticos que considera necessários.

“Eu não posso deixar de fazer enfrentamentos quando se tratam de questões fundamentais, porque senão eu não estaria cumprindo aquilo que é a vontade, inclusive, dos meus eleitores que estão me levando a Brasília”, declarou.

O processo de cassação também foi associado pelo parlamentar à disputa em torno das emendas. Materiais disponíveis no Glasp sobre o episódio registram que Glauber apresentou publicamente o combate ao orçamento secreto como uma das questões políticas relacionadas ao processo contra seu mandato.

Para ele, a mobilização fora do Congresso teve papel decisivo na defesa do mandato.

“A mobilização nas redes, nas ruas, faz com que os deputados saibam o que está acontecendo”, disse.

Fim da escala 6×1

Outro ponto destacado por Glauber foi a agenda trabalhista. O parlamentar recordou que, após uma reunião com integrantes do movimento Vida Além do Trabalho, levou à tribuna da Câmara, em 2023, a defesa do fim da escala 6×1.

Para o deputado, a repercussão posterior do tema demonstrou que pautas inicialmente tratadas como inviáveis podem modificar o comportamento parlamentar quando alcançam dimensão social.

Ele citou o avanço da discussão no Congresso como exemplo de como a pressão organizada pode modificar os cálculos políticos dos deputados.

“Eu só vi ganho para a classe trabalhadora quando teve uma mobilização social pressionando também o espaço institucional”, afirmou.

Glauber relacionou essa estratégia à própria discussão sobre o orçamento público. Em sua avaliação, a distribuição das emendas precisa deixar de ser um assunto restrito ao Congresso e se transformar em debate público.

O deputado também incluiu entre suas prioridades a oposição à ampliação da pejotização das relações de trabalho e a defesa de direitos trabalhistas.

Soberania e privatizações

A defesa da soberania nacional foi apresentada como outro eixo do mandato. Glauber relacionou o tema à política externa, às empresas públicas e à atuação das plataformas digitais.

Durante a entrevista, ele afirmou que o Brasil atravessa um período em que as disputas internacionais voltaram a interferir diretamente na política interna dos países latino-americanos.

Nesse contexto, declarou que pretende manter uma atuação parlamentar vinculada ao que define como luta anti-imperialista.

“Cada vez é mais importante ter nesses espaços alguém que faça a luta anti-imperialista”, afirmou.

O deputado também voltou a criticar as privatizações e relatou que, antes da entrevista, havia participado de uma atividade com trabalhadores da antiga Eletrobras no Rio de Janeiro.

Braga defendeu a reintegração ou realocação, em outras empresas estatais e órgãos públicos, de trabalhadores concursados dispensados depois da privatização da companhia. Para ele, além da questão trabalhista, a medida permitiria preservar conhecimento técnico acumulado por profissionais do setor elétrico.

A posição se conecta a uma atuação anterior do parlamentar contra privatizações, incluindo a resistência à transferência do controle de empresas consideradas estratégicas.

Licença para quem cuida das crianças

Glauber também apresentou uma proposta elaborada em conjunto com a deputada Sâmia Bomfim para ampliar a participação das famílias nos primeiros meses de vida das crianças.

O parlamentar relatou sua própria experiência após o nascimento do filho e criticou o período reduzido da licença-paternidade.

A proposta defendida por ele prevê que duas pessoas de referência da criança possam participar do período de cuidado, levando em consideração diferentes configurações familiares.

“A responsabilidade fica toda nas costas das mulheres”, afirmou ao explicar uma das razões do projeto.

Segundo Braga, a medida poderia alcançar famílias formadas por pai e mãe, duas mães, dois pais ou outros arranjos em que duas pessoas sejam responsáveis diretamente pelos cuidados da criança.

“Fui cada vez mais me radicalizando”

Ao avaliar sua trajetória no Congresso, Glauber afirmou ter percorrido caminho inverso ao processo de moderação que, segundo ele, costuma ser atribuído a parlamentares depois de vários anos de mandato.

“Dizem que, quando você é eleito, você se institucionaliza cada vez mais e se modera no exercício do mandato. Comigo foi o contrário. Eu fui cada vez mais me radicalizando no exercício do mandato parlamentar”, declarou.

Segundo ele, a experiência no Legislativo reforçou a conclusão de que transformações políticas não dependem apenas de negociações institucionais. O parlamentar defende uma relação permanente entre mandato e mobilização social.

Apesar de se considerar integrante de uma corrente minoritária na Câmara, Glauber rejeitou a ideia de isolamento. Citou outros parlamentares com quem compartilha pautas e destacou a presença de movimentos sociais durante o processo que ameaçou seu mandato.

Na reta final da entrevista, Glauber resumiu o papel que pretende desempenhar caso conquiste um novo mandato: manter a Câmara como espaço de repercussão de conflitos que acontecem fora do Congresso.

Para o deputado, as disputas políticas não terminam com o resultado eleitoral. Elas continuam no debate sobre orçamento, relações de trabalho, patrimônio público e soberania.

É nesse sentido que Glauber Braga apresenta sua candidatura: não como promessa de redução dos conflitos que marcaram sua passagem pela Câmara, mas como continuidade deles.

“Tô cumprindo a minha tarefa e vou continuar cumprindo”, afirmou.

Fonte: Brasil 247

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