Geração Z vê casa própria como meta distante, em cenário de juros altos e renda pressionada

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A Gazeta

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Geração Z vê casa própria como meta distante
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A compra de imóveis já foi a base de estratégias de investimento. Hoje, entretanto, o cenário é outro, em especial, para uma geração que busca segurança em meio a um futuro percebido como incerto.

Para parte da geração Z, nascida entre 1997 e 2012, o mercado imobiliário não é visto como um meio de acumular capital, mas sim como um objetivo de longo prazo. E, muitas vezes, é necessário investir antes para conseguir ter a entrada e fazer o financiamento caber no bolso.

Estudos como Retratos do Morar, do Grupo Quinto Andar com a Ipsos-Ipec em 2025, ilustram esse cenário. Apesar de a geração Z liderar a intenção de compra de imóveis no Brasil, com metade dos entrevistados afirmando que pretendem adquirir um nos próximos anos, apenas 14% pensam neles como investimento —o menor índice dentre todas as faixas etárias.

“A mudança está na percepção de acesso”, diz a advogada e especialista em finanças comportamentais Carol Velloso.

“E quando o imóvel é pensado como investimento, e não moradia, esse mesmo entrave de capital se soma a uma questão de liquidez: comprar um imóvel ou terreno para investir exige capital inicial alto, entrada expressiva e financiamento de longo prazo em um cenário de juros elevados”, diz.

Se antes educação e um bom trabalho eram considerados caminhos naturais para conquistar a segurança financeira, simbolizada pela aquisição da casa própria, jovens têm se percebido em uma rota diferente.

“Após sucessivas crises, incluindo a pandemia da Covid-19, os jovens lidam com maiores incertezas sobre essas conquistas, optando por adiá-las por falta de dinheiro até mesmo para a entrada do imóvel”, explica Velloso.

É o caso do psicólogo Henrique Pasquin, 26, que prioriza investimentos de maior segurança e liquidez, como CDBs (certificado de depósito bancário), em meio a um futuro que vê como incerto.

“Sinto uma insegurança significativa a respeito do cenário econômico futuro, tanto nacional quanto global, e esse receio me leva a um aporte muito mais conservador a respeito de planejamento futuro, inclusive mais do que eu gostaria.”

A sensação de instabilidade tornou a construção de uma reserva emergencial sólida seu objetivo imediato —mesmo que isso signifique passar alguns anos com despesas a mais, incluindo o aluguel.

“Vejo adquirir um imóvel como um investimento interessante e resiliente, tanto pela própria valorização do terreno quanto por reduzir uma dívida passiva, de aluguel, e se tornar um ativo em potencial, mesmo que no longo prazo.”

A questão é como dar início a essa jornada: “Não consigo me ver tendo aporte para engajar nessa etapa em menos de uma década”, relata.

E não é só uma questão de percepção: “Hoje, mesmo entre os jovens mais bem remunerados, comprar a casa própria exige um esforço proporcionalmente muito maior do que exigia no início dos anos 2000”, pontua Matheus Villela, analista da gestora de patrimônio Aware Investments.

Ele explica que a deterioração do poder de compra imobiliário aparece de forma concreta nos dados a partir dos anos 2000. Um estudo da FGV (Fundação Getúlio Vargas) sobre lançamentos residenciais na Grande São Paulo evidencia que, de 2000 para 2006, o preço médio de um apartamento de 105 m², já corrigido pela inflação, passou de aproximadamente R$ 194 mil para R$ 353 mil —aumento real de mais de 80% em apenas seis anos.

Com o preço dos imóveis subindo em um ritmo real superior a qualquer faixa de renda, o descompasso se acumulou por mais de duas décadas, como explica Villela. Em dezembro de 2025, segundo o Índice FipeZAP, o preço médio de venda residencial no país foi de R$ 9.600 por metro quadrado —ao mesmo tempo em que o rendimento médio real habitual das pessoas ocupadas no país foi de R$ 3.600.

“Em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, o valor por metro quadrado é ainda maior, criando um efeito de retroalimentação em que ganhar bem quase sempre implica morar onde comprar é mais difícil”, explica o analista.

Aposentadoria também é preocupação

Estudo da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) em parceria com o Datafolha aponta que 66% da geração Z pretende começar a poupar para a aposentadoria, enquanto apenas 12% já começaram a poupança.

É o caso do estudante de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Pedro Fonseca, 22, que também visa um futuro com casa própria –mas hoje tem como principal objetivo com os investimentos viabilizar uma aposentadoria.

“Meu pensamento é fazer o patrimônio crescer aos poucos, que me permita no futuro viver dos dividendos ou até mesmo de saques. Recebo uma pensão para me manter no Rio, e o que sobra, invisto”, relata Fonseca.

“Sempre pensei que, sendo jovem, poderia ter mais apetite para o risco, para o caso de, caso perca, ainda tenho tempo de reconstruir. Porém, mesmo pensando assim, acabei montando a carteira de forma mais previdenciária mesmo”, explica o estudante.

Além de ações de empresas grandes e pagadoras de proventos, Fonseca concentra sua renda na segurança do Tesouro e em Fundos Imobiliários, onde achou mais prático de aprender, acompanhar e ter dividendos mensais.

“Hoje, tenho estudado mais com cursos de finanças e também na faculdade, mas sempre com o objetivo de construir o patrimônio aos poucos. Entendo que o que vai contribuir mais é quando eu entrar no mercado de trabalho”, espera o estudante.

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Fonte: A Gazeta

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