Gestão do transporte pelo crime organizado

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Por Jacqueline MunizBrasil 247

O setor de transporte é, sobretudo, logística em movimento. Quem controla os modais, as rotas, os pontos de embarque, circulação e distribuição passa a controlar fluxos de pessoas, bens, serviços e mercadorias. E esse controle produz poder, uma dimensão de governo sobre o território e sobre a população que nele circula. Daí sua importância estratégica para a governança criminal nodal, que viabiliza a organização político-econômica itinerante e em rede do crime organizado.

O crime organizado contemporâneo se estrutura de forma translocal, por meio de nós estratégicos de circulação, conexão e regulação, sustentados pela garantia coercitiva dos domínios armados, com a chancela de segmentos estatais. O transporte é um desses nós centrais porque permite organizar rotas, definir acessos, cobrar pela circulação, selecionar quem e o que se desloca e articular diferentes mercados legais e ilegais.

Controlar transportes significa controlar dimensões da segurança pública e aquilo que a segurança produz: acesso, mobilidade, proteção, restrição, rotinas da vida das pessoas e previsibilidade dos fluxos. Esse domínio pode se estender muito além de um único modal — ônibus, vans, carros de aplicativo etc. — e se converter em capacidade política de governo sobre territórios e populações.

Há também uma dimensão econômica decisiva. O transporte oferece oportunidades de negócios por conta de suas inúmeras brechas regulatórias. É nessas brechas que se desloca continuamente a fronteira entre o legal e o ilegal, negociada com agentes do Estado que policiam e fiscalizam a prestação de serviços públicos essenciais. A apropriação de serviços de transporte pelo crime organizado é antiga, e sua pretensão de participar de consórcios nessa área é um bom exemplo de como empresas regulares, concessões, serviços informais, cobranças clandestinas, lavagem de dinheiro, extorsão e mercados ilícitos podem passar a integrar um mesmo circuito econômico.

A presença do crime organizado em um setor que tem forte presença do Estado, desde autorizações e concessões até repasses, fiscalização e definição de tarifas, revela também suas conexões políticas com o Executivo e o Parlamento. Isso ajuda a compreender o papel dos governos criminais e a importância da diversificação econômica das organizações criminosas. Elas deixam de depender exclusivamente de mercados como drogas e armas e passam a investir em atividades capazes de gerar renda contínua, presença territorial e influência política. O transporte é particularmente decisivo porque reúne essas três dimensões: negócio, controle territorial e capacidade de governo.

Nesse setor, o Estado não aparece apenas como força externa que combate o crime. Ele também funciona como agência reguladora das condições em que mercados legais e ilegais se encontram, se separam ou se tornam permeáveis. Regras, concessões, fiscalizações, omissões, tolerâncias e seletividades estatais interferem diretamente na forma como essa fronteira entre legalidade e ilegalidade é produzida e deslocada.

Quando uma organização criminosa passa a controlar transportes, ela não está simplesmente abrindo mais uma frente de negócios. Está construindo uma infraestrutura de poder em parceria com segmentos do Estado: controla a circulação, amplia mercados, regula territórios, interfere na vida cotidiana e acumula capacidade de negociação econômica e política.

Fonte: Brasil 247

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